Posted by Rafael in filosofia, hinduísmo, metafísica, tradição.
Pois bem, no nyaya, vaisheshika e no purvamimamsa o conceito de abhava, a não-existência, é dividido em quatro categorias. Muito embora no advaita o conceito de abhava não seja colocado como uma categoria, creio eu que é útil analisar todos os conceitos para melhor entender a realização metafísica, já que muitas vezes a pergunta “qual a diferença entre aniquilação e realização metafísica?” é levantada.
São eles:
1. prag-abhava – a não-existência anterior à criação.
2. pradhavamsa-abhava – a não-existêncioa posterior à destruição.
3. atyanta-abhava – a não-existência limitada, pois o objeto não existe em outro tempo particular além daquele que está limitado no espaço.
4. anyonya-abhava – É a diferença entre uma coisa e outra. Por exemplo: não existe um cachorro que é um gato. O que existe entre o cachorro e o gato é uma não-existência mútua, chamada anyonya-abhava.
Mas, o que isso pode resolver o nosso problema? Bem, sabemos que tudo nos modos de existência material passou a existir durante a criação, e portanto, um gato não é um gato que brotou da não-existência, mas um gato que existia em potência e passou a existir no mundo grosseiro. Desta forma, o realizado é aquele que não opera mais em si mesmo maya ou avidya, e que portanto, está além das ilusões de maya de expansão e limitação.
Utilizando uma outra analogia: peguem uma pessoa que não sabe matemática – ela só saberá que é ignorante em matemática quando alguém lhe fizer questões sobre matemática e ela não conseguir responder. É neste ponto, quando a pessoa se dá conta de avidya, que ela está apta para alcançar moksha.
Então, Brahman é qual dessas não-existência? Nenhuma delas. Brahman não tem origem, nem destruição, o que impossibilita as duas primeiras. Brahman não é limitado em espaço e tempo, e portanto, isso descarta a terceira. Por último, Brahman está além de todos os objetos e imposto em todos eles, portanto, nada é distinto de Brahman, o que descarta a quarta.
Brahman é a única existência real, e se abhava não pode ser Brahman, portanto, abhava também não existe, como a individualidade.
O jivan-mukta, quando se separa do corpo, entra no estado em que o ser é totalmente separado do corpo, o que nos faz concluir que a ligação entre o corpo e o ser é totalmente contrária à natureza do ser. E abhava, tal qual a existência individual, se difere da verdeira existência que é Brahman, e portanto, o sujeito que é aniquilado (como no exemplo citado aqui, ou no aniquilacionismo de alguns padres gregos), se difere do jivan-mukta no que tange à realidade de sua não-existência. A expressão pode parecer absurda e fazer rir os ignorantes, mas para quem acompanhou o raciocínio desde o começo, a conclusão inevitável é essa: a aniquilação (pradhavamsa-abhava) é diferente da proclamação upanishádica “todo rio perde seu nome ao desaguar no oceano”, por lhe faltar uma coisa: a existência real.
Adi Shankaracharya explica em seu mais celebrado trabalho, Atma Bôdha, o que é real:
O mundo é repleto de apegos, aversões, etc., é como um sonho. Ele parece ser real, assim como o sonho parece ser falso quando se acorda.
Todo o mundo manifestado de coisas e seres é projetado pela imaginação pelo o que é o substrato do Eterno e Onipotente Vishnu, cuja natureza é a Inteligência-Existência; como diferentes ornamentos que são feitos do mesmo ouro.
E adiante, explica o que é ser realizado:
Eu sou outro além de corpo e portanto sou livre de mudanças como nascimento, envelhecimento, senilidade, morte, etc. Eu não tenho nada com os sentidos como som e gosto, pois sou sem órgãos.
Eu sou outro além da mente e além disso, sou livre de dor, apego, malícia e medo, pois “Ele é sem fôlego e mente, puro, etc.” é o mandamento das grandes escrituras, o s Upanishads.
Eu sou sem atributos e ações; Eterno (Nytia), sem qualquer desejo e pensamento (Nirvikalpa), sem qualquer sede (Niranjana), sem qualquer mudança (Nirvikara), sem forma (Nirakara), sempre-liberado (Nitya Mukta), sempre-puro (Nirmala).
Como o espaço preencho todas as coisas desde dentro e fora. Sem alterações e o mesmo em todos, sou puro, desapegado, imaculado e imóvel.
Eu sou como o Supremo Brâhman que é o único Eterno, Puro e Livre, Uno, indivisível e não-dual da natureza do Imutável-Conhecimento-Infinito.
Muitas escolas, do vaishnavismo ao budismo, buscaram refutar as exposições de Adi Shankaracharya. Dentro do hinduísmo, as mais conhecidas são as Vishishtadvaita e Dvaita. Segundo os estudos que fiz até hoje, a que chega mais perto de lograr algum êxito é a refutação de Ramanujacharya, principalmente a contida no Vedanta Sutra. No Vedanta Sutra, Ramanujacharya busca refutar diversas afirmações do advaita sobre ser e consciência, a não-existência de diferentes substâncias e outros propugnáculos do advaita.
Para Ramanuja, se há uma substância além de toda diferenciação e que é também o verdadeiro conhecimento, há então uma contradição capital: através do próprio testemunho do Ser sabemos que toda consciência implica diferença, pois todos os estados de consciência possuem coisas que são diferenciáveis no julgamento das próprias coisas. A percepção também ocupa um papel fundamental no argumento de Ramanuja, pois todo conhecimento ocorre através da distinção, entre o determinado e não-determinado, o julgamento “isto é isto, aquilo é aquilo”, é tido como o conhecimento de uma coisa pertencente a uma classe, o não-determinado como o conhecimento da primeira coisa que pertence à alguma classe, e o determinado que é o conhecimento das seguintes, portanto, todo conhecimento é obtido através de alguma distinção.
Para Ramanujacharya, o som (sabda) também denota diferença, pois a palavra (pada), a união de um radical e um sufixo, possui dois significados diferentes , portanto o próprio sentido da palavra é afetado pela diferança, como a sentença que conforme a combinação de palavras e significados denotam a falta de algo que não possui qualquer diferenciação.
