Os ocidentais, quando se aproximam da filosofia oriental, chegam sem antes de fazer um exame rigoroso de mentalidade, pois imaginam que as controvérsias da filosofia oriental (principalmente a hindu) são de ordem semelhante às disputas filosóficas e metafísicas ocorridas no Ocidente.
Por isso notamos que até estudiosos e eruditos do quilate de um Pe. Leonel Franca cai em erros primários ao tratar da filosofia hindu [1], pois imaginam que é possível reduzir essas questões na dialética ou até mesmo na erudição. Orientalistas muito mais eruditos que Guénon em diversas áreas, como Max Muller, por exemplo, não compreenderam diversos aspectos fundamentais da doutrina hindu, e serviram como próceres de diversos movimentos modernos que deturpam a doutrina em diversos momentos sentimentalóides, panteístas e reencarnacionistas.
Quando chegamos a tratar desta questão, as dúvidas e problemas oferecidos à nossa mentalidade aumentam ainda mais, já que este assunto causou e ainda causa controvérsia mesmo entre os orientais, com a diferença que entre eles há uma certa noção do que está em disputa.
Em primeiro lugar, os partidários do tomismo ou de outras correntes filosóficas cristãs, acreditam absurdamente que a extinção da dualidade é uma espécie de aniquilação. Isso porque, para eles, existência quer dizer necessariamente individualidade, e então já fazem suas apressadas conclusões: “isso [o não-dualismo] é uma doutrina niilista, atéia”, “é aniquilacionismo” e assim por diante. Ora, isso demonstra duas coisas: ignorância, pois o sujeito não tem noção do que o não-dualismo toma como existência, ou personalismo histérico, com base num dualismo construído a um apego à padraiada cristã e principalmente a escolástica, já que não podemos incluir todos os santos nesta interpretação pois São Dionísio e Mestre Eckhart fogem um pouco dessa regra.
Lutero, a besta beberrona e fideísta, duvidava da santidade de São Dionísio, que para ele era mais “neoplatonista que cristão”.[2] Como, infelizmente, nosso atual Ocidente lembra mais de javalis selvagens como Lutero que de santos como Mestre Eckhart, é natural que à primeira vista cause um certo espanto as doutrinas não-dualistas orientais.
Os caminhos apresentados pela filosofia hindu, o caminho da gnose (jnana-marga), o caminho da dedicação (bhakti-marga), não são caminhos opostos, mas sim diferentes. Normalmente, a mentalidade ocidental toma o bhakti-marga como o oposto do jnana-marga, o que é falso, pois o que os defensores das duas escolas, em todos os debates públicos feitos até hoje, buscaram apenas identificar o seu caminho como o summum bonum, aquele que realmente liberta de todo sofrimento e ilusão. Enquanto o bhakta afirma que a experiência do jnani, embora existente, é uma ilusão diante da verdadeira satisfação que é serviço devocional à Personalidade Suprema, enquanto o jnani afirma que o estado do bhakta, embora existente, é ilusório, pois está preso dentro da individualidade que é a separação de Brahman.
No entanto, para nós é mais fácil entender o bhakti-marga que o jnana-marga, pois a maioria de nós foi criado com aquela idéia de um céu de anjos sentados nos nuvens, tocando harpa, com os salvos contemplando a divindade.
Como eu já disse acima, há muita incompreensão aqui no Ocidente em relação ao não-dualismo, principalmente devido a cousas como a injusta excomunhão de Mestre Eckhart, a visão dominante do neoplatonismo como gnóstico e essencialmente anticristão. Com isso, padres como Santo Evrágio, São Máximo o Confessor e São Dionísio são jogados para baixo do tapete, e qualquer estulto armado de um manual tomista pode zurrar seus anátemas e condenações numa questão que não é para o seu bico.
Os complexos Upanishads, em seus vários koans e passagens obscuras, lançaram cousas que são discutidas e interpretadas até hoje, como esta do Brhdaranayak Upanishad:
“Quando o sol se apagar… a lua se apagar… o fogo desaparecer… o discurso calar, qual luz a pessoa terá?”
A questão de como algo corruptível e sujeito à morte e devir pode “tornar-se partícipe da natureza divina” ou “voltar a Brahman” foi respondida corretamente por Mestre Eckhart, com sua doutrina do “esvaziamento do ser”, que consiste no esvaziamento do indivíduo para que o vazio seja completado por Deus, até que este vazio se torne completo para que Deus preencha a tudo.
Moksha é o fim da intelecção, que é diferente da destruição do intelecto, já que onde não há mais distinção entre visão e vidente, cessa também a intelecção. Aos que acham isso muito distante do Cristianismo, trazemos uma citação de São Dionísio:
“É então somente que, ultrapassando o mundo em que se é visto e onde se vê, Moisés penetra na Treva verdadeiramente mística do não-cognoscível; é aí que faz calar todo saber positivo, que escapa inteiramente a toda compreensão e toda visão, porque ele pertence inteiramente Àquele que está além de tudo, porque ele não pertence mais a si mesmo nem pertence a nada de estranho, unido pelo melhor de si mesmo Àquele que escapa a todo conhecimento, após ter renunciado a todo saber positivo e, graças a este próprio não-conhecimento, conhecendo para além de toda inteligência.” Obra Completa, Pseudo-Dioníso o Areopagita (sic), Paulos, 2004, Pg. 132
Mestre Eckhart segue de forma semelhante: “O que o novato teme é o gozo do sábio; o reino de Deus não é para ninguém exceto os totalmente mortos.” (I, 419).
Pois essas palavras não parecem muito semelhantes ao que Krishna diz a Arjuna no Gita? “Aquele que abandona todos os desejos materiais torna-se livre da saudade dos sentimentos de ‘eu’ e meu’, alcançando a paz.” (BG 2,71, grifos meus)
No livro do Apocalipse, São João relata uma cidade que “não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina” (Apocalipse 21,23); semelhante ao Mundaka Upanishad “Lá o sol não brilha, nem a lua ou as estrelas, nem essas luzes, e muito menos o fogo. Quando ele brilha, tudo brilha depois dele; por sua luz tudo é iluminado” (2,2,10).
Essa escuridão divina (a mesma escuridão divina de Êxodo 20,21), que é a iluminação divina que não é iluminada, o desconhecimento que nenhum conhecimento pode conhecer (cf. Carta de São Dionísio a Gaio), está além de qualquer compreensão é o “desconhecimento transcendente”.
Neste desconhecido, também chamado de agnosia (o estado que São Dionísio descreve como o “não saber nada, que está acima de todo conhecimento), tudo que é de ordem invidual (vontade), se extingue, como diz São Boaventura “reduz à humildade as idéias insensatas da tua vontade, e empenha-se em subjugar a besta cruel. Estás preso à vontade; esforça-te em desatar este laço que não poderia ser rompido. Tua vontade é tua Eva.”
Isso também aparece na história de Leander Märchen, do homem que acordou no céu e pediu a São Pedro e pediu todos os confortos que sonhara a vida toda. Depois de um tempo, quando foi reclamar com São Pedro sobre a monotomia, o sujeito descobriu que na verdade estava no inferno, pois no céu não há esse tipo de vontade, de seguir os próprios desejos, mas apenas a vontade divina.
[1] – Noções de História da Filosofia, , Cap. I, Pe. Leonel Franca, V Edição, 1930
[2] – The Neoplatonic Philosophy of Dionysius the Areopagite, Eric D. Perl, State of New York University Press, 2007
