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Moksha e individualidade

Os ocidentais, quando se aproximam da filosofia oriental, chegam sem antes de fazer um exame rigoroso de mentalidade, pois imaginam que as controvérsias da filosofia oriental (principalmente a hindu) são de ordem semelhante às disputas filosóficas e metafísicas ocorridas no Ocidente.

Por isso notamos que até estudiosos e eruditos do quilate de um Pe. Leonel Franca cai em erros primários ao tratar da filosofia hindu [1], pois imaginam que é possível reduzir essas questões na dialética ou até mesmo na erudição. Orientalistas muito mais eruditos que Guénon em diversas áreas, como Max Muller, por exemplo, não compreenderam diversos aspectos fundamentais da doutrina hindu, e serviram como próceres de diversos movimentos modernos que deturpam a doutrina em diversos momentos sentimentalóides, panteístas e reencarnacionistas.

Quando chegamos a tratar desta questão, as dúvidas e problemas oferecidos à nossa mentalidade aumentam ainda mais, já que este assunto causou e ainda causa controvérsia mesmo entre os orientais, com a diferença que entre eles há uma certa noção do que está em disputa.

Em primeiro lugar, os partidários do tomismo ou de outras correntes filosóficas cristãs, acreditam absurdamente que a extinção da dualidade é uma espécie de aniquilação. Isso porque, para eles, existência quer dizer necessariamente individualidade, e então já fazem suas apressadas conclusões: “isso [o não-dualismo] é uma doutrina niilista, atéia”, “é aniquilacionismo” e assim por diante. Ora, isso demonstra duas coisas: ignorância, pois o sujeito não tem noção do que o não-dualismo toma como existência, ou personalismo histérico, com base num dualismo construído a um apego à padraiada cristã e principalmente a escolástica, já que não podemos incluir todos os santos nesta interpretação pois São Dionísio e Mestre Eckhart fogem um pouco dessa regra.

Lutero, a besta beberrona e fideísta, duvidava da santidade de São Dionísio, que para ele era mais “neoplatonista que cristão”.[2] Como, infelizmente, nosso atual Ocidente lembra mais de javalis selvagens como Lutero que de santos como Mestre Eckhart, é natural que à primeira vista cause um certo espanto as doutrinas não-dualistas orientais.

Os caminhos apresentados pela filosofia hindu, o caminho da gnose (jnana-marga), o caminho da dedicação (bhakti-marga), não são caminhos opostos, mas sim diferentes. Normalmente, a mentalidade ocidental toma o bhakti-marga como o oposto do jnana-marga, o que é falso, pois o que os defensores das duas escolas, em todos os debates públicos feitos até hoje, buscaram apenas identificar o seu caminho como o summum bonum, aquele que realmente liberta de todo sofrimento e ilusão. Enquanto o bhakta afirma que a experiência do jnani, embora existente, é uma ilusão diante da verdadeira satisfação que é serviço devocional à Personalidade Suprema, enquanto o jnani afirma que o estado do bhakta, embora existente, é ilusório, pois está preso dentro da individualidade que é a separação de Brahman.

No entanto, para nós é mais fácil entender o bhakti-marga que o jnana-marga, pois a maioria de nós foi criado com aquela idéia de um céu de anjos sentados nos nuvens, tocando harpa, com os salvos contemplando a divindade.

Como eu já disse acima, há muita incompreensão aqui no Ocidente em relação ao não-dualismo, principalmente devido a cousas como a injusta excomunhão de Mestre Eckhart, a visão dominante do neoplatonismo como gnóstico e essencialmente anticristão. Com isso, padres como Santo Evrágio, São Máximo o Confessor e São Dionísio são jogados para baixo do tapete, e qualquer estulto armado de um manual tomista pode zurrar seus anátemas e condenações numa questão que não é para o seu bico.

Os complexos Upanishads, em seus vários koans e passagens obscuras, lançaram cousas que são discutidas e interpretadas até hoje, como esta do Brhdaranayak Upanishad:

“Quando o sol se apagar… a lua se apagar… o fogo desaparecer… o discurso calar, qual luz a pessoa terá?”

A questão de como algo corruptível e sujeito à morte e devir pode “tornar-se partícipe da natureza divina” ou “voltar a Brahman” foi respondida corretamente por Mestre Eckhart, com sua doutrina do “esvaziamento do ser”, que consiste no esvaziamento do indivíduo para que o vazio seja completado por Deus, até que este vazio se torne completo para que Deus preencha a tudo.

Moksha é o fim da intelecção, que é diferente da destruição do intelecto, já que onde não há mais distinção entre visão e vidente, cessa também a intelecção. Aos que acham isso muito distante do Cristianismo, trazemos uma citação de São Dionísio:

“É então somente que, ultrapassando o mundo em que se é visto e onde se vê, Moisés penetra na Treva verdadeiramente mística do não-cognoscível; é aí que faz calar todo saber positivo, que escapa inteiramente a toda compreensão e toda visão, porque ele pertence inteiramente Àquele que está além de tudo, porque ele não pertence mais a si mesmo nem pertence a nada de estranho, unido pelo melhor de si mesmo Àquele que escapa a todo conhecimento, após ter renunciado a todo saber positivo e, graças a este próprio não-conhecimento, conhecendo para além de toda inteligência.” Obra Completa, Pseudo-Dioníso o Areopagita (sic), Paulos, 2004, Pg. 132

Mestre Eckhart segue de forma semelhante: “O que o novato teme é o gozo do sábio; o reino de Deus não é para ninguém exceto os totalmente mortos.” (I, 419).

Pois essas palavras não parecem muito semelhantes ao que Krishna diz a Arjuna no Gita? “Aquele que abandona todos os desejos materiais torna-se livre da saudade dos sentimentos de ‘eu’ e meu’, alcançando a paz.” (BG 2,71, grifos meus)

No livro do Apocalipse, São João relata uma cidade que “não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina” (Apocalipse 21,23); semelhante ao Mundaka Upanishad “Lá o sol não brilha, nem a lua ou as estrelas, nem essas luzes, e muito menos o fogo. Quando ele brilha, tudo brilha depois dele; por sua luz tudo é iluminado” (2,2,10).

Essa escuridão divina (a mesma escuridão divina de Êxodo 20,21), que é a iluminação divina que não é iluminada, o desconhecimento que nenhum conhecimento pode conhecer (cf. Carta de São Dionísio a Gaio), está além de qualquer compreensão é o “desconhecimento transcendente”.

Neste desconhecido, também chamado de agnosia (o estado que São Dionísio descreve como o “não saber nada, que está acima de todo conhecimento), tudo que é de ordem invidual (vontade), se extingue, como diz São Boaventura “reduz à humildade as idéias insensatas da tua vontade, e empenha-se em subjugar a besta cruel. Estás preso à vontade; esforça-te em desatar este laço que não poderia ser rompido. Tua vontade é tua Eva.”

Isso também aparece na história de Leander Märchen, do homem que acordou no céu e pediu a São Pedro e pediu todos os confortos que sonhara a vida toda. Depois de um tempo, quando foi reclamar com São Pedro sobre a monotomia, o sujeito descobriu que na verdade estava no inferno, pois no céu não há esse tipo de vontade, de seguir os próprios desejos, mas apenas a vontade divina.

[1] – Noções de História da Filosofia, , Cap. I, Pe. Leonel Franca, V Edição, 1930

[2] – The Neoplatonic Philosophy of Dionysius the Areopagite, Eric D. Perl, State of New York University Press, 2007

Recomendação

Recomendo aos amigos o blog do Daniel Placido, um estudioso muito sério de metafísica, esoterologia e filosofia. Não deixem de conferir a bibliografia que ele fez sobre esoterologia.

Pois bem, no nyaya, vaisheshika e no purvamimamsa o conceito de abhava, que é a não-existência dividida em quatro categorias. Muito embora no advaita o conceito de abhava não seja colocado como uma categoria, creio eu que é útil analisá-las para melhor entender o conceito de realização metafísica, já que muitas vezes a pergunta “qual a diferença entre aniquilação e realização metafísica?” é levantada.

São elas:

1. prag-abhava – a não-existência anterior à criação.
2. pradhavamsa-abhava – a não-existêncioa posterior à destruição.
3. atyanta-abhava – a não-existência limitada, pois o objeto não existe em outro tempo particular além daquele que está limitado no espaço.
4. anyonya-abhava – É a diferença entre uma coisa e outra. Por exemplo: não existe um cachorro que é um gato. O que existe entre o cachorro e o gato é uma não-existência mútua, chamada anyonya-abhava.

Mas, o que isso pode resolver o nosso problema? Bem, sabemos que tudo nos modos de existência material passou a existir durante a criação, e portanto, um gato não é um gato que brotou da não-existência, mas um gato que existia em potência e passou a existir no mundo grosseiro. Desta forma, o realizado é aquele que não opera mais em si mesmo maya ou avidya, e que portanto, está além das ilusões de maya de expansão e limitação.

Utilizando uma outra analogia: peguem uma pessoa que não sabe matemática – ela só saberá que é ignorante em matemática quando alguém lhe fizer questionamentos sobre matemática e ela não conseguir responder. É neste ponto, quando a pessoa se dá conta de avidya, que ela está apta para alcançar moksha.

Então, Brahman é qual dessas não-existência? Nenhuma delas. Brahman não tem origem, nem destruição, o que impossibilita as duas primeiras. Brahman não é limitado em espaço e tempo, e portanto, isso descarta a terceira. Por último, Brahman está além de todos os objetos e imposto em todos eles, portanto, nada é distinto de Brahman, o que descarta a quarta.

Brahman é a única existência real, e se abhava não pode ser Brahman, portanto, abhava também não existe, como a individualidade.

O jivan-mukta, quando se separa do corpo, entra no estado em que o ser é totalmente separado do corpo, o que nos faz concluir que a ligação entre o corpo e o ser é totalmente contrária à natureza do ser. E abhava, tal qual a existência individual, se difere da verdeira existência que é Brahman, e portanto, o sujeito que é aniquilado (como no exemplo citado aqui, ou no aniquilacionismo de alguns padres gregos), se difere do jivan-mukta no que tange à realidade de sua não-existência. A expressão pode parecer absurda e fazer rir os ignorantes, mas para quem acompanhou o raciocínio desde o começo, a conclusão inevitável é essa: a aniquilação (pradhavamsa-abhava) é diferente da proclamação upanishádica “todo rio perde seu nome ao desaguar no oceano”, por lhe faltar uma coisa: a existência real.

Adi Shankaracharya explica em seu mais celebrado trabalho, Atma Bôdha, o que é real:

O mundo é repleto de apegos, aversões, etc., é como um sonho. Ele parece ser real, assim como o sonho parece ser falso quando se acorda.

Todo o mundo manifestado de coisas e seres é projetado pela imaginação pelo o que é o substrato do Eterno e Onipotente Vishnu, cuja natureza é a Inteligência-Existência; como diferentes ornamentos que são feitos do mesmo ouro.

E adiante, explica o que é ser realizado:

Eu sou outro além de corpo e portanto sou livre de mudanças como nascimento, envelhecimento, senilidade, morte, etc. Eu não tenho nada com os sentidos como som e gosto, pois sou sem órgãos.

Eu sou outro além da mente e além disso, sou livre de dor, apego, malícia e medo, pois “Ele é sem fôlego e mente, puro, etc.” é o mandamento das grandes escrituras, o s Upanishads.

Eu sou sem atributos e ações; Eterno (Nytia), sem qualquer desejo e pensamento (Nirvikalpa), sem qualquer sede (Niranjana), sem qualquer mudança (Nirvikara), sem forma (Nirakara), sempre-liberado (Nitya Mukta), sempre-puro (Nirmala).

