Breve Nota Sobre Globalismo e Catolicismo Abril 23, 2011
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Para não tirar o foco da questão levantada aqui, e responder as dúvidas do Renan:
1)- De facto, o termo “globalismo” é novo. Bem mais jovem que o Catolicismo Romano. Mas segundo a análise histórica segundo a Ortodoxia, exposta atualmente por pensadores como o Dr. Alexander Dugin, Dr. Vladimir Moss, Dr. Constantine Cavarnos e Monge Benjamin (Gomareteli), os eventos históricos são analisados como um reflexo da batalha miguélica contra as potestades infernais. Desta forma, todo evento histórico é analisado tanto segundo eventos anteriores a ele, relatados na Bíblia, como também segundo as profecias das Escrituras e dos Santos, principalmente dentro das profecias para as “sete Igrejas da Ásia”, relatadas no Apocalipse, interpretadas pela Igreja como sete fases diferentes da história. Assim, pensadores ortodoxos de linhas tão distintas como o Professor Dugin e o Dr. Moss, concordam quanto à análise de todos os fenômenos históricos como reflexo da eterna batalha entre “nós” e “eles”: portanto, enquanto Moss identifica na URSS o poder do Faraó, o Professor Dugin identifica na América do Norte e seus aliados este mesmo ideal de poder universal.
2)- Forneci carácter “globalista” ao papismo germânico[1] e guelfo apenas para traçar um paralelo entre um ideal comum entre figuras como Carlos Magno, os papas romanistas e os grandes globalistas das oligarquias atuais. Um exemplo de tal ideal globalista no catolicismo é o Concílio de Trento, que suplantou diversos ritos ocidentais[2], com a desculpa de estar “fortalecendo a unidade da Igreja”.
3)- O papismo germânico é essencialmente globalista, mesmo antes de Trento: enquanto o sinfonia de poderes Bizantina garantia a existência de diversos reinos ortodoxos, com suas peculiaridades litúrgicas, eclesiásticas e culturais, cada um com seu ideal de “Tsargrad”[3], o ideal papista germânico colocou todos os reis sob a autoridade de um só líder universal, o que podemos conferir nos próprios ditados conhecidos como Plenitudo Potestatis Papae. O que causou protestos até no Ocidente, conforme notamos no Brevilóquio do grande Ockham, que faz uso do próprio argumento do papa como “Vigário de Cristo” para negar o Plenitudo Potestatis Papae:
“Pois Cristo quis abdicar da plenitude de poder durante o tempo que veio servir e não ser servido, segue-se que não concedeu a plenitude de poder a seu vigário, o papa”. (Brevilóquio sobre o Principado Tirânico, pg. 59 Trad. Luiz Alberto de Boni, Petrópolis, Vozes, 1988)
Mais tarde, com o surgimento do uniatismo, criado com conspirações, intrigas e sangue dos mártires ortodoxos[4], o papismo germânico ampliou suas fronteiras globalistas: bastava a submissão ao papado, não era mais necessário a mudança de ritos e até a adição do filioque ao credo foi dispensada. Ao contrário do ideal ortodoxo, de sinfonia de poderes na administração temporal e espiritual e da Sinodalidade (Sobornost) na administração eclesiástica, o ideal católico romano exige submissão de todos, de reis e bispos, ao papa germânico.
4)- Há um reflexo eclesiológico nisso tudo: enquanto a Ortodoxia está repleta de casos do laicato enfrentando a hierarquia corrompida, como durante o domínio de heresias como nestorianismo, iconoclasmo e nas falsas uniões de Lyon e Florença[5], ou ainda em outros casos, quando o próprio rei assumiu o papel de defensor da Ortodoxia[6], o papado impede qualquer reação dos fiéis em tempos de crise. Atualmente, vemos na Igreja Romana um rompimento de todas as tradições, através do Concílio Vaticano II, e nada pode ser feito contra isso, e o fiel que invocar antigos cânones que afirmam o direito do leigo de romper a comunhão com um hierarca que ensina publicamente algo contrário à Tradição[7] cairá, sem dúvida alguma, em cisma, pois já foi montada uma estrutura legalista para fundamentar qualquer rumo escolhido pelo “sucessor” de São Pedro.
5)- Portanto, é possível comparar o papismo germânico com antigos ideiais “globalistas” de poder. É seu ideal é ainda mais assustador que o de todos os globalistas modernos – aos que não são católicos, obviamente. Além disso, seria interessante algum estudo para tentar descobrir se ocorreu alguma influência do ideal globalista católicos sobre alguns blocos globalistas atuais. Mas isso é um trabalho para alguém mais corajoso e capacitado.