Muito embora tal refutação pareça muito lógica, o advaita possui respostas muito satisfatórias a ela. Os Upanishads demonstram um Brahman sem distinção, sem qualidades, sem sentimentos, sem forma, auto-suficiente e não-dual (advayam).
a natureza de Paramatma que é manifestada na metne, indivisa, não-dual, testemunha de toda, distinta de toda causa e efeito, pura… – Taitirya Upanishad II,1
Sou distinto de todo sujeito, objeto e instrumento. Em todos os três estados – jagrat, swapna e sushupti – sou a testemunha que é a pura consciência e que é sempre auspiciosa. – Kayvalya Upanishad, XVIII
Vejo sem olhos, escuto sem ouvidos. Assumo várias formas, eu sei de tudo. Não há ninguém que Me conheça. Eu sou a eterna consciência pura. – Kayvalya Upanishad, XXI
Deixando os Upanishads um pouco, e partindo para o Bhagavatam, que é um dos principais livros dos vaishnavas, vemos também certas passagens que dão razão à interpretação de Adi Shankaracharya:
Tu é o Ser não-dual, a Pessoa primordial, auto-luminosa, infinita, a Causa Primordial, eterna, imperecível, a felicidade em si própria, pura, perfeita e sem seguidor, sem qualquer diferença (nirguna) e imortal. – Bh. X,14
Ao comentar um trecho do Gita (que tenho como o meu favorito), Adi Shankaracharya explica que o plural é utilizado para denotar a existência de vários corpos, e não a multiplicade do Ser.:
Nunca houve um tempo que todos estes monarcas, você, ou Eu não tenhamos existido, e nem deixaremos de existir no futuro.
na tv evāhaḿ jātu nāsaḿ
na tvaḿ neme janādhipāḥ
na caiva na bhaviṣyāmaḥ
sarve vayam ataḥ param
Comentário de Adi Shankaracharya:
Mas por que não devemos nos lamentar? Porque somos eternos? Como? Na tu eva, mas certamente isto não é um fato, que jatu, em qualquer tempo; aham, I; na asam; não tenhamos existido; pelo contrário, eu existo. A idéia é que quando os corpos nascem ou morrem no passado, Eu existo eternamente. Da mesma forma, na tvam, não que você não exista, você certamente existe. Ca, tammbém, na ime, estas coisas; jana-adhipah, reis; não existem. Por outro lado, eles existem. E similarmente, na eva, certamente; vayam, nós, sarve, tudo; na bhavisyamah, deixaremos, atah param, depois disso; mesmo após a destruição deste corpo. Pelo contrário, nós deveremos existir. Isso significa que nos três tempos (passado, presente e futuro) somos eternos na nossa natureza como Ser. O plura (nós) é usado para a diversidade de corpos, mas não no sentido da diversidade do ser.
O advaita pode responder essa objeção de Ramanuja da seguinte forma: suponhamos que vimos o Sr. X, com sua cara de psicopata hoje, pela primeira vez. Amanhã temos a infelicidade de encontrá-lo outra vez. Você pode duvidar de ter visto o mesmo Sr. X, caso tenha feito a sensata questão de esquecer sua face. Mas você não vai duvidar que foi você que viu o Sr. X ou outra tenebrosa personagem em seu lugar.
Como o seu “eu” não se alterou, é percebido então a verdadeira natureza do Ser imutável. Toda distinção nasce da ignorância, quando o verdadeiro conhecimento é obtido, a distinção some.
Então, a refutação do advaita para esta objeção pode ser resumida assim: o objeto não é a última realidade. A consciência sim. Então, temos os atributos do objeto na mente que estão sujeitos às coisas que dizem respeito aos estados mentais e análogos. A mente é a visão e o vidente, diz Shankara no Bala Bodhani.
Sri Sadananda, a consciência que está limitada à visão é a consciência ligada à coisa, que por sua vez também é limitada pela consciência ligada às formas de conhecimento, e que é limitada pela mente que é a consciência ligada ao sujeito. Ele explica:
“A percepção através dos sentidos envolve a percepção apenas dos atributos do objeto, já que Brahman não pode ser conhecido fora do conhecedor.”
É possível perceber que a refutação de Ramanuja exposta acima não é suficiente, pois o advaita consegue se sair muito bem através de sua explicação e do uso de uma passagem dos Upanishads:
Ushastta: Você está provando com algumas descrições indiretas de Brahman como a vaca que é isso e aquilo, ou o cavalo que é isso ou aquilo, etc. Explique-me porque Brahman é imediato e direto além dessas descrições indiretas. Explique-me Brahman, que é o ser dentro de todos.
Yagnavalkia: Você não testemunhar que é a testemunha do testemunho, você não pode ouvir o que é o ouvinte do som, você não pode pensar que é pensador do pensamento, você não pode saber que é conhecedor do conhecimento – que é você que está em tudo; e que tudo mais é perecível – com essa resposta, Ushastta não fez mais perguntas. Bṛhadāraṇyaka Brahadaranyaka Upanishad, III,4
Desta forma, o indivíduo ao aparecer como a limitação do Ser, como raio da consciência do ser e como o sonho imaginado (cf. Bala Bodhani), a idéia da individualização do ser torna-se um erro, e Maya faz justamente isso: esconde a natureza indivisível do eterno.
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Embora tenha sido um grande pensador, Marcel de Corte cometeu certas imprecisões. Uma delas em sua análise sobre o Islam [1], que vai de sua origem até a modernidade, uma análise que podemos, sem sobre de dúvidas, chamar de injusta e repleta de erros históricos. Logo no começo do artigo, De Corte comete um julgamento muito estranho para um pensador católico, pois sua condenação ao Islam pode muito bem recair sobre o Cristianismo, tanto Oriental como Ocidental:
“Para onde vai o Islã? Não parece errado afirmar que o Islã mesmo o ignora quase por completo. Esse grande corpo informe está despertando de uma longa letargia, as pálpebras fechadas, a mente entorpecida, os membros estirados e sacudidos aqui e acolá por sobressaltos involuntários. A história do Islã manifesta duma ponta à outra a estranha alternância entre torpor e exaltação.
A causa disso parece ser o atavismo nômade desse imenso agregado de povos: o Islã só se mexe e se agita quando encontra um condutor, um animador, um füher, um êmulo de Maomé. Sem a guarda do pastor com seus cães, o rebanho cai na anarquia e, pouco a pouco, na sonolência. O Islã é semelhante à limalha de ferro cuja força coesiva depende da ação do ímã.”
