Segundo os Vedas, a consciência material é a causa da vida condicionada. É a consciência material, a vontade de desfrutar, que força uma entidade a obter uma existência material. Outrossim, os sentimentos de felicidade e tristeza, transcendentais por natureza, são causados pelo próprio espírito. O mundo material, tido como uma grande floresta de desfrute, é o local onde o ser-vivo caiu por desejar o desfrute, e por causa disso, está sujeito aos três modos da matéria condicionada. A paixão cria, a bondade sustenta e a ignorância destrói. Toda alma está sujeita aos três modos de existência material:
“A bondade prevalece pela supressão da paixão e da ignorância; a paixão prevalece pela supressão da bondade e da ignorância, e a ignorância prevalece pela supressão da bondade e da paixão, Ó Arjuna.” - Bhagavad-Gita, 14,10
A poluição da consciência faz a alma se apegar nas ações físicas, de ações e reações comandadas pelas três formas de natureza material. O verdadeiro propósito, então, é se libertar dessa ilusão material, para voltar ao mundo espiritual, que foi deixado devido à vontade de desfrutar. O estado homem que esquece do espiritual, para desfrutar do mundo material, é comparado ao sono, pois assim como os prazeres que vemos nos sonhos são meras criações mentais, irreais, também este desfrute terreno é uma mera ilusão sem qualquer existência permanente.
Roubo, estupro, maus governantes, assassinatos, enganação, avareza, exploração: tudo isso nasce da necessidade de todos que passam para a vida material de desfrutar. Os conflitos nascem dessa necessidade, já que os interesses dos que desejam apenas desfrutar sempre é conflitante, e muitos, iludidos pelos sentidos, não conseguem escapar de suas ilusões, e tornam-se cada vez mais apegados a tais desfrutes.
“Os sentidos materiais criam as atividades materiais, tanto piedosas como pecaminosas, e os modos da natureza colocam os sentidos materiais em movimento. O ser-vivo, totalmente engajado pelos sentidos materiais e modos da natureza, experimenta os diversos resultados do trabalho fruitivo.” – Śrīmad Bhāgavatam 11,10
Tal caráter de deleite do mundo material fica muito claro na seguinte passagem:
“Quando o Rei Parīkṣit perguntou a Śukadeva Gosvāmī sobre o significado da floresta material, Śukadeva Gosvāmī respondeu assim: Meu querido rei, um homem que pertence à comunidade comercial está sempre interessado em ganhar dinheiro. Algumas vezes ele entra na floresta para adquirir algumas mercadorias gratuitas como árvore e terra para então vendê-las na cidade por um bom preço. Da mesma forma, a alma condicionada, pela avidez, entra neste mundo material em busca de algum benefício material. Gradualmente, ela entra nas profundezas da floresta, sem saber como sair. Ao entrar no mundo material, a alma pura torna-se condicionada pela atmosfera material, que é criada pela energia externa sob o controle do Senhor Viṣṇu. Assim as entidades vivas ficam sob o controle de uma energia externa, daivī māyā. Vivendo sozinha e confusa na floresta, ela não consegue obter a associação dos devotos que estão sempre engajados no serviço ao Senhor. Já na concepção corpórea, ela recebe diferentes tipos de corpos sucessivamente sob a influência da energia material e impelida pelos modos de natureza material. Assim a alma condicionada caminha algumas vezes para planos celestiais, outras para planos terrenos e algumas vezes para planos baixos e de espécies inferiores. Assim, seu sofrimento continua devido aos diferentes tipos de corpos. Estes sofrimentos e dores são misturados algumas vezes. Algumas vezes tais coisas são muito severas, outras não. Estas condições corpóreas são adquiridas devido às especulações mentais da alma condicionada. Ela usa sua mente e os cinco sentidos para adquirir conhecimento, e isso produz os diferentes corpos e condições. Usando os sentidos sob o controle da energia exterior, māyā, a entidade viva sofre as misérias da condição de existência material. Ela que de fato busca pro alívio, é geralmente desnorteada, embora algumas vezes consiga algum alívio após grandes dificuldades. Lutando pela existência neste caminho, ela não pode alcançar o abrigo dos devotos puros, que são como abelhas engajadas no serviço amoroso nos pés de lótus do Senhor Viṣṇu.” – Śrīmad Bhāgavatam, 5,14
Ao entrar na floresta, em busca de desfrute, a alma fica sujeita aos três modos da existência material. É a busca pelos benefícios da floresta que irá causar as dores e lamentações da alma.
