Sobre o Debate Olavo x Dugin Abril 20, 2011
Posted by Rafael in grande síntese, metafísica, third position, tradição.trackback
Não tenho acompanhado todo o debate, não por falta de interesse, mas por falta de tempo mesmo, mas aos amigos que perguntaram via MP, algumas considerações:
1) Pelo que vi até agora, Olavo tocou num ponto interessante: a questão da Igreja Ortodoxa e sua relação com o governo. De certa forma, concordo com a análise do Olavo no que tange à promiscuidade atual entre a Igreja Ortodoxa Russa, do Patriarcado de Moscovo, e o Estado russo. O que ocorre atualmente não é de forma alguma algo digno de aprovação. A Igreja precisa de hierarcas sábios, com discernimento para saber qual poder é o de César, qual é o do Faraó e qual é o do ungido por Deus. São Felipe, Metropolita de Moscovo, morto pelas mãos de Ivan o Terrível, e São Tikhon, Patriarca de Moscovo, são exemplos de hierarcas com tal discernimento. Embora São Tikhon tenha cometido algumas “trapalhadas” mais práticas, como no trágico testamento que permitiu um jogo de locum tenens, bem aproveitado pelos comunistas, suas atitudes em relação às panikhidas aos mortos na guerra civil[1], além do anátema aos bolcheviques e também em suas negociações com os vermelhos, demonstram qual deve ser a atitude do clero ortodoxo diante de governos obscuros.
2) Atualmente, o Patriarcado está envolvido em negócios obscuros do governo, além de usar a máquina estatal para perseguir as diversas comunidades catacombnikis. Felizmente, dentro do próprio Patriarcado, começa a ocorrer uma reação contra tais desmandos. O Bispo Diomid, atualmente afastado, levantou sua voz contra essa promiscuidade.
3) A razão de tudo isso está no modelo adoptado pela Igreja Ortodoxa: a Igreja Ortodoxa, seguindo a Tradição dos Padres, adopta o modelo gibelino. Em épocas de crise, este modelo parece dar a impressão de “césaro-papismo”, mas seu ideal está muito distante do “césaro-papismo”. Ocorre que este modelo, para ser sustentado, precisa de três pilares: a) clero verdadeiramente ortodoxo e digno; b) um povo consciente e digno de um ungido por Deus; c) um governante cônscio de sua posição como guardião da fé ortodoxa (Царь православный!), sabedor de sua responsabilidade como ungido por Deus, de que seu governo é uma forma de sacerdócio. O Imperador é o único “leigo” que pode entrar no altar pela porta real; em sua coroação, toma a comunhão diretamente do cálice, algo restrito apenas ao clero.
4) Não vejo o modelo apontado como ideal pelo Olavo (o modelo guelfo) como o mais correcto. Em alguns momentos, parece haver uma resistência justa da Igreja contra o governo, em outros, ocorre justamente o contrário – e então temos o “papo-cesarismo”, irmão mais feio do “césaro-papismo”. Comparando os dois modelos, em época de degeneração, o guelfismo parece sair vitorioso, pois quando há a degeneração da sinfonia de poderes, parece bonito ver o lado “espiritual” combatendo o poder temporal. Mas, neste caso, é necessário saber o que a face espiritual está a combater, bem como suas motivações mais profundas.
5) Portanto, se o modelo eurasiano está comprometido pela degeneração de seu sistema gibelino, o modelo ocidental também está comprometido, não só pela degeneração do modelo guelfo, mas pelo modelo guelfo em si mesmo, que é uma perspectiva inferior. Enquanto no modelo gibelino basta o renascimento espiritual do povo, no guelfismo o problema é muito maior: seu modelo exclui a figura do Rei-Sacerdote, o protetor da Fé e sua conseqüente relação mística com o povo e a Igreja.
6) Quanto aos aspectos levantados sobre a NOM, não tenho o que comentar. Li um pouco por cima e tal assunto nunca me despertou muito interesse. Preciso acompanhar as referências dos dois lados para emitir qualquer opinião. Mas, pessimista como sou, não só em relação à política, mas em relação a todas as coisas, não creio na ação de nenhum país ou movimento para colocar um fim na marcha descendente do ciclo. Rússia e EUA caminham para o abismo, como todas as cousas, na caminhada natural de toda manifestação: a água que arrasta, tão comum nos mitos. Em suma: a única cousa que faço é rezar para o mundo acabar em montanha, ao menos assim morro encostado.
7) Tenho vasta bibliografia, notícias e cousas que comprovam diversos factores afirmados pelo Olavo sobre a ação criminosa do Estado russo, bem como a colaboração do Patriarcado de Moscou em diversas ações do tipo. Neste ponto, outra vez ele aparece com a razão: é impossível identificar a atual situação da Rússia como o ideal ortodoxo. A Rússia de hoje, tanto no Patriarcado como no governo, está muito distante do ideal ortodoxo de governo. E isso compromete todo o modelo eurasiano, que não está fundamentado apenas no ideal ortodoxo, mas também na aprovação do modelo atual.
[1] São Tikhon resistiu à pressão de certos membros do Sínodo e permitiu a celebração de panikhidas para todos os mortos na Guerra Civil, de qualquer lado.
[...] não tirar o foco da questão levantada aqui, e responder as dúvidas do [...]