Dentro da interpretação patrística do livro do Apocalipse, encontramos uma corrente que predominou entre os padres, com as sete Igrejas da Ásia representando, cada uma delas, uma fase da Igreja do mundo inteiro, a Igreja Ecumênica (Universal). E essa análise parece muito sensata, pois se encaixa muito bem com uma análise histórica do que se passou com o Cristianismo. Apenas a título de exemplo, é muito interessante ver as semelhanças entre a Igreja de Pérgamo (cf. Rev. 2,12-16), com a época dos Concílios Ecumênicos. A Igreja de Pérgamo, mesmo assentada entre uma população corrupta, conseguiu através da espada (os Concílios) combater todas as heresias cristológicas que apareceram no Oriente (arianismo, nestorianismo, monofisitismo), e que depois esta Igreja floresceu entre os povos pagãos, passando para a fase da Igreja da Tiatira (cf. 2,18-20), e depois, por esta Igreja não ter feito o arrependimento exigido nas exortações às duas Igrejas anteriores, passou então para a fase da Igreja de Sardes. Veio, nesta Igreja, o castigo pela corrupção e fraqueza de seus bispos, que veio através da invasão dos islâmicos.
Ao analisar tal interpretação ao lado dos acontecimentos históricos, percebe-se que o Cristianismo também oscilou bastante entre “torpor e exaltação”: de uma religião restrita às catacumbas à Igreja oficial de um Império, de uma Igreja hábil e precisa ao condenar hereges à blasfema e covarde atuação de hierarcas e Imperadores cristãos diante da heresia iconoclasta, a corrupção moral do clero que talvez fosse muito maior que a atual. Além disso, ao afirmar que o Islam só se “mexe quando encontra um condutor… um führer”, de Corte esqueceu que tal problema também ocorreu no Ocidente cristão. Com a queda do Império Romano Ocidental, começou uma batalha incessante e impiedosa entre a autoridade espiritual e poder temporal, que teve um período de folga apenas na época de Carlos Magno, mas que depois continuou com ainda mais vigor. Quanto a isso, basta analisar as disputas entre Felipe o Belo e o Papa Bonifácio, o papado de Avinhão, e as controvérsias de papas que excomungaram reis e de reis que depuseram papas, e também os guelfos e gibelinos da Itália. Percebe-se através desta análise que a ausência de uma sinfonia de poderes (ainda que quase sempre corrupta) em torno de unificadas autoridades (o Patriarca de Constantinopla e o Imperador), fez com que o Cristianismo no Ocidente estivesse em constante busca para legitimar suas autoridades. O fenômeno destacado como exclusivo do Islam também aparece em todas as religiões antigas que oscilaram entre o aumento e queda de sua influência na sociedade. E parafraseando Reinaldo Azevedo, não falo de religião mais nova que meu whisky. Se De Corte fosse ateu, agnóstico, ou até mesmo um protestante republicano, tais críticas poderiam até possuir certa coerência, mas oriundas de justamente quem, não passam de puro cinismo.
“O Islã é instável e descomedido. É notável que a civilização islâmica, em Bagdá ou Espanha, tenha conhecido momentos de grande esplendor, quando o dom que a Grécia legou ao mundo chegou até ela. Poucas culturas alcançaram ao mesmo tempo aquela efervescência vital e sutileza espiritual.
Essa união durou pouco: o Islã precipitou-se num movimento pendular, que podemos observar com maior clareza nas pessoas de seus adeptos, sob a forma de brutalidade explosiva revezada com uma inesperada e requintada delicadeza, ou vice-versa. É como se o Islã sempre tivesse de balançar entre as qualidades e os defeitos da barbárie, e as qualidades e defeitos da decadência.”
Outra análise que, por vir de um católico, nos causa espanto. Ao acusar o Islam de instável e descomedido, por ter alcançado o esplendor de Bagdá ao brutal wahabismo. Nos causa espanto pois se tal análise for feita nos 2000 anos de Cristianismo, algo semelhante aparece: Pois o que oscilou mais que o Cristianismo? Não foi dentro de uma nação cristã que nasceram iluminismo, marxismo, positivismo e todas as desgraças do mundo moderno? O próprio liberalismo, heresia condenada pela Igreja Católica, nasceu como um simulacro de ideologia cristã.
Pois os Impérios Cristãos já não existem (a não ser que algum lorpa seja inocente o suficiente para considerar Inglaterra e Espanha como monarquias cristãs), e deram lugar a escabrosos sistemas que carregam em si todos os males da era de Kaly e das diversas profecias cristãs e islâmicas. Sistemas que já foram criticados pelo próprio De Corte, e ele não se deu conta que sua crítica ao Islam como gerador de barbárie e decadência cabe muito bem ao Cristianismo.
“Já é lugar comum dizer que no Islã a política é apenas um prolongamento da religião. O temporal e o espiritual não são dois domínios distintos. O primeiro não se subordina ao segundo, mas se confundem.”
No Islam, a ciência jurídica (jurisprudência) é tida como uma ciência religiosa. A jurisprudência é dividida em pessoa, penal e civil, e pelo menos a pessoal o muçulmano é obrigado a conhecer. Dentro do Islam, não há incoerência alguma, e isso não pode ser confundido com uma bazófia entre religião e poder temporal. O Islam já na época de Mohamed organizou uma sociedade, então, era natural que começasse desde aquela época a organizar sua política e lei conforme a religião. Ao contrário do Cristianismo, que em seu período primitivo não tinha qualquer pretensão de organizar uma sociedade secular, o Islam teve formulado em seu próprio livro sagrado códigos legais. Assim como os judeus da época de Moisés, seria impossível conduzir uma sociedade religiosa apenas com a jurisprudência pessoal.
O Cristianismo, quando obrigado a criar um sistema legal para ocupar o lugar de um Império decadente, também passou a legislar sobre o temporal, e embora houvesse o ideal da sinfonia entre os dois poderes, era do espiritual que emanava a legitimidade e fundamentos para o exercício da autoridade e coerção temporal.