Como o espaço preencho todas as coisas desde dentro e fora. Sem alterações e o mesmo em todos, sou puro, desapegado, imaculado e imóvel.

Eu sou como o Supremo Brâhman que é o único Eterno, Puro e Livre, Uno, indivisível e não-dual da natureza do Imutável-Conhecimento-Infinito.

Muitas escolas, do vaishnavismo ao budismo, buscaram refutar as exposições de Adi Shankaracharya. Dentro do hinduísmo, as mais conhecidas são as Vishishtadvaita e Dvaita. Segundo os estudos que fiz até hoje, a que chega mais perto de lograr algum êxito é a refutação de Ramanujacharya, principalmente a contida no Vedanta Sutra. No Vedanta Sutra, Ramanujacharya busca refutar diversas afirmações do advaita sobre ser e consciência, a não-existência de diferentes substâncias e outros propugnáculos do advaita.

Para Ramanuja, se há uma substância além de toda diferenciação e que é também o verdadeiro conhecimento, há então uma contradição capital: através do próprio testemunho do Ser sabemos que toda consciência implica diferença, pois todos os estados de consciência possuem coisas que são diferenciáveis no julgamento das próprias coisas. A percepção também ocupa um papel fundamental no argumento de Ramanuja, pois todo conhecimento ocorre através da distinção, entre o determinado e não-determinado, o julgamento “isto é isto, aquilo é aquilo”, é tido como o conhecimento de uma coisa pertencente a uma classe, o não-determinado como o conhecimento da primeira coisa que pertence à alguma classe, e o determinado que é o conhecimento das seguintes, portanto, todo conhecimento é obtido através de alguma distinção.

Para Ramanujacharya, o som (sabda) também denota diferença, pois a palavra (pada), a união de um radical e um sufixo, possui dois significados diferentes , portanto o próprio sentido da palavra é afetado pela diferança, como a sentença que conforme a combinação de palavras e significados denotam a falta de algo que não possui qualquer diferenciação.

Muito embora tal refutação pareça muito lógica, o advaita possui respostas muito satisfatórias a ela. Os Upanishads demonstram um Brahman sem distinção, sem qualidades, sem sentimentos, sem forma, auto-suficiente e não-dual (advayam).

a natureza de Paramatma que é manifestada na metne, indivisa, não-dual, testemunha de toda, distinta de toda causa e efeito, pura… – Taitirya Upanishad II,1

Sou distinto de todo sujeito, objeto e instrumento. Em todos os três estados – jagrat, swapna e sushupti – sou a testemunha que é a pura consciência e que é sempre auspiciosa. – Kayvalya Upanishad, XVIII

Vejo sem olhos, escuto sem ouvidos. Assumo várias formas, eu sei de tudo. Não há ninguém que Me conheça. Eu sou a eterna consciência pura. – Kayvalya Upanishad, XXI

Deixando os Upanishads um pouco, e partindo para o Bhagavatam, que é um dos principais livros dos vaishnavas, vemos também certas passagens que dão razão à interpretação de Adi Shankaracharya:

Tu é o Ser não-dual, a Pessoa primordial, auto-luminosa, infinita, a Causa Primordial, eterna, imperecível, a felicidade em si própria, pura, perfeita e sem seguidor, sem qualquer diferença (nirguna) e imortal.
– Bh. X,14

Ao comentar um trecho do Gita (que tenho como o meu favorito), Adi Shankaracharya explica que o plural é utilizado para denotar a existência de vários corpos, e não a multiplicade do Ser.:

Nunca houve um tempo que todos estes monarcas, você, ou Eu não tenhamos existido, e nem deixaremos de existir no futuro.

na tv evāhaḿ jātu nāsaḿ
na tvaḿ neme janādhipāḥ
na caiva na bhaviṣyāmaḥ
sarve vayam ataḥ param

Comentário de Adi Shankaracharya:

Mas por que não devemos nos lamentar? Porque somos eternos? Como? Na tu eva, mas certamente isto não é um fato, que jatu, em qualquer tempo; aham, I; na asam; não tenhamos existido; pelo contrário, eu existo. A idéia é que quando os corpos nascem ou morrem no passado, Eu existo eternamente. Da mesma forma, na tvam, não que você não exista, você certamente existe. Ca, tammbém, na ime, estas coisas; jana-adhipah, reis; não existem. Por outro lado, eles existem. E similarmente, na eva, certamente; vayam, nós, sarve, tudo; na bhavisyamah, deixaremos, atah param, depois disso; mesmo após a destruição deste corpo. Pelo contrário, nós deveremos existir. Isso significa que nos três tempos (passado, presente e futuro) somos eternos na nossa natureza como Ser. O plura (nós) é usado para a diversidade de corpos, mas não no sentido da diversidade do ser.

O advaita pode responder essa objeção de Ramanuja da seguinte forma: suponhamos que vimos o Sr. X, com sua cara de psicopata hoje, pela primeira vez. Amanhã temos a infelicidade de encontrá-lo outra vez. Você pode duvidar de ter visto o mesmo Sr. X, caso tenha feito a sensata questão de esquecer sua face. Mas você não vai duvidar que foi você que viu o Sr. X ou outra tenebrosa personagem em seu lugar.

Como o seu “eu” não se alterou, é percebido então a verdadeira natureza do Ser imutável. Toda distinção nasce da ignorância, quando o verdadeiro conhecimento é obtido, a distinção some.

Então, a refutação do advaita para esta objeção pode ser resumida assim: o objeto não é a última realidade. A consciência sim. Então, temos os atributos do objeto na mente que estão sujeitos às coisas que dizem respeito aos estados mentais e análogos. A mente é a visão e o vidente, diz Shankara no Bala Bodhani.

Sri Sadananda, a consciência que está limitada à visão é a consciência ligada à coisa, que por sua vez também é limitada pela consciência ligada às formas de conhecimento, e que é limitada pela mente que é a consciência ligada ao sujeito. Ele explica:

“A percepção através dos sentidos envolve a percepção apenas dos atributos do objeto, já que Brahman não pode ser conhecido fora do conhecedor.”

É possível perceber que a refutação de Ramanuja exposta acima não é suficiente, pois o advaita consegue se sair muito bem através de sua explicação e do uso de uma passagem dos Upanishads:

Ushastta: Você está provando com algumas descrições indiretas de Brahman como a vaca que é isso e aquilo, ou o cavalo que é isso ou aquilo, etc. Explique-me porque Brahman é imediato e direto além dessas descrições indiretas. Explique-me Brahman, que é o ser dentro de todos.

Yagnavalkia: Você não testemunhar que é a testemunha do testemunho, você não pode ouvir o que é o ouvinte do som, você não pode pensar que é pensador do pensamento, você não pode saber que é conhecedor do conhecimento – que é você que está em tudo; e que tudo mais é perecível – com essa resposta, Ushastta não fez mais perguntas. Bṛhadāraṇyaka Brahadaranyaka Upanishad, III,4

Desta forma, o indivíduo ao aparecer como a limitação do Ser, como raio da consciência do ser e como o sonho imaginado (cf. Bala Bodhani), a idéia da individualização do ser torna-se um erro, e Maya faz justamente isso: esconde a natureza indivisível do eterno.

Embora tenha sido um grande pensador, Marcel de Corte cometeu certas imprecisões. Uma delas em sua análise sobre o Islam [1], que vai de sua origem até a modernidade, uma análise que podemos, sem sobre de dúvidas, chamar de injusta e repleta de erros históricos. Logo no começo do artigo, De Corte comete um julgamento muito estranho para um pensador católico, pois sua condenação ao Islam pode muito bem recair sobre o Cristianismo, tanto Oriental como Ocidental:

“Para onde vai o Islã? Não parece errado afirmar que o Islã mesmo o ignora quase por completo. Esse grande corpo informe está despertando de uma longa letargia, as pálpebras fechadas, a mente entorpecida, os membros estirados e sacudidos aqui e acolá por sobressaltos involuntários. A história do Islã manifesta duma ponta à outra a estranha alternância entre torpor e exaltação.


A causa disso parece ser o atavismo nômade desse imenso agregado de povos: o Islã só se mexe e se agita quando encontra um condutor, um animador, um füher, um êmulo de Maomé. Sem a guarda do pastor com seus cães, o rebanho cai na anarquia e, pouco a pouco, na sonolência. O Islã é semelhante à limalha de ferro cuja força coesiva depende da ação do ímã.”

Dentro da interpretação patrística do livro do Apocalipse, encontramos uma corrente que predominou entre os padres, com as sete Igrejas da Ásia representando, cada uma delas, uma fase da Igreja do mundo inteiro, a Igreja Ecumênica (Universal). E essa análise parece muito sensata, pois se encaixa muito bem com uma análise histórica do que se passou com o Cristianismo. Apenas a título de exemplo, é muito interessante ver as semelhanças entre a Igreja de Pérgamo (cf. Rev. 2,12-16), com a época dos Concílios Ecumênicos. A Igreja de Pérgamo, mesmo assentada entre uma população corrupta, conseguiu através da espada (os Concílios) combater todas as heresias cristológicas que apareceram no Oriente (arianismo, nestorianismo, monofisitismo), e que depois esta Igreja floresceu entre os povos pagãos, passando para a fase da Igreja da Tiatira (cf. 2,18-20), e depois, por esta Igreja não ter feito o arrependimento exigido nas exortações às duas Igrejas anteriores, passou então para a fase da Igreja de Sardes. Veio, nesta Igreja, o castigo pela corrupção e fraqueza de seus bispos, que veio através da invasão dos islâmicos.

Ao analisar tal interpretação ao lado dos acontecimentos históricos, percebe-se que o Cristianismo também oscilou bastante entre “torpor e exaltação”: de uma religião restrita às catacumbas à Igreja oficial de um Império, de uma Igreja hábil e precisa ao condenar hereges à blasfema e covarde atuação de hierarcas e Imperadores cristãos diante da heresia iconoclasta, a corrupção moral do clero que talvez fosse muito maior que a atual. Além disso, ao afirmar que o Islam só se “mexe quando encontra um condutor… um führer”, de Corte esqueceu que tal problema também ocorreu no Ocidente cristão. Com a queda do Império Romano Ocidental, começou uma batalha incessante e impiedosa entre a autoridade espiritual e poder temporal, que teve um período de folga apenas na época de Carlos Magno, mas que depois continuou com ainda mais vigor. Quanto a isso, basta analisar as disputas entre Felipe o Belo e o Papa Bonifácio, o papado de Avinhão, e as controvérsias de papas que excomungaram reis e de reis que depuseram papas, e também os guelfos e gibelinos da Itália. Percebe-se através desta análise que a ausência de uma sinfonia de poderes (ainda que quase sempre corrupta) em torno de unificadas autoridades (o Patriarca de Constantinopla e o Imperador), fez com que o Cristianismo no Ocidente estivesse em constante busca para legitimar suas autoridades. O fenômeno destacado como exclusivo do Islam também aparece em todas as religiões antigas que oscilaram entre o aumento e queda de sua influência na sociedade. E parafraseando Reinaldo Azevedo, não falo de religião mais nova que meu whisky. Se De Corte fosse ateu, agnóstico, ou até mesmo um protestante republicano, tais críticas poderiam até possuir certa coerência, mas oriundas de justamente quem, não passam de puro cinismo.

“O Islã é instável e descomedido. É notável que a civilização islâmica, em Bagdá ou Espanha, tenha conhecido momentos de grande esplendor, quando o dom que a Grécia legou ao mundo chegou até ela. Poucas culturas alcançaram ao mesmo tempo aquela efervescência vital e sutileza espiritual.