Notas:
[1] Como a burrice é infinita, não custa nada avisar: não usei “papismo germânico” pelo fato do Papa actual ser germânico. Uso este termo para definir o papismo pois o ideal papista não é romano, é germânico. Os verdadeiros romanos, os bizantinos, tratavam com certo desprezo (compreensível) germânicos como Carlos Magno com delírios romanos. Diversos pensadores ortodoxos falam da restauração da “romanidade”, o verdadeiro ideal romano sustentado por Bizâncio, perdido no Ocidente com a queda da Roma Ocidental, mais tarde distorcido e transformado em romanismo papista.
[2] cf. Istoria del Concilio di Trento, Pe. Sforza Pallavicino (1607-1667), Roma, ed 1995. Além da questão dos ritos, há uma outra teoria exposta no mesmo livro que confirma a nossa visão: “Quefta è dunque la ragione di tal mutamento nel tenerfi priuate Congreghe; e non quella che adduce il Souae: dico l’hauer i Papi arrogata à sè l’autorità della prefidenza, ed efclufine affatto i Principi temporali, il cui timor conteneua in vfficio i Vefcoui nelle publiche Sffioni. Primieramente quest’autorità de’Pontefici Già s’è veduto , che non è introduzione moderna. Secondariamente fui affaio maggiore e più assoluto l’esercizio di essa ne’precedutti Conclilii, specialmente negli Ocidentali, quando niuna robufta potenza nell’Occcidente contendua l’affoluto gouerno delle cofe ecclesisattiche al Papa: nè i Principi haueuano interesse nelle determinazioni Sinodali, che non fui poseia nel Tridentino, quando il contrafto della gagliardissima fazion Eretica, e vi vari rispetti politici delle Potenze fecolari faceuano nauigar lar Barca di Pietro in vno Stretto angustissimo, e frà venti contrari.” (cap. IV, pg. 593).
[3] Um exemplo disso está na batalha dos sérvios contra Bizâncio. Bizâncio foi reconhecida como a “Tsargrad” de russos e sérvios por tempo, não tardou para que reino ortodoxo passasse a ver sua sede como a Tsargrad, conforme podemos ver, além do exemplo da guerra entre sérvios e bizantinos, nos cismas ocorridos entre Moscou e Constantinopla e também após o Concílio de Florença, quando ficou comum a referência, no mundo ortodoxo, da Rússia como a III Roma.
[4] Os 26 Mártires de Zographou, Monte Athos, mortos por ordem do imperador uniata, de maldita memória, Miguel VIII Paleólogos. Ou ainda Santo Atanásio de Brest, que após várias prisões, continuou a desafiar a união com Roma, até ser torturado e morto em 1649. Podemos ainda mencionar as táticas utilizadas na criação das igrejas uniatas no Líbano e na Ucrânia: no caso da Igreja Melquita, um bispo frustrado por perder a eleição ao Patriarcado da Antioquia, foi nomeado “Patriarca Melquita”, enquanto em Brest ocorreu algo ainda mais vergonhoso: com o apoio de bispos depostos até mesmo por bigamia, a Igreja Católica oficializou, sob as artimanhas do Bispo Josafá, a criação de uma Igreja Católica de Rito Oriental. Muitos clérigos e leigos ortodoxos foram perseguidos na Polônia e Ucrânia, pois não aceitaram a união. Aos mais ignorantes, era dito que “o papa virou ortodoxo”. Tudo isso está documentado em obras como “Ocherky po Istori Russkoiy Tserkovy”, A.V. Kartashev, Paris; Editora YMCA, 1959; e “Tserkovy, Rus i Rym”, Nikolai Boyeikov, Jordanville, N.Y., Monastério da Santíssima Trindade, 1983.
[5] Durante a era Nestório, o povo dizia durante as liturgias “temos um rei, mas não temos um Patriarca”. As duas falsas uniões com Roma foram revertidas com a ajuda do povo. Quando o Patriarca Melécio proibiu as Vigílias noturnas, “para não chocar os estrangeiros”, não foi obedecido pelo clero e muito menos pelo povo, e as conhecidas vigílias gregas que praticamente emendam com a Liturgia continuaram a ocorrer por toda a Grécia (cf. “Letter on the Calendar Issue”, Bispo Ephraim, Brookline, Mass., Monastério da Santa Transfiguração, 1968).
[6] São Leão Magno, papa de Roma, escreveu ao Imperador Marciano pedindo sua intercessão contra o herege Eutíquio, e ainda deixa claro na carta que a intervenção do Imperador fazia parte de seu dever como protetor da Igreja.
[7] cf. XV Cânone do I Concílio de Constantinopla.