“O Islã desconhece a natureza humana e suas implicações, logo desconhece também a idéia de pátria e, no interior desta, a idéia de diferenciação hierárquica entre homens de funções desiguais. Não existe “casta” ou “ordem”, no sentido Ancien Régime: no Islã, há igualdade absoluta entre os fiéis. O mulçumano sente-se em casa onde quer que haja Islã: seu passaporte é sua fé, viva ou aparente. O marroquino ou o tunisiano não é um estrangeiro no Egito.”
É de se espantar ver a acusação cristã a um caráter universal de uma religião. Talvez De Corte tenha esquecido que antes de ser Romano ou Bizantino, o Cristianismo também é universal. A autoridade Universal pode partir de uma Sé ou Concílio, mas esta autoridade de honra e para tomar decisões não confere um poder de superioridade a este ou aquele que habitam em tais locais. Pois se o marroquino se sentia bem no Egito, ele nada mais estava revivendo a época em que os cristãos do Oriente se sentiam em casa em qualquer lugar da Tsaringrad (cidade do Imperador). Um grego na Rússia era, antes de qualquer coisa, um cristão. As divisões entre os cristãos começaram justamente nos sentimentos nacionalistas: a adesão dos armênios ao monofisitismo foi nada mais que uma desculpa do nacionalismo armênio para se ver livre dos gregos, o ódio mútuo entre gregos e latinos foi o primeiro passo para o Grande Cisma, o nacionalismo do rei foi apenas uma desculpa para a grande salada feita para criar a Igreja Anglicana e assim por diante. O patriotismo, que é louvável, não pode ser confundido com o nacionalismo. Ao abandonar o critério da fé para reconhecer outro semelhante, e adotar o territorial, é cair em nacionalismo. Pois a união espiritual é muito mais importante que a nacional. Este “passaporte” que os islâmicos possuem, e que De Corte critica, nada mais é que uma característica ainda mais acentuada entre os cristãos, e que se a esquecemos atualmente, para dar lugar a ideais nacionalistas (que nasceram na Idade Moderna), isso deve ser motivo de vergonha, e nunca de orgulho.
“Além disso, esses dois sistemas constituíam um tampão contra o imperialismo russo. Hoje estamos pagando o preço dessa política cega, em que saíram ganhando o “idealismo” laico e as sórdidas preocupações econômicas. Tomara não nos seja o preço muito alto, já que, citando novamente Rivarol, a pior desgraça é a de merecer suas desgraças!
Em todo caso, é certo dizer, os nacionalismos árabes não possuem raízes nas tradições islâmicas, e evoluirão fatalmente em direção ao internacionalismo e ao pan-islamismo. A Rússia, sempre atenta, lhe dedicará mais e mais cuidados na proporção direta dos erros habituais da diplomacia dita atlântica. O único trunfo nas mãos do Ocidente é a debilidade do sentido de Estado em terras islâmicas. Hoje em dia, contudo, constroem-se Estados artificiais por meio da força. O Estado Ocidental, por seu turno, degenerou em Estado Providência, que vampiriza sua energia e suas reações vitais de defesa.”
Pois aqui vemos um De Corte criticando o idealismo laico. Talvez porque ele desejasse uma legislação católica, uma união entre espiritual e temporal, que ele criticou no Islam. Claro, sharia boa, só a minha.
O que ele considerava uma debilidade dos islâmicos, é hoje o grande triunfo. Vemos que a Síria apoiou insurgentes iraquianos, e também é conhecido por todos as relações muito próximas entre Síria e Irã. Enquanto os ocidentais ficam discutindo legitimidade das guerras, e fazendo votações e Assembléias, no Oriente até inimigos vão se unindo e preparando alianças. É óbvio que em um conflito entre o que luta por um Estado e o que luta por uma religião, o segundo sairá com grande vantagem. Enquanto um luta por limites territoriais, sem qualquer pretensão metafísica, pode muito bem se acovardar e dar no pé, o que luta com fé convicta na vida eterna e de prazeres celestiais dificilmente deixará de dar a vida por sua causa.
Marcel de Corte, ao tentar fazer uma análise do Islam, caiu em um erro comum até hoje: é absurdo buscar qualquer crítica ao Islam com base em seus fenômenos sociológicos. Toda religião que organizou sociedades acabou passando por ciclos que alternaram entre ápice e decadência, fervor e frieza; contudo, parece que De Corte ignorou qualquer análise deste tipo sobre o Islam, preferindo apenas as acusações demagogas, as confusões baratas e as conclusões precipitadas.
[1] “La libre Belgique”, 28 de dezembro de 1956. Tradução: Permanência, retirado do blog Reconquista.
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Durante meu encontro com Nikkon, perguntei sobre as outras coisas que ele pensava da Europa:
“O senhor viveu na Europa”, perguntei “O que o senhor pensa disso? Qual é a sua opinião sobre a civilização Ocidental?”
“Civilização!”, ele exclamou “A civilização Ocidental é um ersatz!”
Ele enfatizou a palavra “ersatz”. Esta palavra é de origem germânica. Significa substituto, enganador, falso. Após uma pausa, Nikkon continuou.
“Tudo que está nela: as artes, ciências, filosofias, religiões, é ersatz!
“O senhor acredita realmente que não há nada autêntico, bom, nos países da Europa Ocidental?”
“Nada”, ele respondeu, “Tudo é falso, vazio. A única exceção é a Ortodoxia. Mas até ela é dificilmente encontrada em sua forma genuína, original.”
Após ouvir que eu era Cristão Ortodoxo, o ancião fez uma observação:
“Você deve considerar-se um afortunado. Pois não há nada mais precioso neste mundo que o Cristianismo Ortodoxo. Mesmo com a dificuldade de encontrá-lo em sua forma mais pura, ordene tudo em sua vida de acordo com ele” [1]
No Ocidente moderno, é comum a disputa entre barbárie x civilização, bem x mal, progresso x atraso e assim por diante. Gurdjieff, inteligentíssimo esoterista do século XX, foi preciso ao identificar essa angústia de um amontoado de gente que já perdeu qualquer resquício daquilo que é entendido como civilização tradicional, angústia nascida pela falta de uma cosmo visão tradicional, que criou aquilo que Evola chamava de “mundo de agitados”, e a saga em busca de “progresso”, “conservação” ou até mesmo “regresso” [2], sem se dar conta que, neste mundo de agitados, todos correm para o mesmo abismo, embora por caminhos distintos.