Os elementos grosseiros são: água, terra, fogo, ar e éter. São os sutis: cheiro, tato, cor, paladar e audição. Os sentidos de adquriri conhecimento e dos órgãos são: sentido de audição, sentido de paladar, sentido de tato, sentido de visão, sentido de olfato, o órgão ativo da fala, os órgãos utilizados para trabalho, e também os utilizados para viajar, procriar e evacuar.
A natureza material consiste de três modos: da bondade (sattvam), paixão (rajas) e ignorância (tama). A alma iluminada não é afetada por estes três modos, pois ao obter o conhecimento transcendental, ela deixa de ser influenciada por estes três modos da existência material, por já ter se fixado na Suprema Personalidade de Deus.
“Ó Arjuna, o modo da bondade prende alguém à felicidade do estudo e conhecimento do espírito; o modo da paixão prende à ação; e o modo da ignorância prende por negligência, pelo encobrimento do auto-conhecimento.” – Bhagavad-gītā , 14.09
O modo da bondade liberta das atividades pecaminosas, leva à felicidade, desenvolve o verdadeiro conhecimento, e aquele que morre no modo da bondade, é levado para os mais altos planos dos grandes mestres. Embora ainda seja um modo de natureza material, o modo da bondade não é pecaminoso, pois é “o mais puro do mundo material” (nirmalatvāt). O homem neste estado é menos afetado pelas misérias da existência material. O sacrifício do que está no modo da bondade é feito conforme as Escrituras, com fé e convicção firme de que ele é uma obrigação.
Neste modo, as aflições e confusões da alma condicionada são aliviadas. Embora seja um estado da alma condicionada, e portanto, do ser-vivo que buscou o desfrute, é um estado elevado por seu apego ao conhecimento, é o que faz desenvolver o verdadeiro conhecimento.
O modo da paixão, que nasce do desejo, e produz apego, desejo por ouro, e também gula, luxúria, mesquinharia, ambição. Tudo que é feito no modo da paixão resulta em miséria. Por esta razão, os brahmanas não devem tomar atitudes ou decisões no modo da paixão, pos ele é incompatível com o estado de sábio ou sacerdote, e muito menos viver neste estado. Os kshatriyas e vaishyas vivem entre o modo da bondade e paixão. Quanto maior é este modo, mais anseio a alma sente pelo desfrute, e mais sofrimento ela terá.
No modo da ignorância, o modo da escuridão, a alma é levada à loucura e ilusão. É o modo daquele que vive distraído pela preguiça, indolência. Neste estado, a alma não pode diferenciar o certo do errado, qual é seu objetivo ou se está cometendo atividades pecaminosas. Esta alma adora os demônios, oferece sacrifícios sem seguir as Escrituras, seja por egoísmo, hipocrisia e auto-satisfação.
“Assim os descendentes dos macacos misturam-se entre si, e eles são normalmente chamados de śūdras. Sem hesitação, eles vivem libertinamente, sem conhecer o objetivo da vida. Eles são condenados a ver apenas um a face do outro, que vos relembra o sentido da gratificação. Sempre engajados em atividades materiais, conhecidas como grāmya-karma, trabalham duro para benefício material. Desta forma esqueceram completamente que um dia suas expectativas de vida irá acabar e então serão degradados no ciclo evolutivo.” Śrīmad Bhāgavatam, 5,14
Na existência material, os sentidos são os maiores adversários do homem. Mesmo nas boas ações, sentidos como o da auto-gratificação podem arruinar as coisas boas. Pela necessidade de satisfazer seus instintos (visão, olfato, paladar, tato, audição, desejo e vontade), o homem ainda desvia aquilo que não era seu para satisfazer seus sentidos.
Por esta razão, apenas a alma iluminada, livre das tentações do sentido, consegue viver no mundo material sem ser atraída ou enganada pelos sentidos. Como confirmação, do que foi explicado e da citação do Śrīmad Bhāgavatam (3,27-3) no cabeço deste texto, coloco o ensinamento do Mahārāja Rahūgaṇa ao Rei Rahūgaṇa, sobre o que ele deveria fazer para escapar do ciclo de fuga e volta às perigosas posições sujeitas à alma condicionada.
A incompatibilidade de atividades como de guerreiro e rei, com a busca da transcendência, se da pelo fato da própria atividade de punir causar danos à alma condicionada do castigador, prendendo-o ainda mais nas ilusões do modo de vida material.