Essa união durou pouco: o Islã precipitou-se num movimento pendular, que podemos observar com maior clareza nas pessoas de seus adeptos, sob a forma de brutalidade explosiva revezada com uma inesperada e requintada delicadeza, ou vice-versa. É como se o Islã sempre tivesse de balançar entre as qualidades e os defeitos da barbárie, e as qualidades e defeitos da decadência.”

Outra análise que, por vir de um católico, nos causa espanto. Ao acusar o Islam de instável e descomedido, por ter alcançado o esplendor de Bagdá ao brutal wahabismo. Nos causa espanto pois se tal análise for feita nos 2000 anos de Cristianismo, algo semelhante aparece: Pois o que oscilou mais que o Cristianismo? Não foi dentro de uma nação cristã que nasceram iluminismo, marxismo, positivismo e todas as desgraças do mundo moderno? O próprio liberalismo, heresia condenada pela Igreja Católica, nasceu como um simulacro de ideologia cristã.

Pois os Impérios Cristãos já não existem (a não ser que algum lorpa seja inocente o suficiente para considerar Inglaterra e Espanha como monarquias cristãs), e deram lugar a escabrosos sistemas que carregam em si todos os males da era de Kaly e em diversas profecias cristãs e islâmicas. Sistemas que já foram criticados pelo próprio De Corte, e ele não se deu conta que sua crítica ao Islam como gerador de barbárie e decadência cabe muito bem ao Cristianismo.

“Já é lugar comum dizer que no Islã a política é apenas um prolongamento da religião. O temporal e o espiritual não são dois domínios distintos. O primeiro não se subordina ao segundo, mas se confundem.”

No Islam, a ciência jurídica (jurisprudência) é tida como uma ciência religiosa. A jurisprudência é dividida em pessoa, penal e civil, e pelo menos a pessoal o muçulmano é obrigado a conhecer. Dentro do Islam, não há incoerência alguma, e isso não pode ser confundido com uma bazófia entre religião e poder temporal. O Islam já na época de Mohamed organizou uma sociedade, então, era natural que começasse desde aquela época a organizar sua política e lei conforme a religião. Ao contrário do Cristianismo, que em seu período primitivo não tinha qualquer pretensão de organizar uma sociedade secular, o Islam teve formulado em seu próprio livro sagrado códigos legais. Assim como os judeus da época de Moisés, seria impossível conduzir uma sociedade religiosa apenas com a jurisprudência pessoal.

O Cristianismo, quando obrigado a criar um sistema legal para ocupar o lugar de um Império decadente, também passou a legislar sobre o temporal, e embora houvesse o ideal da sinfonia entre os dois poderes, era do espiritual que emanava a legitimidade e fundamentos para o exercício da autoridade e coerção temporal.

“O Islã desconhece a natureza humana e suas implicações, logo desconhece também a idéia de pátria e, no interior desta, a idéia de diferenciação hierárquica entre homens de funções desiguais. Não existe “casta” ou “ordem”, no sentido Ancien Régime: no Islã, há igualdade absoluta entre os fiéis. O mulçumano sente-se em casa onde quer que haja Islã: seu passaporte é sua fé, viva ou aparente. O marroquino ou o tunisiano não é um estrangeiro no Egito.”

É de se espantar ver a acusação cristã a um caráter universal de uma religião. Talvez De Corte tenha esquecido que antes de ser Romano ou Bizantino, o Cristianismo também é universal. A autoridade Universal pode partir de uma Sé ou Concílio, mas esta autoridade de honra e para tomar decisões não confere um poder de superioridade a este ou aquele que habitam em tais locais. Pois se o marroquino se sentia bem no Egito, ele nada mais estava revivendo a época em que os cristãos do Oriente se sentiam em casa em qualquer lugar da Tsaringrad (cidade do Imperador). Um grego na Rússia era, antes de qualquer coisa, um cristão. As divisões entre os cristãos começaram justamente nos sentimentos nacionalistas: a adesão dos armênios ao monofisitismo foi nada mais que uma desculpa do nacionalismo armênio para se ver livre dos gregos, o ódio mútuo entre gregos e latinos foi o primeiro passo para o Grande Cisma, o nacionalismo do rei foi apenas uma desculpa para a grande salada feita para criar a Igreja Anglicana e assim por diante. O patriotismo, que é louvável, não pode ser confundido com o nacionalismo. Ao abandonar o critério da fé para reconhecer outro semelhante, e adotar o territorial, é cair em nacionalismo. Pois a união espiritual é muito mais importante que a nacional. Este “passaporte” que os islâmicos possuem, e que De Corte critica, nada mais é que uma característica ainda mais acentuada entre os cristãos, e que se a esquecemos atualmente, para dar lugar a ideais nacionalistas (que nasceram na Idade Moderna), isso deve ser motivo de vergonha, e nunca de orgulho.

“Além disso, esses dois sistemas constituíam um tampão contra o imperialismo russo. Hoje estamos pagando o preço dessa política cega, em que saíram ganhando o “idealismo” laico e as sórdidas preocupações econômicas. Tomara não nos seja o preço muito alto, já que, citando novamente Rivarol, a pior desgraça é a de merecer suas desgraças!


Em todo caso, é certo dizer, os nacionalismos árabes não possuem raízes nas tradições islâmicas, e evoluirão fatalmente em direção ao internacionalismo e ao pan-islamismo. A Rússia, sempre atenta, lhe dedicará mais e mais cuidados na proporção direta dos erros habituais da diplomacia dita atlântica. O único trunfo nas mãos do Ocidente é a debilidade do sentido de Estado em terras islâmicas. Hoje em dia, contudo, constroem-se Estados artificiais por meio da força. O Estado Ocidental, por seu turno, degenerou em Estado Providência, que vampiriza sua energia e suas reações vitais de defesa.”

Pois aqui vemos um De Corte criticando o idealismo laico. Talvez porque ele desejasse uma legislação católica, uma união entre espiritual e temporal, que ele criticou no Islam. Claro, sharia boa, só a minha.

O que ele considerava uma debilidade dos islâmicos, é hoje o grande triunfo. Vemos que a Síria apoiou insurgentes iraquianos, e também é conhecido por todos as relações muito próximas entre Síria e Irã. Enquanto os ocidentais ficam discutindo legitimidade das guerras, e fazendo votações e Assembléias, no Oriente até inimigos vão se unindo e preparando alianças. É óbvio que em um conflito entre o que luta por um Estado e o que luta por uma religião, o segundo sairá com grande vantagem. Enquanto um luta por limites territoriais, sem qualquer pretensão metafísica, pode muito bem se acovardar e dar no pé, o que luta com fé convicta na vida eterna e de prazeres celestiais dificilmente deixará de dar a vida por sua causa.

Marcel de Corte, ao tentar fazer uma análise do Islam, caiu em um erro comum até hoje: é absurdo buscar qualquer crítica ao Islam com base em seus fenômenos sociológicos. Toda religião que organizou sociedades acabou passando por ciclos que alternaram entre ápice e decadência, fervor e frieza; contudo, parece que De Corte ignorou qualquer análise deste tipo sobre o Islam, preferindo apenas as acusações demagogas, as confusões baratas e as conclusões precipitadas.

[1] “La libre Belgique”, 28 de dezembro de 1956. Tradução: Permanência, retirado do blog Reconquista.

Durante meu encontro com Nikkon, perguntei sobre as outras coisas que ele pensava da Europa:

“O senhor viveu na Europa”, perguntei “O que o senhor pensa disso? Qual é a sua opinião sobre a civilização Ocidental?”

“Civilização!”, ele exclamou “A civilização Ocidental é um ersatz!”

Ele enfatizou a palavra “ersatz”. Esta palavra é de origem germânica. Significa substituto, enganador, falso. Após uma pausa, Nikkon continuou.

“Tudo que está nela: as artes, ciências, filosofias, religiões, é ersatz!

“O senhor acredita realmente que não há nada autêntico, bom, nos países da Europa Ocidental?”

“Nada”, ele respondeu, “Tudo é falso, vazio. A única exceção é a Ortodoxia. Mas até ela é dificilmente encontrada em sua forma genuína, original.”

Após ouvir que eu era Cristão Ortodoxo, o ancião fez uma observação:

“Você deve considerar-se um afortunado. Pois não há nada mais precioso neste mundo que o Cristianismo Ortodoxo. Mesmo com a dificuldade de encontrá-lo em sua forma mais pura, ordene tudo em sua vida de acordo com ele” [1]

No Ocidente moderno, é comum a disputa entre barbárie x civilização, bem x mal, progresso x atraso e assim por diante. Gurdjieff, inteligentíssimo esoterista do século XX, foi preciso ao identificar essa angústia de um amontoado de gente que já perdeu qualquer resquício daquilo que é entendido como civilização tradicional, angústia nascida pela falta de uma cosmo visão tradicional, que criou aquilo que Evola chamava de “mundo de agitados”, e a saga em busca de “progresso”, “conservação” ou até mesmo “regresso” [2], sem se dar conta que, neste mundo de agitados, todos correm para o mesmo abismo, embora por caminhos distintos.

As críticas de tradicionalistas, não só os da escola perenialista, como também de religiosos de vida contemplativa ou de sábios que tiveram algum contato ou pertenceram a uma civilização tradicional, sempre levam ao mesmo ponto: todas as correntes e ideologias ocidentais que concorreram entre si não passam de faces da mesma degeneração. O staretz Nikkon, citado acima, era um monge do Monte Athos praticante do hesicasmo, a contemplação e oração silenciosa, quando jovem viajara por toda a Europa ocidental, e teve a oportunidade de conhecer o modo de vida e pensamento europeu. Sua decepção foi grande, e não por menos: àquele acostumado à vida da antiga Grécia [3], por exemplo, a vida do europeu, quer do acadêmico quer do simples trabalhador, é muito agitada, inconstante e repleta de incertezas.

Russel Means, líder sioux e ativista dos direitos dos nativos norte-americanos, também notou esta tragédia do homem europeu, e foi ainda mais adiante em sua análise do capitalismo, comunismo, hegelianismo, cientificismo e alhures. Neste discurso, nota-se os laços entre a Tradição dos nativos norte-americanos e outras Tradições, como o Cristianismo. Como por exemplo, a crítica ao excesso de valor dado à palavra escrita, que para São João Crisóstomo nos mostrava o quão degradados somos [4], a crítica da transformação da natureza em propriedade privada [5], e neste ponto tanto marxismo como capitalismo são semelhantes, pois ambos desafiam a ordem natural das coisas.

Obviamente, tal raciocínio é capaz de levantar diversas questões e críticas, do tipo: como explicar o aumento da qualidade de vida, o avanço tecnológico e farmacêutico que permite o prolongamento da expectativa de vida, ou ainda as intermináveis guerras travadas entre nativos de todo o mundo. Mas tudo isso, se analisado e comparado friamente, nos mostra os problemas existentes entre os nativos não foram solucionados pelos bons civilizados, como também, aumentaram.