As críticas de tradicionalistas, não só os da escola perenialista, como também de religiosos de vida contemplativa ou de sábios que tiveram algum contato ou pertenceram a uma civilização tradicional, sempre levam ao mesmo ponto: todas as correntes e ideologias ocidentais que concorreram entre si não passam de faces da mesma degeneração. O staretz Nikkon, citado acima, era um monge do Monte Athos praticante do hesicasmo, a contemplação e oração silenciosa, quando jovem viajara por toda a Europa ocidental, e teve a oportunidade de conhecer o modo de vida e pensamento europeu. Sua decepção foi grande, e não por menos: àquele acostumado à vida da antiga Grécia [3], por exemplo, a vida do europeu, quer do acadêmico quer do simples trabalhador, é muito agitada, inconstante e repleta de incertezas.
Russel Means, líder sioux e ativista dos direitos dos nativos norte-americanos, também notou esta tragédia do homem europeu, e foi ainda mais adiante em sua análise do capitalismo, comunismo, hegelianismo, cientificismo e alhures. Neste discurso, nota-se os laços entre a Tradição dos nativos norte-americanos e outras Tradições, como o Cristianismo. Como por exemplo, a crítica ao excesso de valor dado à palavra escrita, que para São João Crisóstomo nos mostrava o quão degradados somos [4], a crítica da transformação da natureza em propriedade privada [5], e neste ponto tanto marxismo como capitalismo são semelhantes, pois ambos desafiam a ordem natural das coisas.
Obviamente, tal raciocínio é capaz de levantar diversas questões e críticas, do tipo: como explicar o aumento da qualidade de vida, o avanço tecnológico e farmacêutico que permite o prolongamento da expectativa de vida, ou ainda as intermináveis guerras travadas entre nativos de todo o mundo. Mas tudo isso, se analisado e comparado friamente, nos mostra os problemas existentes entre os nativos não foram solucionados pelos bons civilizados, como também, aumentaram.
Em primeiro lugar, não só podemos como devemos questionar o conceito de qualidade de vida do homem ocidental, principalmente do primeiro mundo. Muito daquilo que lhe faz se orgulhar, como o conforto da nossa civilização contra a vida na natureza e todos seus perigos, não passa de um problema maior ainda. Os tradicionalistas acusam o homem moderno de perder a capacidade de contemplação, e isso pode muito bem deixar de ser uma acusação para se tornar uma constatação: qual homem ocidental é capaz de práticas contemplativas como o hesicasmo, meditação ou a adoração silenciosa dos nativos norte-americanos? Todo este conforto, construído no desvio da ordem natural das coisas, custou primeiro a capacidade de contemplação, e hoje custa a sanidade. O homem sente cada vez mais necessidade de trabalhar mais para obter mais conforto, e os avanços tecnológicos que aumentam seu conforto também fazem com que ele trabalhe cada vez mais. Distúrbios como DDA e doenças como depressão aumentam anualmente, e o crítico do uso de “drogas” feito pelos nativos não se dá conta que o homem moderno é cada vez mais dependente de remédios contra depressão, distúrbios de atenção e transtornos de personalidade. Ele não consegue ver qualquer relação entre estes problemas e o fato do homem moderno não viver mais em uma civilização de fato, mas sim num amontoado de indecisos, agitados que já perderam qualquer noção real sobre humanidade, transcendência e realidade.
Já os índios, citando J.P. McEvoy, “talvez não seja o progresso… mas que importa?”. Em países cristãos que ficaram livres do Imperialismo de Carlos Magno, como também do legalismo dos escolásticos e posteriormente de uma das maiores tragédias da humanidade, a Reforma Protestante, nota-se uma visão diferente sobre a religião, bem como o impacto da vida religiosa dessa população. O fervor dos russos anteriores às deformas de Pedro o Grande causavam espanto até aos emissários de Patriarcados ortodoxos como da Antioquia, já influenciado negativamente pelo Ocidente devido ao seu intercâmbio educacional com Roma devido ao domínio turco [6]. Já nos vilarejos gregos sob ocupação turca, onde os pais não tinham condições financeiras para enviar seus filhos para estudar no Ocidente, a vida era tranqüila e religiosa, semelhante à Rússia antes de Pedro, pois o domínio turco não era capaz de afetar o andamento da vida das pessoas que tinham um foco verdadeiro na vida. O que causava mais espanto era a concentração das crianças nos longos ofícios divinos, que em pé rezavam ao lado dos adultos, por horas, sem qualquer reclamação ou agitação. Algo semelhante às crianças dos nativos, que escutam por horas os ensinamentos orais de seu povo, como nota o professor Luiz Pontual, que coroa sua explicação com uma belíssima foto:
“É muito ilustrativo a este respeito o fato das crianças índias serem extremamente calmas e mesmo concentradas. São capazes, como pudemos testemunhar em mais de uma ocasião, de permanecerem durante duas ou mais horas em perfeita tranqüilidade , enquanto adultos conversam ou desempenham tarefas. Pode-se talvez compreender um pouco tal traço inusitado para os modernos se repararmos que um índio, assim como um camponês medieval, acompanha os vários momentos que constituem, por exemplo, o ciclo da alimentação. Ajudam ou vêem os pais desde o preparo da terra, passando pela semeadura, o brotar e o desenvolvimento das plantas , até sua colheita e preparo final para alimentação. É algo um tanto diferente, por exemplo, de um insuportável garoto super-ativo detonando um pacote de cornflakes…ou um hot-dog !”

Portanto, os ortodoxos mais sensatos como o Conde Lucas Notaris preferiam o turbante do sultão que a tiara do papa, já que enquanto o domínio turco custava apenas algumas vidas vez ou outra e um pouco de dinheiro, a aproximação ao degradado Ocidente custava a alma e o próprio modo de vida oriental. Os turcos não eram capazes de alterar a vida tranqüila e religiosa dos habitantes da Anatólia e da Trácia, mas a influência ocidental conseguiu lançar a Rússia nas maiores trevas de sua história, e logo em seguida jogou a Grécia sob jugo de Venizelos à guerra e decadência espiritual, em busca do tal progresso. É compreensível tanta angústia e desespero do Ocidental: ele pensa que está sempre atrasado, mas não sabe em qual local deve chegar.