Sobre o Debate Olavo x Dugin Abril 20, 2011
Posted by Rafael in grande síntese, metafísica, third position, tradição.1 comment so far
Não tenho acompanhado todo o debate, não por falta de interesse, mas por falta de tempo mesmo, mas aos amigos que perguntaram via MP, algumas considerações:
1) Pelo que vi até agora, Olavo tocou num ponto interessante: a questão da Igreja Ortodoxa e sua relação com o governo. De certa forma, concordo com a análise do Olavo no que tange à promiscuidade atual entre a Igreja Ortodoxa Russa, do Patriarcado de Moscovo, e o Estado russo. O que ocorre atualmente não é de forma alguma algo digno de aprovação. A Igreja precisa de hierarcas sábios, com discernimento para saber qual poder é o de César, qual é o do Faraó e qual é o do ungido por Deus. São Felipe, Metropolita de Moscovo, morto pelas mãos de Ivan o Terrível, e São Tikhon, Patriarca de Moscovo, são exemplos de hierarcas com tal discernimento. Embora São Tikhon tenha cometido algumas “trapalhadas” mais práticas, como no trágico testamento que permitiu um jogo de locum tenens, bem aproveitado pelos comunistas, suas atitudes em relação às panikhidas aos mortos na guerra civil[1], além do anátema aos bolcheviques e também em suas negociações com os vermelhos, demonstram qual deve ser a atitude do clero ortodoxo diante de governos obscuros.
2) Atualmente, o Patriarcado está envolvido em negócios obscuros do governo, além de usar a máquina estatal para perseguir as diversas comunidades catacombnikis. Felizmente, dentro do próprio Patriarcado, começa a ocorrer uma reação contra tais desmandos. O Bispo Diomid, atualmente afastado, levantou sua voz contra essa promiscuidade.
3) A razão de tudo isso está no modelo adoptado pela Igreja Ortodoxa: a Igreja Ortodoxa, seguindo a Tradição dos Padres, adopta o modelo gibelino. Em épocas de crise, este modelo parece dar a impressão de “césaro-papismo”, mas seu ideal está muito distante do “césaro-papismo”. Ocorre que este modelo, para ser sustentado, precisa de três pilares: a) clero verdadeiramente ortodoxo e digno; b) um povo consciente e digno de um ungido por Deus; c) um governante cônscio de sua posição como guardião da fé ortodoxa (Царь православный!), sabedor de sua responsabilidade como ungido por Deus, de que seu governo é uma forma de sacerdócio. O Imperador é o único “leigo” que pode entrar no altar pela porta real; em sua coroação, toma a comunhão diretamente do cálice, algo restrito apenas ao clero.
4) Não vejo o modelo apontado como ideal pelo Olavo (o modelo guelfo) como o mais correcto. Em alguns momentos, parece haver uma resistência justa da Igreja contra o governo, em outros, ocorre justamente o contrário – e então temos o “papo-cesarismo”, irmão mais feio do “césaro-papismo”. Comparando os dois modelos, em época de degeneração, o guelfismo parece sair vitorioso, pois quando há a degeneração da sinfonia de poderes, parece bonito ver o lado “espiritual” combatendo o poder temporal. Mas, neste caso, é necessário saber o que a face espiritual está a combater, bem como suas motivações mais profundas.
5) Portanto, se o modelo eurasiano está comprometido pela degeneração de seu sistema gibelino, o modelo ocidental também está comprometido, não só pela degeneração do modelo guelfo, mas pelo modelo guelfo em si mesmo, que é uma perspectiva inferior. Enquanto no modelo gibelino basta o renascimento espiritual do povo, no guelfismo o problema é muito maior: seu modelo exclui a figura do Rei-Sacerdote, o protetor da Fé e sua conseqüente relação mística com o povo e a Igreja.
6) Quanto aos aspectos levantados sobre a NOM, não tenho o que comentar. Li um pouco por cima e tal assunto nunca me despertou muito interesse. Preciso acompanhar as referências dos dois lados para emitir qualquer opinião. Mas, pessimista como sou, não só em relação à política, mas em relação a todas as coisas, não creio na ação de nenhum país ou movimento para colocar um fim na marcha descendente do ciclo. Rússia e EUA caminham para o abismo, como todas as cousas, na caminhada natural de toda manifestação: a água que arrasta, tão comum nos mitos. Em suma: a única cousa que faço é rezar para o mundo acabar em montanha, ao menos assim morro encostado.
7) Tenho vasta bibliografia, notícias e cousas que comprovam diversos factores afirmados pelo Olavo sobre a ação criminosa do Estado russo, bem como a colaboração do Patriarcado de Moscou em diversas ações do tipo. Neste ponto, outra vez ele aparece com a razão: é impossível identificar a atual situação da Rússia como o ideal ortodoxo. A Rússia de hoje, tanto no Patriarcado como no governo, está muito distante do ideal ortodoxo de governo. E isso compromete todo o modelo eurasiano, que não está fundamentado apenas no ideal ortodoxo, mas também na aprovação do modelo atual.
[1] São Tikhon resistiu à pressão de certos membros do Sínodo e permitiu a celebração de panikhidas para todos os mortos na Guerra Civil, de qualquer lado.