Em primeiro lugar, não só podemos como devemos questionar o conceito de qualidade de vida do homem ocidental, principalmente do primeiro mundo. Muito daquilo que lhe faz se orgulhar, como o conforto da nossa civilização contra a vida na natureza e todos seus perigos, não passa de um problema maior ainda. Os tradicionalistas acusam o homem moderno de perder a capacidade de contemplação, e isso pode muito bem deixar de ser uma acusação para se tornar uma constatação: qual homem ocidental é capaz de práticas contemplativas como o hesicasmo, meditação ou a adoração silenciosa dos nativos norte-americanos? Todo este conforto, construído no desvio da ordem natural das coisas, custou primeiro a capacidade de contemplação, e hoje custa a sanidade. O homem sente cada vez mais necessidade de trabalhar mais para obter mais conforto, e os avanços tecnológicos que aumentam seu conforto também fazem com que ele trabalhe cada vez mais. Distúrbios como DDA e doenças como depressão aumentam anualmente, e o crítico do uso de “drogas” feito pelos nativos não se dá conta que o homem moderno é cada vez mais dependente de remédios contra depressão, distúrbios de atenção e transtornos de personalidade. Ele não consegue ver qualquer relação entre estes problemas e o fato do homem moderno não viver mais em uma civilização de fato, mas sim num amontoado de indecisos, agitados que já perderam qualquer noção real sobre humanidade, transcendência e realidade.

Já os índios, citando J.P. McEvoy, “talvez não seja o progresso… mas que importa?”. Em países cristãos que ficaram livres do Imperialismo de Carlos Magno, como também do legalismo dos escolásticos e posteriormente de uma das maiores tragédias da humanidade, a Reforma Protestante, nota-se uma visão diferente sobre a religião, bem como o impacto da vida religiosa dessa população. O fervor dos russos anteriores às deformas de Pedro o Grande causavam espanto até aos emissários de Patriarcados ortodoxos como da Antioquia, já influenciado negativamente pelo Ocidente devido ao seu intercâmbio educacional com Roma devido ao domínio turco [6]. Já nos vilarejos gregos sob ocupação turca, onde os pais não tinham condições financeiras para enviar seus filhos para estudar no Ocidente, a vida era tranqüila e religiosa, semelhante à Rússia antes de Pedro, pois o domínio turco não era capaz de afetar o andamento da vida das pessoas que tinham um foco verdadeiro na vida. O que causava mais espanto era a concentração das crianças nos longos ofícios divinos, que em pé rezavam ao lado dos adultos, por horas, sem qualquer reclamação ou agitação. Algo semelhante às crianças dos nativos, que escutam por horas os ensinamentos orais de seu povo, como nota o professor Luiz Pontual, que coroa sua explicação com uma belíssima foto:

“É muito ilustrativo a este respeito o fato das crianças índias serem extremamente calmas e mesmo concentradas. São capazes, como pudemos testemunhar em mais de uma ocasião, de permanecerem durante duas ou mais horas em perfeita tranqüilidade , enquanto adultos conversam ou desempenham tarefas. Pode-se talvez compreender um pouco tal traço inusitado para os modernos se repararmos que um índio, assim como um camponês medieval, acompanha os vários momentos que constituem, por exemplo, o ciclo da alimentação. Ajudam ou vêem os pais desde o preparo da terra, passando pela semeadura, o brotar e o desenvolvimento das plantas , até sua colheita e preparo final para alimentação. É algo um tanto diferente, por exemplo, de um insuportável garoto super-ativo detonando um pacote de cornflakes…ou um hot-dog !”

Portanto, os ortodoxos mais sensatos como o Conde Lucas Notaris preferiam o turbante do sultão que a tiara do papa, já que enquanto o domínio turco custava apenas algumas vidas vez ou outra e um pouco de dinheiro, a aproximação ao degradado Ocidente custava a alma e o próprio modo de vida oriental. Os turcos não eram capazes de alterar a vida tranqüila e religiosa dos habitantes da Anatólia e da Trácia, mas a influência ocidental conseguiu lançar a Rússia nas maiores trevas de sua história, e logo em seguida jogou a Grécia sob jugo de Venizelos à guerra e decadência espiritual, em busca do tal progresso. É compreensível tanta angústia e desespero do Ocidental: ele pensa que está sempre atrasado, mas não sabe em qual local deve chegar.

Por isso o staretz alerta sobre onde encontrar a verdadeira Ortodoxia: a vida ortodoxa não envolve apenas a fé, ou a fé e um corpo de códigos morais a ser seguido, mas também toda uma visão de mundo [7], e que não pode existir entre a degradação da modernidade. Hoje em dia, lamentamos muito quando vemos fiéis exigindo a liturgia em vernáculo, padres desmerecendo o essencial da tradição como a batina ou a barba e cabelos longos, pois se trata de quem está muito próximo do ideal, pois bastaria olhar para algumas décadas atrás e perceber o quanto isso é importante e estava vivo, fazia parte de nosso cotidiano; enquanto os ocidentais já não têm a mesma sorte, pois passam por um processo de decadência gradual e longo, e possuem idéias muito vagas e imprecisas sobre tradição, pois a vida sob princípios tradicionais é algo que está muito distante, como uma abstração ou histórias de passado muito distante.

Por estas razões, não consigo me alinhar ou até mesmo ter como “mal menor” correntes como o conservadorismo, que embora aparentemente menos maléfica que o comunismo, faz parte do mesmo processo de degradação, e não é menos pretensioso, pois também se coloca como o dique que impede a invasão da barbárie, quando também é um filho desse mito do bom civilizado, aquele Homem Universal repleto de autocrítica, dúvidas, problemas e soluções, sempre colocando as mãos imundas e cheias de sangue naquilo que já estava ordenado.

[1] Messages From The Holy Mountain, Dr. Constantine Cavarnos, Cap. 6, pgs. 31,32.

[2] http://lasciateognisperanza.wordpress.com/2008/04/26/revolucao-e-contra-revolucao/

[3] Em The Elder Ieronymos of Aegina, de Pedro Botsis (Monastério da Santa Transfiguração, Massaschusetts, 2007), o autor nos conta o espanto de São Jerônimo ao chegar em Atenas, depois da troca de população entre Grécia e Turquia devido às insanidades de Venizelos. O santo, ao desembarcar em Atenas, chorou ao ver a falta de piedade religiosa e o pouco caso com a vida espiritual da população que não vivia sob domínio turco há muito tempo, e lembrava como a vida em sua antiga vila da cidade de Iconium (hoje Konya), na Anatólia, era muito mais piedosa. Para se ter uma idéia, na pequena vila onde o staretz foi criado, não só os monges como também boa parte da população tinha o costume de praticar a oração com lágrimas nos olhos, algumas vezes encharcando o chão das pequenas e lotadas igrejas de fiéis que clamavam por perdão e choravam durante os ofícios divinos.

[4] cf. I Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, São João Crisóstomo

[5] cf. Homilias sobre os Salmos, São Basílio Magno; Sétima Homilia sobre o Hexameron, São Basílio Magno; Sobre o Eclesiastes, São Gregório de Nissa. Uma das mais impressionantes é esta homilia de São João Crisóstomo sobre a I Epístola a Timóteo:

“São belas as roupas de seda? Na realidade, são tecidos produzidos por vermes. Sua beleza é convenção e preconceito humano, não coisa natural. Se você olhar uma moeda de bronze recoberta por uma camada de ouro, logo admira e diz que a moeda é de ouro. Somente os especialistas na matéria lhe mostram o engano e, com o desengano, vai-se a admiração. Vê como a beleza não está na natureza? O mesmo acontece com a prata. Caso vir um pedaço de estanho, você o admira como prata, assim como admirava o bronze por ouro. É preciso que haja pessoas que nos ensinem o que deve ser admirado. não bastam os olhos para discernir. Isto não acontece com as flores, que são mais belas que ouro e prata. Se vir uma rosa, não precisa que lhe digam que aquilo é uma rosa. Você é capaz de distinguir por si próprio entre uma anêmona e uma violeta. O mesmo ocorre com os lírios e as demais flores. Logo, todo o ouro é uma simples questão de preconceito. E, para que fique demonstrado que toda essa funesta paixão é uma simples questão de preconceito, basta que me responda: se o imperador decretasse que a prata vale mais que o ouro, não se transformaria seu amor e sua admiração? Veja a que ponto somos dominados em tudo pela avareza e pela opinião. Que isto seja assim e que as coisas sejam estimadas por sua raridade, não por seu valor natural, prova-o o fato de existirem entre nós frutos desprezados, que são estimados na Capadócia, assim como há outros que nós estimamos e que têm ainda maior valor na terra dos seres donde vêm os famosos tecidos de seda. O mesmo fenômeno se dá na Arábia, terra de perfumes e na Índia, mãe das pedras preciosas. Em conclusão, tudo é preconceito, tudo é convenção humana. Nada fazemos judiciosamente, mas tudo ao acaso.”

[6] cf. The Orthodox Church, Timoty Ware, Part. 1, Moscow and Petersburg, 1º Ed., 1968;  The Travels of Macarius,  Patriarch of Antioch; London, The Oriental Translation Fund, 1836, Book VII.

[7]http://tradortodoxas.blogspot.com/2008/01/o-deserto-no-quintal.html

O problema do Não-Ser

O ponto chave dos erros de Guénon – que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado, nem mesmo seus concorrentes da escola schuoniana – é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das ‘possibilidades de não-manifestação’. Esclarecida e derrubada essa doutrina intrinsecamente absurda, manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo, bem como sua via de conciliação. Explico isto mais extensamente em meu Diário Filósofico. – Olavo de Carvalho, nota de rodapé em “O Jardim das Aflições”

Primeiramente, porque Olavo considera absurda a doutrina do Não-Ser e das possibilidades de não-manifestação? Isso pode ser explicado através de outra explicação de Olavo:

E Deus? Se imaginarmos um Deus transcendente ao universo, um Deus que não fosse o próprio Universo, mas que estivesse fora dele, estaria Ele fora necessariamente e sempre, ou seria um aspecto transcendente do próprio Universo? Ora, é claro que Ele é um aspecto do Universo que não pode se reduzir a nenhuma de suas partes e que é de certa forma transcendente a si mesmo, porque inclui toda a possibilidade ainda não realizada no universo físico. Essa possibilidade existe, e ela tem de se autoconhecer. Imagine se assim não fosse: a possibilidade transcendente que desconhece a si mesma e que só nós, seres humanos, conhecemos…Logo, é claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente a tudo. – Olavo de Carvalho

Ora, as possibilidades de manifestação e as impossibilidades de manifestação, juntas, compõem o domínio propriamente dito do Ser, nada sobrando para além dele senão um conceito vazio. Na verdade a expressão Não-Ser só vale como figura de linguagem, para designar os aspectos superiores e mais sublimes do Ser mesmo, seu lado misterioso e eternamente desconhecido, ou imanifestado, portanto qualidades do Ser e não uma outra entidade substancialmente distinta. Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito. - Olavo de Carvalho, Diário Filosófico

Quando se usa a expressão ’ser supremo’, se altera totalmente aquilo que Deus é: origem de todos os seres. Por que existe o ser e não antes o nada? Se se coloca essa pergunta, existe um ser, um nada, e uma causa. Essa causa não é nem um ser, nem o nada. Isso jamais foi contestado. A existência de Deus é inerente à própria existência. O poder que gera a existência não é uma primeira causa que está atrás de uma série de causas. Ele é inerente à existência mesma. A primeira causa já seria um ser, já seria uma existência. Se você enxerga Deus como a possibilidade da existência, não se pode usar a palavra ’ser’ para Deus. Todo religioso tem de saber disso. A pessoa que não é capaz de raciocinar em termos da totalidade da existência, evidentemente não pode entender do que estão falando, aí ela inventa uma coisa chamada ’ser supremo’, um ’serzão’, que não é a definição de Deus. Isso virou um ser que cria outros seres. Mas então, quem criou o primeiro ser? Deus é a possibilidade universal, a onipotência. Se você o define como ’ser’ e tem de provar a existência ou inexistência do mesmo, você está num mato sem cachorro. Seriamente falando, não se discute a existência de Deus. A existência está sempre presente. Conceber a possibilidade hipotética da inexistência de tudo é a condição de perceber o poder da existência, a presença da existência. E perceber essa existência é perceber Deus. Os ateus não acreditam num ’ser supremo’, mas acreditam na existência. Sendo assim, eles não são ateus. A discussão entre ciência e religião é muito primária, é uma vergonha. A onipotência, a presença da experiência está aí, mas você não pode obrigar uma pessoa a olhar para lá, não se pode provar nada.
- Olavo de Carvalho

Para resumir a doutrina do Não-Ser, antes de começar a defender o ponto de Guénon criticado por Olavo, podemos dizer da seguinte forma: o Não-Ser é todo atributo divino que jamais se manifestará, como a unicidade. A afirmação que Deus não é pode parecer absoluta a princípio, mas, quando esclarecemos o que Guénon entendia como o Não-Ser, bem como buscamos nas fontes da Tradição, a base das pesquisas de Guénon, notamos que Guénon não estava distante do Cristianismo nem da Tradição no que diz respeito a essa doutrina.