Por isso o staretz alerta sobre onde encontrar a verdadeira Ortodoxia: a vida ortodoxa não envolve apenas a fé, ou a fé e um corpo de códigos morais a ser seguido, mas também toda uma visão de mundo [7], e que não pode existir entre a degradação da modernidade. Hoje em dia, lamentamos muito quando vemos fiéis exigindo a liturgia em vernáculo, padres desmerecendo o essencial da tradição como a batina ou a barba e cabelos longos, pois se trata de quem está muito próximo do ideal, pois bastaria olhar para algumas décadas atrás e perceber o quanto isso é importante e estava vivo, fazia parte de nosso cotidiano; enquanto os ocidentais já não têm a mesma sorte, pois passam por um processo de decadência gradual e longo, e possuem idéias muito vagas e imprecisas sobre tradição, pois a vida sob princípios tradicionais é algo que está muito distante, como uma abstração ou histórias de passado muito distante.
Por estas razões, não consigo me alinhar ou até mesmo ter como “mal menor” correntes como o conservadorismo, que embora aparentemente menos maléfica que o comunismo, faz parte do mesmo processo de degradação, e não é menos pretensioso, pois também se coloca como o dique que impede a invasão da barbárie, quando também é um filho desse mito do bom civilizado, aquele Homem Universal repleto de autocrítica, dúvidas, problemas e soluções, sempre colocando as mãos imundas e cheias de sangue naquilo que já estava ordenado.
[1] Messages From The Holy Mountain, Dr. Constantine Cavarnos, Cap. 6, pgs. 31,32.
[2] http://lasciateognisperanza.wordpress.com/2008/04/26/revolucao-e-contra-revolucao/
[3] Em The Elder Ieronymos of Aegina, de Pedro Botsis (Monastério da Santa Transfiguração, Massaschusetts, 2007), o autor nos conta o espanto de São Jerônimo ao chegar em Atenas, depois da troca de população entre Grécia e Turquia devido às insanidades de Venizelos. O santo, ao desembarcar em Atenas, chorou ao ver a falta de piedade religiosa e o pouco caso com a vida espiritual da população que não vivia sob domínio turco há muito tempo, e lembrava como a vida em sua antiga vila da cidade de Iconium (hoje Konya), na Anatólia, era muito mais piedosa. Para se ter uma idéia, na pequena vila onde o staretz foi criado, não só os monges como também boa parte da população tinha o costume de praticar a oração com lágrimas nos olhos, algumas vezes encharcando o chão das pequenas e lotadas igrejas de fiéis que clamavam por perdão e choravam durante os ofícios divinos.
[4] cf. I Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, São João Crisóstomo
[5] cf. Homilias sobre os Salmos, São Basílio Magno; Sétima Homilia sobre o Hexameron, São Basílio Magno; Sobre o Eclesiastes, São Gregório de Nissa. Uma das mais impressionantes é esta homilia de São João Crisóstomo sobre a I Epístola a Timóteo:
“São belas as roupas de seda? Na realidade, são tecidos produzidos por vermes. Sua beleza é convenção e preconceito humano, não coisa natural. Se você olhar uma moeda de bronze recoberta por uma camada de ouro, logo admira e diz que a moeda é de ouro. Somente os especialistas na matéria lhe mostram o engano e, com o desengano, vai-se a admiração. Vê como a beleza não está na natureza? O mesmo acontece com a prata. Caso vir um pedaço de estanho, você o admira como prata, assim como admirava o bronze por ouro. É preciso que haja pessoas que nos ensinem o que deve ser admirado. não bastam os olhos para discernir. Isto não acontece com as flores, que são mais belas que ouro e prata. Se vir uma rosa, não precisa que lhe digam que aquilo é uma rosa. Você é capaz de distinguir por si próprio entre uma anêmona e uma violeta. O mesmo ocorre com os lírios e as demais flores. Logo, todo o ouro é uma simples questão de preconceito. E, para que fique demonstrado que toda essa funesta paixão é uma simples questão de preconceito, basta que me responda: se o imperador decretasse que a prata vale mais que o ouro, não se transformaria seu amor e sua admiração? Veja a que ponto somos dominados em tudo pela avareza e pela opinião. Que isto seja assim e que as coisas sejam estimadas por sua raridade, não por seu valor natural, prova-o o fato de existirem entre nós frutos desprezados, que são estimados na Capadócia, assim como há outros que nós estimamos e que têm ainda maior valor na terra dos seres donde vêm os famosos tecidos de seda. O mesmo fenômeno se dá na Arábia, terra de perfumes e na Índia, mãe das pedras preciosas. Em conclusão, tudo é preconceito, tudo é convenção humana. Nada fazemos judiciosamente, mas tudo ao acaso.”
[6] cf. The Orthodox Church, Timoty Ware, Part. 1, Moscow and Petersburg, 1º Ed., 1968; The Travels of Macarius, Patriarch of Antioch; London, The Oriental Translation Fund, 1836, Book VII.
[7]http://tradortodoxas.blogspot.com/2008/01/o-deserto-no-quintal.html
Posted by Rafael in filosofia, hinduísmo, metafísica.