…Para designar o que está assim fora e além do Ser, estamos obrigados, na falta de outro termo, a chamá-lo Não-Ser; e esta expressão negativa, que, para nós, não é, em nenhum grau, sinônimo de «nada» como parece sê-lo na linguagem de alguns filósofos, além de estar diretamente inspirada pela terminologia da doutrina metafísica extremo-oriental, está suficientemente justificada pela necessidade de empregar uma denominação qualquer para poder falar disso, junto à precisão, feita já mais atrás, de que as idéias mais universais, sendo as mais indetermináveis, não podem expressar-se, na medida em que são expressáveis, senão por termos que são, com efeito, de forma negativa, assim como vimos no que concerne ao Infinito… – René Guénon, Estados Múltiplos do Ser – Cap. III

Que diversos padres cristãos escolheram a via apofática para tratar de Deus não é segredo a ninguém.

…Não tem corpo, nem figura, nem qualidade, nem quantidade, nem peso. Não está em nenhum lugar. Nem a vista nem o tato o percebem. Não sente nem a alcançam os sentidos. Não sofre de desordem nem perturbação procedente de paixões terrenas. Que os acontecimentos sensíveis não a escravizam nem a reduzem à impotência. Não necessita de luz. Não experimenta mudança, nem corrupção, nem decaimento. Não se lhe acrescentar ser, nem ter, nem coisa alguma que caia sob o domínio dos sentidos… -Dionísio Areopagita. Teologia Mística, Cap.1

E no budismo:

…Desta maneira, Shariputra, na vacuidade não há forma, não há emoção, não há percepção, não há manifestação, não há consciência; não há olho, não há ouvido, não há nariz, não há língua, não há corpo, não há mente; não há aparência, não há audição, não há olfato, não há paladar, não há tato, não há darmas, não há datu da visão, e assim por diante até chegarmos a: não há datu da mente, não há datu de darmas, não há datu da consciência da mente; não há ignorância, não há extinção da ignorância, e assim por diante até chegarmos a : não há velhice e morte, não há fim para a velhice e a morte; não há sofrimento, não há origem para o sofrimento, não há cessação do sofrimento, não há caminho, não há sabedoria, não há realização,e não há não-realização… - Sutra do Prajnaparamita

O que Olavo quis dizer com “… Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito…” ? Aqui, precisamos fazer uma ressalva importante: a idéia de dois Brahmans, apara Brahman e para Brahman, um manifestado e condicionado por Maya (apara Brahman), outro o ser transcendental e livre de toda dualidade (para Brahman), não é uma idéia criada por Guénon, mas sim presente no hinduísmo. Costuma-se dizer que ao tentar qualificar para Brahman com qualquer atributo, ainda que infinitos, já não está mais se tratando de para Brahman, mas sim de apara Brahman. Outra vez, temos o que pode parecer um absurdo ou uma contradição gritante, e de fato, aos mais acostumados ao aristotelismo, essas exposições do hinduísmo soam absurdas. No entanto, faz-se mister relembrar que Guénon era um expositor da doutrina Tradicional, e seu fundamento era a Tradição, que lhe dá boa razão, vejamos alguns exemplos:


O que não pode ser visto chamamos invisível

O que não pode ser escutado, inaudível

Quando tocamos e não sentimos, dizemos que é impalpável.

Esses três objetos não podem ser sondados

desta forma, confundem-se e são considerados como uno..


…Sua origem está lá onde não existe qualquer ser.

Sua forma é sem forma, sua figura sem figura.

Ele é o indeterminado… - Tao Te King, 14

Com relação a Ele não há antes, nem depois; nem alto nem baixo; nem perto, nem longe, nem como, nem o que, nem onde, nem estado, nem sucessão de instantes, nem tempo, nem espaço, nem ser. Ele é tal como é. Ele é o Único sem necessidade da Unidade. Ele é o singular sem necessidade da Singularidade. – Ibn Arabi, Tratado da Unidade


Prosseguindo, portanto, em nossa ascensão, afirmamos que [a Causa] não é alma, nem inteligência, não possui imaginação, nem opinião, nem palavra, nem pensamento, não é palavra ou pensamento; não é objeto de discurso, nem de pensamento; não é número nem ordem, nem grandeza, nem pequeneza, nem igualdade, nem desigualdade, nem semelhança, nem dessemelhança; não está parada nem se move, não repousa, não possui uma força, nem é uma força; não é luz, não vive e não é vida; não é essência, nem eternidade, nem tempo; não admite sequer um contato inteligível; não é ciência, nem verdade, nem reino, nem sabedoria; não é uno, nem unidade, nem divindade, nem bondade, não é tampouco espírito, segundo sabemos; não é filiação, nem paternidade, nem quaisquer das coisas que podem ser conhecidas por nós ou por qualquer outro ser; não é nenhum dos não-seres e nenhum dos seres, nem mesmo os seres conhecem-Na enquanto existe; [a Causa] tampouco conhece os seres enquanto seres. Não é razão, nome ou conhecimento, não é treva, nem luz; erro ou verdade; não se Lhe aplicam afirmações ou negações: quando negamos ou afirmamos os seres que Lhe são posteriores, não A afirmamos, nem A negamos. A Causa perfeita e unitária de todas as coisas está acima de toda afirmação, e a excelência dAquele, que está absolutamente separado de tudo que supera toda negação. - Teologia Mística, São Dionísio o Aeropagita, Tradução de Marco Lucchesi, Editora Fissus, 2005, Rio de Janeiro.

A exposição de Guénon está completamente de acordo com o Advaita Vedanta. Swami Krishnananda explica que o universo é a negação de Brahman, um Brahman distorcido. Shankara ensina que o mundo aparece como real assim como uma corda é confundida com uma cobra. Enquanto a ilusão se faz presente, aquele cordão é para o vidente uma cobra real, mas quando a ilusão se esvai, a cobra deixa de ser real. O mesmo se passa com o mundo manifestado. Dois poderes de Maya, o da extensão e limitação, trazem a existência do mundo. O da extensão ao criar uma existência isolada, que atribui o testemunho do ser, a divisão entre vidente e a visão, e a limitação ao dividir o eterno do mundo, que é a causa do samsara.

No plano samsárico, e portanto segundo a interpretação temporal, um homem ignorante é aquele descrito como o sujeito que, após nascer, não consegue compreender que a lei do mundo é dukkha, que não pode ver sua origem, nem se libertar disso ou seguir pelo caminho que a liberação é obtida: a ignorância é desta forma a ignorância das quatro verdades de ariyan. Ao ser determinado por asava, pela intoxicação ou mania, essa ignorância particular estabelece um estado samsárico de existência e determina o substratum (upadhi) que lhe protege. – Julius Evola, A Doutrina do Despertar

No planos de existência mundana (vyavaharika satta) e ilusória (paramartikha satta), ocorre esse jogo entre extensão e limitação, lilla, o jogo divino. Ora, se Maya é o upadhi (substrato) de Iswara, então Iswara é a aparição pessoal de Brahman. Como Guénon considerava o Advaita a exposição Metafísica mais precisa, é de se entender a importância de sua distinção entre o Ser e o Não-Ser. Destarte, não se pode acusar Guénon de possuir uma teoria intrinsecamente absurda sem utilizar o mesmo rigor que Ramanuja utilizou ao tentar refutar o Advaita e lançar as bases para o seu Advaita qualificado, o Vishistadvaita. Até porque, mesmo o ramo heterodoxo do Advaita, o neoadvaita, consegue boas refutações às objeções de Ramanuja, portanto, não parece que Guénon adotou uma linha absurda ou heterodoxa do hinduísmo. A idéia de um princípio manifestado e outro imanifestado superior não é estranha ao hinduísmo.

O problema pode aparecer, de fato, ao tentar familiarizar esta doutrina com o Cristianismo; no entanto, este tema merece um estudo rigoroso e detalhado para si, pois enquanto até algumas passagens de Santo Agostinho parecem um obscuro encontro com o Advaita, e outras de São Dionísio, São Gregório Nazianzeno, Mestre Eckhart e outros místicos cristãos parecem estar de pleno acordo, outras idéias como a deificação e distinção entre essência e energia da Teologia Ortodoxa demonstram uma completa negação ao Advaita. Para finalizar, um trecho de “O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta”, de René Guénon, que ilustra muito bem o que foi tratado aqui.

Lembraremos que tudo o que concerne a este estado incondicionado de Atmâ é expresso sob uma forma negativa; isto é fácil de compreender, pois, na linguagem, toda afirmação direta é forçosamente uma afirmação particular e determinada, a afirmação de algo que exclui outra coisa, e que assim limita aquilo que podemos afirmar . Toda determinação é uma limitação, portanto uma negação; por conseguinte, é a negação de uma determinação que é uma verdadeira afirmação, e os termos de aparência negativa que encontramos aqui são, em seu sentido real, eminentemente afirmativos.

De resto, o termo “Infinito”, cuja forma é semelhante, exprime a negação de todo limite, de sorte que ele equivale à afirmação total e absoluta, que compreende ou abarca todas as afirmações particulares, mas que não é nenhuma delas com a exclusão das demais, precisamente porque ela implica a todas igualmente e “não-distintivamente”; e é assim que a Possibilidade Universal compreende absolutamente todas as possibilidades. Tudo o que pode exprimir-se em forma afirmativa está necessariamente encerrado no domínio do Ser, pois este é em si a primeira afirmação ou a primeira determinação, aquela da qual procedem todas as outras, assim como a unidade é o primeiro dos números e o número do qual todos derivam; mas, aqui, estamos na “não-dualidade”, e não mais na unidade, ou, em outros termos, estamos além do Ser, pelo fato mesmo de estarmos além de toda determinação, ainda que principial.

René Guénon, O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta, Cap.XV

Filosofia da Afirmação e da Negação – Mário Ferreira dos Santos

Certas obras são fundamentais para o melhor entendimento da questão que desejamos abordar nessa comunidade. Além disso, são de capital importância aos que desejam entender porque as revoluções contra as ideologias modernas e materialistas são mais que necessárias, como também não são teorias postuladas por saudosos do passado ou místicos delirantes.

Tais obras são necessárias para que entendamos o que há de errado com o mundo moderno, para que tenhamos a compreensão sobre a raíz mais profunda da tragédia do mundo moderno, e porque ele é tão pernicioso espiritualmente. O espírito tradicional não é apenas uma revolta saudosista, nem uma promessa para volta aos tempos jamais imaginados e tidos como eras inexistentes: é antes de tudo uma revolta contra o estado de miséria intelectual e espiritual que domina o Ocidente. É a compreensão de que todas as ideologias materialistas, de quaisquer posição, não passam de tragédias do espírito e de revolta contra o nosso fim último.