O ponto chave dos erros de Guénon – que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado, nem mesmo seus concorrentes da escola schuoniana – é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das ‘possibilidades de não-manifestação’. Esclarecida e derrubada essa doutrina intrinsecamente absurda, manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo, bem como sua via de conciliação. Explico isto mais extensamente em meu Diário Filósofico. – Olavo de Carvalho, nota de rodapé em “O Jardim das Aflições”
Primeiramente, porque Olavo considera absurda a doutrina do Não-Ser e das possibilidades de não-manifestação? Isso pode ser explicado através de outra explicação de Olavo:
E Deus? Se imaginarmos um Deus transcendente ao universo, um Deus que não fosse o próprio Universo, mas que estivesse fora dele, estaria Ele fora necessariamente e sempre, ou seria um aspecto transcendente do próprio Universo? Ora, é claro que Ele é um aspecto do Universo que não pode se reduzir a nenhuma de suas partes e que é de certa forma transcendente a si mesmo, porque inclui toda a possibilidade ainda não realizada no universo físico. Essa possibilidade existe, e ela tem de se autoconhecer. Imagine se assim não fosse: a possibilidade transcendente que desconhece a si mesma e que só nós, seres humanos, conhecemos…Logo, é claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente a tudo. – Olavo de Carvalho
Ora, as possibilidades de manifestação e as impossibilidades de manifestação, juntas, compõem o domínio propriamente dito do Ser, nada sobrando para além dele senão um conceito vazio. Na verdade a expressão Não-Ser só vale como figura de linguagem, para designar os aspectos superiores e mais sublimes do Ser mesmo, seu lado misterioso e eternamente desconhecido, ou imanifestado, portanto qualidades do Ser e não uma outra entidade substancialmente distinta. Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito. - Olavo de Carvalho, Diário Filosófico
Quando se usa a expressão ‘ser supremo’, se altera totalmente aquilo que Deus é: origem de todos os seres. Por que existe o ser e não antes o nada? Se se coloca essa pergunta, existe um ser, um nada, e uma causa. Essa causa não é nem um ser, nem o nada. Isso jamais foi contestado. A existência de Deus é inerente à própria existência. O poder que gera a existência não é uma primeira causa que está atrás de uma série de causas. Ele é inerente à existência mesma. A primeira causa já seria um ser, já seria uma existência. Se você enxerga Deus como a possibilidade da existência, não se pode usar a palavra ‘ser’ para Deus. Todo religioso tem de saber disso. A pessoa que não é capaz de raciocinar em termos da totalidade da existência, evidentemente não pode entender do que estão falando, aí ela inventa uma coisa chamada ‘ser supremo’, um ‘serzão’, que não é a definição de Deus. Isso virou um ser que cria outros seres. Mas então, quem criou o primeiro ser? Deus é a possibilidade universal, a onipotência. Se você o define como ‘ser’ e tem de provar a existência ou inexistência do mesmo, você está num mato sem cachorro. Seriamente falando, não se discute a existência de Deus. A existência está sempre presente. Conceber a possibilidade hipotética da inexistência de tudo é a condição de perceber o poder da existência, a presença da existência. E perceber essa existência é perceber Deus. Os ateus não acreditam num ‘ser supremo’, mas acreditam na existência. Sendo assim, eles não são ateus. A discussão entre ciência e religião é muito primária, é uma vergonha. A onipotência, a presença da experiência está aí, mas você não pode obrigar uma pessoa a olhar para lá, não se pode provar nada.
- Olavo de Carvalho
Para resumir a doutrina do Não-Ser, antes de começar a defender o ponto de Guénon criticado por Olavo, podemos dizer da seguinte forma: o Não-Ser é todo atributo divino que jamais se manifestará, como a unicidade. A afirmação que Deus não é pode parecer absoluta a princípio, mas, quando esclarecemos o que Guénon entendia como o Não-Ser, bem como buscamos nas fontes da Tradição, a base das pesquisas de Guénon, notamos que Guénon não estava distante do Cristianismo nem da Tradição no que diz respeito a essa doutrina.
…Para designar o que está assim fora e além do Ser, estamos obrigados, na falta de outro termo, a chamá-lo Não-Ser; e esta expressão negativa, que, para nós, não é, em nenhum grau, sinônimo de «nada» como parece sê-lo na linguagem de alguns filósofos, além de estar diretamente inspirada pela terminologia da doutrina metafísica extremo-oriental, está suficientemente justificada pela necessidade de empregar uma denominação qualquer para poder falar disso, junto à precisão, feita já mais atrás, de que as idéias mais universais, sendo as mais indetermináveis, não podem expressar-se, na medida em que são expressáveis, senão por termos que são, com efeito, de forma negativa, assim como vimos no que concerne ao Infinito… – René Guénon, Estados Múltiplos do Ser – Cap. III
Que diversos padres cristãos escolheram a via apofática para tratar de Deus não é segredo a ninguém.
…Não tem corpo, nem figura, nem qualidade, nem quantidade, nem peso. Não está em nenhum lugar. Nem a vista nem o tato o percebem. Não sente nem a alcançam os sentidos. Não sofre de desordem nem perturbação procedente de paixões terrenas. Que os acontecimentos sensíveis não a escravizam nem a reduzem à impotência. Não necessita de luz. Não experimenta mudança, nem corrupção, nem decaimento. Não se lhe acrescentar ser, nem ter, nem coisa alguma que caia sob o domínio dos sentidos… -Dionísio Areopagita. Teologia Mística, Cap.1
E no budismo:
…Desta maneira, Shariputra, na vacuidade não há forma, não há emoção, não há percepção, não há manifestação, não há consciência; não há olho, não há ouvido, não há nariz, não há língua, não há corpo, não há mente; não há aparência, não há audição, não há olfato, não há paladar, não há tato, não há darmas, não há datu da visão, e assim por diante até chegarmos a: não há datu da mente, não há datu de darmas, não há datu da consciência da mente; não há ignorância, não há extinção da ignorância, e assim por diante até chegarmos a : não há velhice e morte, não há fim para a velhice e a morte; não há sofrimento, não há origem para o sofrimento, não há cessação do sofrimento, não há caminho, não há sabedoria, não há realização,e não há não-realização… - Sutra do Prajnaparamita
O que Olavo quis dizer com “… Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito…” ? Aqui, precisamos fazer uma ressalva importante: a idéia de dois Brahmans, apara Brahman e para Brahman, um manifestado e condicionado por Maya (apara Brahman), outro o ser transcendental e livre de toda dualidade (para Brahman), não é uma idéia criada por Guénon, mas sim presente no hinduísmo. Costuma-se dizer que ao tentar qualificar para Brahman com qualquer atributo, ainda que infinitos, já não está mais se tratando de para Brahman, mas sim de apara Brahman. Outra vez, temos o que pode parecer um absurdo ou uma contradição gritante, e de fato, aos mais acostumados ao aristotelismo, essas exposições do hinduísmo soam absurdas. No entanto, faz-se mister relembrar que Guénon era um expositor da doutrina Tradicional, e seu fundamento era a Tradição, que lhe dá boa razão, vejamos alguns exemplos:
O que não pode ser visto chamamos invisível
O que não pode ser escutado, inaudível
Quando tocamos e não sentimos, dizemos que é impalpável.
Esses três objetos não podem ser sondados
desta forma, confundem-se e são considerados como uno..
…Sua origem está lá onde não existe qualquer ser.
Sua forma é sem forma, sua figura sem figura.