Em primeiro lugar, recomendo a obra Filosofias da Afirmação e Negação, de Mário Ferreira dos Santos. Nesta obra, transcorrida dentre um diálogo filosófico entre amigos reunidos para o estudo e busca à verdade, diversos personagens (que também são alter egos de Mário Ferreira dos Santos), debatem os aspectos das chamadas filosofias da afirmação e da negação.

Os personagens são dividos entre “homens da tarde”, “homens da noite” e “homens da madrugada”, títulos de três romances escritos pelo distinto autor. São “homens da tarde” aqueles pensadores de um livro de só, pensadores que o autor trata como “intelectuais sistemáticos” e “littérateurs estéreis”, incapezes de compreender o esoterismo dos símbolos e penetrar nas mais profundas concepções. Não precisamos navegar muito para encontrar tais tipinhos, quer na direita quer na esquerda. São pessoas que costumam praticar o reducionismo de tudo segundo suas parcas concepções dogmáticas, cujo senso crítico resume-se à mera dictomia de seus maniqueísmos ideológicos e filosóficos.

Já os “homens da noite” são os buscadores, que podem ser comparados a título exotérico com o talib do sufismo, embora, ainda como buscadores, não possam ter a confiança daqueles que já atingiram o fim. Precisam vigiar, cansar as pupilas, lutar contra o duro cansaço de permanecer acordado enquanto busca a luz na escuridão. Tais homens são raros, mas quando perseverantes tornam-se “homens da madrugada”.

Os homens da madrugada são aqueles que, segundo as próprias palavras do autor, ” não sonham mais, sabem. Não esperam nem confiam, porque já encontraram.”

Distantes de todos esses homens, estão os “homens do meio-dia”, que são o sonho dos “homens da noite” e a realização dos “homens da madrugada”.

Sob esse pano de fundo, diversos personagens disputam temas como “Verdade e Ficção”, relativismo, idealismo, universais, teorias do conhecimento, Deus, criação, metafísica, Kant e Platão. Os debates entre Pitágoras, o homem da noite prestes a tornar-se um homem da madrugada, e Josias, o cético “com as marcas da decepção e do desespero gravdas nas faces, e sobretudo nas idéias.”

Percebe-se nessa obra o grande filósofo que foi Mário Ferreira dos Santos. Longe de ser um “homem da tarde”, seu raciocínio é capaz de espantar e maravilhar, pois nunca é apegado à mesquinhez filosófica nem ao ceticismo rebelde. Sua dúvida e questionamento é em busca da verdade, e é essa a diferença entre o homem da noite, o buscador, e o cético mesquinho e infantil. Não se duvida por duvidar, se duvida para encontrar aquilo que é certo, como também não nos apegamos àquilo que nos parece certo sem qualquer questionamento mais profundo, mas sim para podermos não mais esperar, mas sim confiar com fundamento e racionalidade.

Nesta obra percebemos que as diversas filosofias da negação causaram a crise do mundo moderno, e da mesma forma que destruíram os gregos, destruirão o mundo de nosso tempo. Hoje em dia também podemos perceber um pensamento reducionista de aparentes adeptos de filosofias da afirmação, mas que por não passarem de “homens da tarde”, acabaram por criar novas filosofias da negação.

Para solucionar tal problema, o autor postula que esta crise não será resolvida através de uma forçada unidade mecânica, mas sim “pelo poder que une os opostos”, isto é, a transcendência. O autor compara tal conflito com a síncrise e a diácrise, argumentando que a atual diácrise não será solucionada pela síncrese, pois é impossível existir a coesão intrínseca necessária através deste conflito, algo que só se dará pela transcendência.

Tal raciocínio mostra-se presente em todos os diálogos e debates do livro, que chegam a espantar pela exposição rigorosa e detalhada argumentação. Nos tempos em que filósofos são louvados pelo maniqueísmo político e vocabulário torpe, esta obra aparece como verdadeiro bálsamo aos nossos espíritos, nos traz de volta ao raciocínio correto.

De maneira que esta obra se torna fundamental por nos apresentar uma nova solução para os problemas que nos abalam. Uma solução que está muito além dos conflitos entre esquerda x direita, ateus x teístas, evolucionistas x criacionistas e reducionismos alhures.

É deveras uma obra densa, de leitura um tanto quanto complicada, mas que vai rejuvenescer nossa forma de pensar. Talvez pareça um tanto complicada como ponto de partida, mas sua posterior compreensão vale todo o esforço dedicado, pois trará um melhor aproveitamento dos estudos posteriores, já livres de todos os vícios e lástimas que atacam o pensamento moderno.

La Doctrina India del Fin Último del Hombre

Na obra “La Doctrina India del Fin Último del Hombre” 9http://www.4shared.com/account/file/456

69288/661f2c4b/Ananda_Kentish_Coomaraswamy_-_La_Doctrina_India_del_Fin_ltimo_del_Hombre.html?sId=IiIRzCuRGFI0rvcp) teremos uma compreensão da diferença entre o que separa o atual Ocidente das doutrinas tradicionais. Sempre sóbrio e preciso, Coomaraswamy explica no capítulo (na verdade, uma palestra transcrita) “¿De Qué Herencia y ante quiénes son Responsables los Pueblos de Habla Inglesa?” como a abordagem inglesa à cultura e civilização hindu foi absurda e pretensiosa.

Podemos concluir após essa leitura que a civilização hindu, tida como tão exótica e “atrasada” pelos ocidentais modernos guardava muitas semelhanças com o antigo Ocidente, o Ocidente destruído pelos ideais materialistas, e que perdeu todo lastro de civilização. A civilização hindu era tão estranha aos ingleses por inserir todo seu cotidiano e afazeres em uma cosmovisão, algo que os ocidentais não possuem a menor idéia do que é.

A tentativa de converter a alma hindu ao modo de vida anglicano só poderia acabar em desastre. Primeiro, porque gerou uma casta de indianos que esqueceram de suas origens, tornaram-se ingleses de gosto e espírito, mas que ainda assim guardavam um certo sentimento nacionalista sem motivo algum. O segundo prejuízo ocorreu entre os ingleses que se aproximaram das doutrinas orientais sem qualquer preparo ou qualificação intelectual.

Nasceu então a pseudo-erudição orientalista ocidental, uma patética tentativa de reduzir o estudo das ciências tradicionais indianas às questões acadêmicas sob o ponto de vista racionalista. Coomaraswamy chega a traçar um renascimento positivo depois desses tristes eventos, devido ao aparecimento de estudiosos não mais interessados ao estudo com fins prosélitos de refutação das doutrinas hindus, mas sim com fim em “usar uma tradição para iluminar a outra”

Essa obra nos leva a uma reflexão importante, levando em conta o que vemos hoje, mas que Coomaraswamy não viveu para ver e comentar:

A invasão atual de falsos gurus e confusas doutrinas orientais, que muitos gostam de atribuir a René Guénon e autores tradicionalistas, não é nada mais que um fruto do contato entre uma civilização destruída que tentou destruir uma outra civilização. Ao aproximar de uma civilização tradicional, o Ocidente já sem os pressupostos capazes para defender sua civlização de heterodoxias e confusões doutrinárias, permitiu que fosse instaurada a confusão de conceitos tradicionais, e o que nos causa mais preocupação é o fato de na atual conjuntura não existir qualquer solução contra isso.

Além disso, Coomaraswamy aborda outros assuntos das doutrinas orientais pouco compreendidos pela maioria: desde a questão da reencarnação até evolução e as bases da civilização hindu.

A leitura desta obra é capaz de desmontar “dogmas” das doutrinas orientais criados pela má leitura ocidental, como a crença de que o hinduísmo é reencarncionista e politeísta.

No fim dessa leitura, percebe-se que a civilização hindu não é tão estranha, e muito menos confusa ou distante do Ocidente quando ainda era uma civilizaçõ. É uma obra que nos levará a meditar porque o Ocidente não é mais uma civilização, porque a conservação desse estado de coisas é um espírito de covardia e ignorância.

Dediquem certa atenção a esta obra, e procurem analisá-la segundo os eventos atuais. É fundamental compreender não só porque o Ocidente chegou nessa situação, como também porque ele tentou destruir o Oriente, e como essa tentativa acabou por afundar ainda mais o mundo moderno.

“…Le guerre sono vinte da coloro che hanno saputo attrarre dai cieli le forze misteriose del mondo invisibile e assicurarsi il concorso di queste forze. Queste forze misteriose sono già spiriti dei morti, già spiriti dei nostri antenati, i quali sono stati anche loro, un tempo, legati alla nostra terra, alle nostre zolle e sono morti in difesa di questa terra, rimanendo ancor oggi legati ad essa dal ricordo della loro vita quaggiù e per tramite nostro, loro figli, nipoti e pronipoti. Ma più in alto degli spiriti dei morti sta Dio. Queste forze, una volta attratte, fanno pendere la bilancia dalla tua parte, ti difendono, ti infondono coraggio, volontà e tutti gli elementi necessari alla vittoria e fanno sì che tu vinca. Gettano il panico e il terrore fra i nemici, paralizzano la loro attività. In ultima analisi, le vittorie non dipendono dalla preparazione materiale, dalle forze materiali dei belligeranti, ma dal loro potere di assicurarsi il concorso delle potenze spirituali. In questo modo si spiegano, nella nostra storia, le vittorie miracolose di alcune potenze assolutamente inferiori dal punto di vista materiale…” – Cornelio Codreanu

 

 

Creio ser necessário estabelecer, durante este tópico, as diferenças, intenções e conceitos dos chamados movimentos revolucionários e contra-revolucionários.

Dantes, é necessário esclarecer alguns aspectos da mentalidade contra-revolucionária, bem como suas vertentes. A mais ditosa, a Contra-Revolução idealizada pelos pensadores católicos ultra-conservadores, como a TFP e movimentos contra a Nova Missa e o Vaticano II, tem como base não só a luta contra a revolução esquerdista, mas também contra a própria revolução liberal.

Católicos como o Prof. Dr. Orlando Fedeli colocam, repletos de razão, capitalismo e comunismo como faces diferentes da mesma moeda. Assim, essa contra-revolução é uma tentativa de voltar a ínclitos tempos do passado, quando o homem era guiado por valorosos ideais espirituais, quando não havia qualquer influência dessa nefanda concepção individualista do homem que surgiu durante o protestantismo. Portanto, é patético notar em alguns simpatizantes e até membros da TFP um apreço pueril aos EUA e ao próprio capitalismo, já que na obra “Revolução e Contra-Revolução” do Sr. Dr. Plínio podemos perceber um caminho completamente oposto, que é o caminho da valente e heróica luta contra a modernidade e todas suas vertentes, uma verdadeira revolta contra as bases do mundo moderno que foram constituídas pelo Protestantismo. A tese defendida pelo Sr. Dr. Plínio nesta obra, uma das poucas que adotamos gostosamente, postula que o Protestantismo é o pai das revoluções liberais seguintes, que por fim desaguaram no comunismo. Outrossim, é a contra-revolução nos dias de hoje a própria revolução em seu sentido literal, é a volta a um estado de coisas superior, através do heroísmo e de um fatalismo místico e milenarista, que também vemos com bons olhos.

Agora, abordemos a posição contra-revolucionária covarde e contraditório de neocons e olavetes.

Olavo e limitados da mesma laia defendem que a mentalidade revolucionária é algo que deve ser banido, pois é responsável pelas maiores desgraças e matanças de toda a história da humanidade.


“A essência da mentalidade contra-revolucionária ou conservadora é a aversão a qualquer projeto de transformação abrangente, a recusa obstinada de intervir na sociedade como um todo, o respeito quase religioso pelos processos sociais regionais, espontâneos e de longo prazo, a negação de toda autoridade aos porta-vozes do futuro hipotético.