Ele é o indeterminado… - Tao Te King, 14
Com relação a Ele não há antes, nem depois; nem alto nem baixo; nem perto, nem longe, nem como, nem o que, nem onde, nem estado, nem sucessão de instantes, nem tempo, nem espaço, nem ser. Ele é tal como é. Ele é o Único sem necessidade da Unidade. Ele é o singular sem necessidade da Singularidade. – Ibn Arabi, Tratado da Unidade
Prosseguindo, portanto, em nossa ascensão, afirmamos que [a Causa] não é alma, nem inteligência, não possui imaginação, nem opinião, nem palavra, nem pensamento, não é palavra ou pensamento; não é objeto de discurso, nem de pensamento; não é número nem ordem, nem grandeza, nem pequeneza, nem igualdade, nem desigualdade, nem semelhança, nem dessemelhança; não está parada nem se move, não repousa, não possui uma força, nem é uma força; não é luz, não vive e não é vida; não é essência, nem eternidade, nem tempo; não admite sequer um contato inteligível; não é ciência, nem verdade, nem reino, nem sabedoria; não é uno, nem unidade, nem divindade, nem bondade, não é tampouco espírito, segundo sabemos; não é filiação, nem paternidade, nem quaisquer das coisas que podem ser conhecidas por nós ou por qualquer outro ser; não é nenhum dos não-seres e nenhum dos seres, nem mesmo os seres conhecem-Na enquanto existe; [a Causa] tampouco conhece os seres enquanto seres. Não é razão, nome ou conhecimento, não é treva, nem luz; erro ou verdade; não se Lhe aplicam afirmações ou negações: quando negamos ou afirmamos os seres que Lhe são posteriores, não A afirmamos, nem A negamos. A Causa perfeita e unitária de todas as coisas está acima de toda afirmação, e a excelência dAquele, que está absolutamente separado de tudo que supera toda negação. - Teologia Mística, São Dionísio o Aeropagita, Tradução de Marco Lucchesi, Editora Fissus, 2005, Rio de Janeiro.
A exposição de Guénon está completamente de acordo com o Advaita Vedanta. Swami Krishnananda explica que o universo é a negação de Brahman, um Brahman distorcido. Shankara ensina que o mundo aparece como real assim como uma corda é confundida com uma cobra. Enquanto a ilusão se faz presente, aquele cordão é para o vidente uma cobra real, mas quando a ilusão se esvai, a cobra deixa de ser real. O mesmo se passa com o mundo manifestado. Dois poderes de Maya, o da extensão e limitação, trazem a existência do mundo. O da extensão ao criar uma existência isolada, que atribui o testemunho do ser, a divisão entre vidente e a visão, e a limitação ao dividir o eterno do mundo, que é a causa do samsara.
No plano samsárico, e portanto segundo a interpretação temporal, um homem ignorante é aquele descrito como o sujeito que, após nascer, não consegue compreender que a lei do mundo é dukkha, que não pode ver sua origem, nem se libertar disso ou seguir pelo caminho que a liberação é obtida: a ignorância é desta forma a ignorância das quatro verdades de ariyan. Ao ser determinado por asava, pela intoxicação ou mania, essa ignorância particular estabelece um estado samsárico de existência e determina o substratum (upadhi) que lhe protege. – Julius Evola, A Doutrina do Despertar
No planos de existência mundana (vyavaharika satta) e ilusória (paramartikha satta), ocorre esse jogo entre extensão e limitação, lilla, o jogo divino. Ora, se Maya é o upadhi (substrato) de Iswara, então Iswara é a aparição pessoal de Brahman. Como Guénon considerava o Advaita a exposição Metafísica mais precisa, é de se entender a importância de sua distinção entre o Ser e o Não-Ser. Destarte, não se pode acusar Guénon de possuir uma teoria intrinsecamente absurda sem utilizar o mesmo rigor que Ramanuja utilizou ao tentar refutar o Advaita e lançar as bases para o seu Advaita qualificado, o Vishistadvaita. Até porque, mesmo o ramo heterodoxo do Advaita, o neoadvaita, consegue boas refutações às objeções de Ramanuja, portanto, não parece que Guénon adotou uma linha absurda ou heterodoxa do hinduísmo. A idéia de um princípio manifestado e outro imanifestado superior não é estranha ao hinduísmo.
O problema pode aparecer, de fato, ao tentar familiarizar esta doutrina com o Cristianismo; no entanto, este tema merece um estudo rigoroso e detalhado para si, pois enquanto até algumas passagens de Santo Agostinho parecem um obscuro encontro com o Advaita, e outras de São Dionísio, São Gregório Nazianzeno, Mestre Eckhart e outros místicos cristãos parecem estar de pleno acordo, outras idéias como a deificação e distinção entre essência e energia da Teologia Ortodoxa demonstram uma completa negação ao Advaita. Para finalizar, um trecho de “O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta”, de René Guénon, que ilustra muito bem o que foi tratado aqui.
Lembraremos que tudo o que concerne a este estado incondicionado de Atmâ é expresso sob uma forma negativa; isto é fácil de compreender, pois, na linguagem, toda afirmação direta é forçosamente uma afirmação particular e determinada, a afirmação de algo que exclui outra coisa, e que assim limita aquilo que podemos afirmar . Toda determinação é uma limitação, portanto uma negação; por conseguinte, é a negação de uma determinação que é uma verdadeira afirmação, e os termos de aparência negativa que encontramos aqui são, em seu sentido real, eminentemente afirmativos.
De resto, o termo “Infinito”, cuja forma é semelhante, exprime a negação de todo limite, de sorte que ele equivale à afirmação total e absoluta, que compreende ou abarca todas as afirmações particulares, mas que não é nenhuma delas com a exclusão das demais, precisamente porque ela implica a todas igualmente e “não-distintivamente”; e é assim que a Possibilidade Universal compreende absolutamente todas as possibilidades. Tudo o que pode exprimir-se em forma afirmativa está necessariamente encerrado no domínio do Ser, pois este é em si a primeira afirmação ou a primeira determinação, aquela da qual procedem todas as outras, assim como a unidade é o primeiro dos números e o número do qual todos derivam; mas, aqui, estamos na “não-dualidade”, e não mais na unidade, ou, em outros termos, estamos além do Ser, pelo fato mesmo de estarmos além de toda determinação, ainda que principial.
René Guénon, O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta, Cap.XV