Nesse sentido, o autor destas linhas é estritamente conservador. Entre outros motivos, porque acredita que só o ponto de vista conservador pode fornecer uma visão realista do processo histórico, já que se baseia na experiência do passado e não em conjeturações de futuro. Toda historiografia revolucionária é fraudulenta na base, porque interpreta e distorce o passado segundo o molde de um futuro hipotético e aliás indefinível. Não é uma coincidência que os maiores historiadores de todas as épocas tenham sido sempre conservadores.

Se, considerada em si mesmo e nos valores que defende, a mentalidade contra-revolucionária deve ser chamada propriamente “conservadora”, é evidente que, do ponto de vista das suas relações com o inimigo, ela é estritamente “reacionária”. Ser reacionário é reagir da maneira mais intransigente e hostil à ambição diabólica de mandar no mundo.”

- A Mentalidade Revolucionária, Olavo de Carvalho

Pois muito bem, eis que partindo dessas assertivas olavianas chegamos às seguintes conclusões:

1)- a mentalidade revolucionária deseja intervir a todo custo nos cursos da sociedade, em nome de seu tal “futuro hipoético”.
2)- a mentalidade revolucionária reveste-se de autoridade com base nesse futuro hipotético.
3)- mas no fim, o que move tudo isso é apenas a ambição diabólica de mandar no mundo.

Notamos que este pensamento carece de qualquer fundamento Tradicional, e está baseado em concepções com base no Protestantismo e seu filho preferido, o neoconservadorismo americano.

Embora neoconservadores neguem o intento de criar um novo homem, tal hipocrisia cai por terra ao notarmos que, na prática, buscam totalmente o contrário. Pois, o que é mais revolucionário que invadir países estrangeiros em nome de uma suposta libertação do povo, em nome da criação de regimes “democráticos”? Não é isso a busca por um novo homem? O insígne René Guénon, num tom que continua ainda mais atualizado nos dias de hoje, escreveu e profetizou:

“Incontestavelmente, o Ocidente está invadindo tudo; sua ação exerceu-se em primeiro lugar no domínio material, o que estava imediatamente ao seu alcance, seja pela conquista violenta, seja pelo comércio e o açambarcamento dos recursos de todos os povos. Mas as coisas agora vão ainda mais longe. Os ocidentais sempre animados por esta necessidade de proselitismo que lhes é tão peculiar, conseguiram até certo ponto espalhar entre outros, seu espírito anti-tradicional e materialista; e quando a primeira forma de invasão não atingia, em suma, senão os corpos, esta envenena as inteligências e mata a espiritualidade. Aliás, uma preparou a outra e a tornou possível, de maneira que não é em definitivo senão pela força bruta que o Ocidente chegou a impor-se por toda a parte, e não podia ser de outra forma, pois é nisso que assenta a única superioridade real de sua civilização, tão inferior sob qualquer outro ponto de vista.

A invasão ocidental é a invasão do materialismo sob todas as suas formas, e talvez não passe disso; todos os disfarces mais ou menos hipócritas, todos os pretextos “moralistas”, todas as declamações “humanitárias”, todas as habilidades de uma propaganda que sabe, na ocasião, tornar-se insinuante, para melhor atingir seu fim de destruição, tudo isso nada pode contra esta verdade, que não poderia ser contestada senão por ingênuos, ou por aqueles que têm qualquer interesse nesta obra verdadeiramente “satânica”, no sentido mais rigoroso da palavra.”

[...]

“Assim, quando a resistência a uma invasão estrangeira é feita por um povo ocidental, chama-se “patriotismo” e é ela digna de todos os elogios; quando porém, o é por um povo orientai, chama-se “fanatismo”, ou “xenofobia” e já não merece agora senão o ódio e o desprezo. Demais, não é em nome do “Direito”, da “Liberdade”, da “Justiça” e da “Civilização” que os europeus pretendem sempre impor a sua dominação, e impedir a qualquer outro homem que êle viva e pense de um modo diferente do seu? Convir-se-á que o “moralismo” é realmente uma coisa admirável, a não ser que se prefira concluir muito simplesmente, como nós mesmos que, salvo algumas exceções tanto mais honrosas quanto mais raras, já não há mais, por assim dizer, no Ocidente, senão duas espécies de pessoas, bem pouco interessantes tanto uma como outra: os ingênuos, que se deixam levar pelas belas palavras e que crêem em sua “missão civilizadora”, inconscientes como são da barbarie materialista em que estão mergulhados, e os hábeis, que exploram este estado de espírito para a satisfação de seus instintos de violência e de cupidez. Em todo o caso, o que há de certo é que os orientais não ameaçam a ninguém, nem cogitam tampouco de invadir o Ocidente de um modo ou doutro.” – “A Crise do Mundo Moderno”

Notamos tal pernicioso pensamento em ditos “católicos” neocons, como Dinesh D’Souza, sujeito que se diz católico, mas na prática e nas idéiais, é um protestante furreca. Notem que neocons reduzem o papel da religião ao moralismo, não é mais função da religião criar um novo homem, estabelecer uma ordem com fundamentos metafísicos; a função da religião é dar uma vida boa e garantir direitos individuais tão louvados pelo Ocidente.

Percebe-se tal pensamento materialista e destruidor de qualquer base Tradicional em qualquer artigo neocon sobre o assunto, como por exemplo:

http://www.americanthinker.com/2008/02/does_shariah_really_promote_hu.html

Embora as críticas ao Islam sejam superficiais e idiotas, a leitura do texto levanta um ponto importante, que merece mais atenção que as patuscadas de um autor limitado intelectualmente: o que nos chama a atenção é a monstruosa pretensão de julgar uma Tradição religiosa segundo fundamentos meramente humanos e, para desespero de qualquer neocon, revolucionários. Pois não foi a revolução iluminista que estabeleceu a primazia da “razão” contra os fundamentos os religiosos? Não foram os revolucionários secularistas que advogaram o completo abandono da concepção jusnaturalista em nome de uma direção rumo à vontade do populacho? Dinesh D’Souza, em seu folheto incensado como grande obra “What’s so great About America?” derrama elogios às liberdades individuais da América, e que, segundo o parvo americano, existem graças às raízes cristãs da América.

Mas de qual Cristianismo Dinesh trata? Do catolicismo, que ele diz professar? Ou do calvinismo, que instaurou durante sua era em Genebra um dos regimes que mais atacaram as liberdades individuais? Não, meus caros, Dinesh falava em nome de uma antiga religião: a adoração ao bezerro de ouro.

A adoração ao bezerro de ouro é o culto a Kaly, à destruição dos fundamentos tradicionais do homem. Ao utilizar o Cristianismo para defender seu ósculo ao bezerro, Dinesh cria uma nova religião, uma religião que não tem mais papas, Escrituras ou Tradição para guiar seus caminhos, mas sim os valores criados por… revolucionários!

Vejamos o que diz a Igreja Católica sobre as liberdades tão caras a neocons:


Monstruosidade da liberdade de imprensa

11. Devemos tratar também neste lugar da liberdade de imprensa, nunca condenada suficientemente, se por ela se entende o direito de trazer-se à baila toda espécie de escritos, liberdade que é por muitos desejada e promovida. Horroriza-Nos, Veneráveis Irmãos, o considerar que doutrinas monstruosas, digo melhor, que um sem-número de erros nos assediam, disseminando-se por todas as partes, em inumeráveis livros, folhetos e artigos que, se insignificantes pela sua extensão, não o são certamente pela malícia que encerram, e de todos eles provém a maldição que com profundo pesar vemos espalhar-se por toda a terra. Há, entretanto, oh que dor! quem leve a ousadia a tal requinte, a ponto de afirmar intrepidamente que essa aluvião de erros que se está espalhando por toda parte é compensada por um ou outro livro que, entre tantos erros, se publica para defender a causa da religião. É por toda forma ilícito e condenado por todo direito fazer um mal certo e maior, com pleno conhecimento, só porque há esperança de um pequeno bem que daí resulte. Porventura dirá alguém que se podem e devem espalhar livremente venenos ativos, vendê-los publicamente e dá-los a tomar, porque pode acontecer que, quem os use, não seja arrebatado pela morte?

12. Foi sempre inteiramente distinta a disciplina da Igreja em perseguir a publicação de livros maus, desde o tempo dos Apóstolos, dos quais sabemos terem queimado publicamente muitos deles. Basta ler as leis que a respeito deu o V. Concílio de Latrão e a constituição que ao depois foi dada a público por Leão X, de feliz recordação, para que o que foi inventado para o progresso da fé e a propagação das belas artes não sirva de entrave e obstáculo aos Fiéis em Cristo (Act. Concílio Lateran. V, ses. 10; e Constituição Alexand. VI ‘Inter multiplices’).O mesmo procuraram os Padres de Trento que, para trazer remédio a tanto mal, publicaram um salubérrimo decreto para compor um índice de todos aqueles livros que, por sua má doutrina, deviam ser proibidos (Conc. Trid. sess. 18 e 25). Há que se lutar valentemente, disse Nosso predecessor Clemente XIII, de piedosa memória; há que se lutar com todas as nossas forças, segundo o exige a gravidade do assunto, para exterminar a mortífera praga de tais livros, pois o erro sempre procurará onde se fomentar, enquanto não perecerem no fogo esses instrumentos de maldade (Encíclica ‘Christianae’, 25 nov. 1776, sobre livros proibidos). Da constante solicitude que esta Sé Apostólica sempre revelou em condenar os livros suspeitos e daninhos, arrancando-os às suas mãos, deduzam, portanto, quão falsa, temerária e injuriosa à Santa Sé e fecunda em males gravíssimos para o povo cristão é aquela doutrina que, não contente com rechaçar tal censura de livros como demasiado grave e onerosa, chega até ao cúmulo de afirmar que se opõe aos princípios da reta justiça e que não está na alçada da Igreja decretá-la.

Males da separação da Igreja e do Estado

16. Mais grato não é também à religião e ao principado civil o que se pode esperar do desejo dos que procuram separar a Igreja e o Estado, e romper a mútua concórdia do sacerdócio e do império. Sabe-se, com efeito, que os amadores da falsa liberdade temeram ante a concórdia, que sempre produziu resultados magníficos, nas coisas sagradas e civis.

Liberdade do mal que certas associações apregoam

17. A muitas outras coisas de não pouca importância, que Nos trazem preocupado e enchem de dor, devem-se acrescer certas associações ou assembléias, as quais, confederando-se com sectários de qualquer religião, simulando sentimentos de piedade e afeto para com a religião, mas na verdade possuídas inteiramente do desejo de novidades e de promover sedições em toda parte, pregam liberdades de tal jaez, suscitam perturbações nas coisas sagradas e civis, desprezando qualquer autoridade, por mais santa que seja. – “Mirari Vos” Papa Gregório XVI – MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=enciclicas&artigo=mirarivos〈=bra
Online, 25/04/2008 às 14:10h

O culto ao bezerro de ouro não suporta tais cousas. O bezerro de ouro deseja a liberdade. A liberdade para perder almas, para impedir o surgimento do novo homem, de uma nova sociedade, pois nada é mais interessante a esse culto que a continuação desse estado de coisas. O bezerro de ouro é guardado pelos kuravas, que desejam a continuação da impiedade e o impedimento da chegada do novo reino.

Como, diante disso, manter uma atitude “conservadora” e “contra-revolucionária”? Seria um absurdo diabólico lutar contra esse bezerro de ouro? Se sim, podemos colocar no saco da mentalidade revolucionária os pandavas, que na batalha de Kurushetra buscaram a destruição do poder estabelecido.

Vejam que os elementos da tal “mentalidade revolucionária” estava presente na elevada batalha de Arjuna contra os seus, e o principal: a idéia de que a guerra não é apenas material, é interior, a destruição do inimigo faz parte do próprio dharma do guerreiro, a luta contra os samskaras, a natureza demoníaca que impede a liberação do homem.

Nos dia de hoje, vemos alinhados no campo da escuridão, como kauravas modernos, todas as doutrinas meramente políticas, sejam elas de índole conservadora ou revolucionária, mas que no fim visam apenas a pobreza do espírito, a supremacia da razão sobre esse despertar, essa liberação.

De outro lado, vemos alinhados os pandavas, homens que lutam pela verdadeira libertação e pela verdadeira volta ao estado original, buscam a criação desse novo homem transcendente e liberto de toda ilusão, de todos anseios transitórios e terrenos, conforme profetiza Alexander Dugin:

“The materialistic, atheistic, antisacral, technocratic, atlantist variant of the End is turned into a different epilogue — the final Victory of the sacred Avatar, the coming of the Terrible Destiny, giving those who chose voluntary poverty a reign of spiritual abundance, and to those who preferred wealth founded on assassination of Spirit, eternal damnation and torments in hell.”

Estamos em outra batalha de Kurushetra. Kurushetra significa “campo de ação”. Nos resta agora decidir em qual lado combateremos.

 

 

“A influência da natureza material não pode afetar uma alma iluminada, ainda que ela participe de atividades materiais, pois ela sabe a verdade sobre o absoluto, e sua mente está fixada na Suprema Personalidade de Deus.” – Śrīmad Bhāgavatam, 3,27-3

 

 

Segundo os Vedas, a consciência material é a causa da vida condicionada. É a consciência material, a vontade de desfrutar, que força uma entidade a obter uma existência material. Outrossim, os sentimentos de felicidade e tristeza, transcendentais por natureza, são causados pelo próprio espírito. O mundo material, tido como uma grande floresta de desfrute, é o local onde o ser-vivo caiu por desejar o desfrute, e por causa disso, está sujeito aos três modos da matéria condicionada. A paixão cria, a bondade sustenta e a ignorância destrói. Toda alma está sujeita aos três modos de existência material:

“A bondade prevalece pela supressão da paixão e da ignorância; a paixão prevalece pela supressão da bondade e da ignorância, e a ignorância prevalece pela supressão da bondade e da paixão, Ó Arjuna.- Bhagavad-Gita, 14,10

 

A poluição da consciência faz a alma se apegar nas ações físicas, de ações e reações comandadas pelas três formas de natureza material. O verdadeiro propósito, então, é se libertar dessa ilusão material, para voltar ao mundo espiritual, que foi deixado devido à vontade de desfrutar. O estado homem que esquece do espiritual, para desfrutar do mundo material, é comparado ao sono, pois assim como os prazeres que vemos nos sonhos são meras criações mentais, irreais, também este desfrute terreno é uma mera ilusão sem qualquer existência permanente.

 

 

Roubo, estupro, maus governantes, assassinatos, enganação, avareza, exploração: tudo isso nasce da necessidade de todos que passam para a vida material de desfrutar. Os conflitos nascem dessa necessidade, já que os interesses dos que desejam apenas desfrutar sempre é conflitante, e muitos, iludidos pelos sentidos, não conseguem escapar de suas ilusões, e tornam-se cada vez mais apegados a tais desfrutes.

“Os sentidos materiais criam as atividades materiais, tanto piedosas como pecaminosas, e os modos da natureza colocam os sentidos materiais em movimento. O ser-vivo, totalmente engajado pelos sentidos materiais e modos da natureza, experimenta os diversos resultados do trabalho fruitivo.” – Śrīmad Bhāgavatam 11,10

Tal caráter de deleite do mundo material fica muito claro na seguinte passagem:

 

 

“Quando o Rei Parīkṣit perguntou a Śukadeva Gosvāmī sobre o significado da floresta material, Śukadeva Gosvāmī respondeu assim: Meu querido rei, um homem que pertence à comunidade comercial está sempre interessado em ganhar dinheiro. Algumas vezes ele entra na floresta para adquirir algumas mercadorias gratuitas como árvore e terra para então vendê-las na cidade por um bom preço. Da mesma forma, a alma condicionada, pela avidez, entra neste mundo material em busca de algum benefício material. Gradualmente, ela entra nas profundezas da floresta, sem saber como sair. Ao entrar no mundo material, a alma pura torna-se condicionada pela atmosfera material, que é criada pela energia externa sob o controle do Senhor Viṣṇu. Assim as entidades vivas ficam sob o controle de uma energia externa, daivī māyā. Vivendo sozinha e confusa na floresta, ela não consegue obter a associação dos devotos que estão sempre engajados no serviço ao Senhor. Já na concepção corpórea, ela recebe diferentes tipos de corpos sucessivamente sob a influência da energia material e impelida pelos modos de natureza material. Assim a alma condicionada caminha algumas vezes para planos celestiais, outras para planos terrenos e algumas vezes para planos baixos e de espécies inferiores. Assim, seu sofrimento continua devido aos diferentes tipos de corpos. Estes sofrimentos e dores são misturados algumas vezes. Algumas vezes tais coisas são muito severas, outras não. Estas condições corpóreas são adquiridas devido às especulações mentais da alma condicionada. Ela usa sua mente e os cinco sentidos para adquirir conhecimento, e isso produz os diferentes corpos e condições. Usando os sentidos sob o controle da energia exterior, māyā, a entidade viva sofre as misérias da condição de existência material. Ela que de fato busca pro alívio, é geralmente desnorteada, embora algumas vezes consiga algum alívio após grandes dificuldades. Lutando pela existência neste caminho, ela não pode alcançar o abrigo dos devotos puros, que são como abelhas engajadas no serviço amoroso nos pés de lótus do Senhor Viṣṇu.” – Śrīmad Bhāgavatam, 5,14

 

Ao entrar na floresta, em busca de desfrute, a alma fica sujeita aos três modos da existência material. É a busca pelos benefícios da floresta que irá causar as dores e lamentações da alma.

A combinação desses três modos, que é a causa da existência material, é chamada de pradhāna. Quando manifestada no estado da existência, é chamada de prakṛti. Pradhāna é a reunião dos cinco elementos grosseiros, os cinco sutis, os quatro internos, os cinco de conhecimento e os cinco órgãos de ação exterior.

Os elementos grosseiros são: água, terra, fogo, ar e éter. São os sutis: cheiro, tato, cor, paladar e audição. Os sentidos de adquriri conhecimento e dos órgãos são: sentido de audição, sentido de paladar, sentido de tato, sentido de visão, sentido de olfato, o órgão ativo da fala, os órgãos utilizados para trabalho, e também os utilizados para viajar, procriar e evacuar.

A natureza material consiste de três modos: da bondade (sattvam), paixão (rajas) e ignorância (tama). A alma iluminada não é afetada por estes três modos, pois ao obter o conhecimento transcendental, ela deixa de ser influenciada por estes três modos da existência material, por já ter se fixado na Suprema Personalidade de Deus.

 

“Ó Arjuna, o modo da bondade prende alguém à felicidade do estudo e conhecimento do espírito; o modo da paixão prende à ação; e o modo da ignorância prende por negligência, pelo encobrimento do auto-conhecimento.” – Bhagavad-gītā , 14.09

O modo da bondade liberta das atividades pecaminosas, leva à felicidade, desenvolve o verdadeiro conhecimento, e aquele que morre no modo da bondade, é levado para os mais altos planos dos grandes mestres. Embora ainda seja um modo de natureza material, o modo da bondade não é pecaminoso, pois é “o mais puro do mundo material” (nirmalatvāt). O homem neste estado é menos afetado pelas misérias da existência material. O sacrifício do que está no modo da bondade é feito conforme as Escrituras, com fé e convicção firme de que ele é uma obrigação.

Neste modo, as aflições e confusões da alma condicionada são aliviadas. Embora seja um estado da alma condicionada, e portanto, do ser-vivo que buscou o desfrute, é um estado elevado por seu apego ao conhecimento, é o que faz desenvolver o verdadeiro conhecimento.

O modo da paixão, que nasce do desejo, e produz apego, desejo por ouro, e também gula, luxúria, mesquinharia, ambição. Tudo que é feito no modo da paixão resulta em miséria. Por esta razão, os brahmanas não devem tomar atitudes ou decisões no modo da paixão, pos ele é incompatível com o estado de sábio ou sacerdote, e muito menos viver neste estado. Os kshatriyas e vaishyas vivem entre o modo da bondade e paixão. Quanto maior é este modo, mais anseio a alma sente pelo desfrute, e mais sofrimento ela terá.

No modo da ignorância, o modo da escuridão, a alma é levada à loucura e ilusão. É o modo daquele que vive distraído pela preguiça, indolência. Neste estado, a alma não pode diferenciar o certo do errado, qual é seu objetivo ou se está cometendo atividades pecaminosas. Esta alma adora os demônios, oferece sacrifícios sem seguir as Escrituras, seja por egoísmo, hipocrisia e auto-satisfação.

“Assim os descendentes dos macacos misturam-se entre si, e eles são normalmente chamados de śūdras. Sem hesitação, eles vivem libertinamente, sem conhecer o objetivo da vida. Eles são condenados a ver apenas um a face do outro, que vos relembra o sentido da gratificação. Sempre engajados em atividades materiais, conhecidas como grāmya-karma, trabalham duro para benefício material. Desta forma esqueceram completamente que um dia suas expectativas de vida irá acabar e então serão degradados no ciclo evolutivo.” Śrīmad Bhāgavatam, 5,14

Na existência material, os sentidos são os maiores adversários do homem. Mesmo nas boas ações, sentidos como o da auto-gratificação podem arruinar as coisas boas. Pela necessidade de satisfazer seus instintos (visão, olfato, paladar, tato, audição, desejo e vontade), o homem ainda desvia aquilo que não era seu para satisfazer seus sentidos.

 

Por esta razão, apenas a alma iluminada, livre das tentações do sentido, consegue viver no mundo material sem ser atraída ou enganada pelos sentidos. Como confirmação, do que foi explicado e da citação do Śrīmad Bhāgavatam (3,27-3) no cabeço deste texto, coloco o ensinamento do Mahārāja Rahūgaṇa ao Rei Rahūgaṇa, sobre o que ele deveria fazer para escapar do ciclo de fuga e volta às perigosas posições sujeitas à alma condicionada.

 

“Meu querido Rei Rahūgaṇa, vós também és uma vítima da energia exterior, pois estás no caminho de atração dos prazeres materiais. Então, para que possais tornar-se um amigo justo a todas as entidades, aconselho-te a desistir da vossa posição real e da verga que usas para punir criminosos. Desistas da atenção aos objetos sensíveis para segurar a espada do conhecimento afiada pelo serviço devocional. Então, serás hábil para cortar o duro nó da energia ilusória e cruzar para o outro lado do oceano da existência espiritual.” – Śrīmad Bhāgavatam 5,13

 

Tudo que ocorre no modo material é consequência do desejo, aflições e necessidades. A fome a sede causam fúria, falta de paciência. Muitas vezes a noção de que o apreço às sentidos de desfrute é esquecido pela própria corrida aos gozos materiais. A ansiedade, pelo medo de perder posição de prestígio, também faz a alma não conseguir escapar e cair nas armadilhas da ilusão.

A incompatibilidade de atividades como de guerreiro e rei, com a busca da transcendência, se da pelo fato da própria atividade de punir causar danos à alma condicionada do castigador, prendendo-o ainda mais nas ilusões do modo de vida material.