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René Guénon e a Tradição Junho 7, 2011

Posted by Rafael in hinduísmo, metafísica, oriente e ocidente, tradição.
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Um dia a morte encontrará a tôdos, então que se esclareçam as coisas antes do fim do Mistério, pois saber do mistério na chegada de seu fim não tem graça.

1. Vou aproveitar para esclarecer uma coisa e acabar com tôda essa frescura: parem de procurar em Guénon um passatempo intelectual. Guénon não escreveu para fornecer erudição. Recebo acá pergunta de gente em busca de libros sobre Guénon, esoterismo, hermetismo, iniciação e assuntos correlactos. MANS noto que, em tôdos estes casos, não há um interesse em TENTAR realizar estas vias de realização – há a mera tentativa para compreender, no sentido de compreensão acadêmica, os ensinamentos chamados “ocultos”, “esotéricos” ou “perenes”. Se o q você deseja é isso, não perca seu tempo com Guénon. Procure nas librarias e bibliotecas as referências, há muitas.

A obra de Guénon é uma tentativa para explicar, em termos acessíveis, como buscar as duas formas de realização, individual e supra-individual. Tôda a obra de Guénon, mesmo a política, é influenciada pela doutrina não-dualista, e um dos trabalhos de Guénon foi a demonstração da existência de doutrinas não-dualistas no Oriente e Ocidente.

A doutrina não-dualista é de natureza expositiva. Não é uma doutrina que pode ser ensinada pela dialética. Algum parvo pode dizer que Shankaracharya derrotou tôdas as outras darshanas e o budismo através de debates dialéticos. MANS aqui é preciso fazer uma separação: os debates realizados por Shankaracharya, como por outros munis ou até mesmo outros representantes de doutrinas não-dualistas além do Advaita Vedanta, não buscavam levar o debatedor à realização, buscavam, primeiro, convencê-los do erro de suas doutrinas samsáricas, para depois iniciá-lo no verdadeiro caminho, para que o vencido, transformado em discípulo, conseguisse atingir moksa. É possível dividir a obra dos mestres, apologetas e mistagogos das doutrinas não-dualistas em diversas partes, MANS a que trata do caminho para a realização é um só: a parte prática.

E qual é a parte prática? Certamente não é aquela que vocês estão buscando. Vocês buscam saciar curiosidade, buscam coleccionar libros e erudição. Não adianta você ler a definição de samadhi. Ou achar que compreendeu o que é moksa. A exposição de moska não passa da transformação da experiência do realizado em palavras, através de sua misericórdia. O que está ali não é a realização de facto.

Guénon notou como as doutrinas não-dualistas foram confundidas entre diversas bobagens “esotéricas” de europeus dos círculos “ocultistas” da Europa, que misturavam incompreensão das doutrinas orientais, tanto por questões doutrinárias ou erros de tradução, com doutrinas iluministas e pietistas, e então apresentou a sua obra como “limpeza de terreno” (nas palavras do Luiz Pontual). Obras como “O Erro Espírita” e “Teosofia” não são apenas documentos para refutar falsas religiões, MANS sim manuais de esclarecimento sobre tôdo uma mentalidade torta, que influenciou praticamente tôdo o esoterismo Ocidental e que levou seus braços até o Oriente (procurem sobre a Arya Samaj do Swami Dayananda).

Portanto, você precisa ter em mente que, ao ler Guénon, você terá que estar com disposição para buscar alguma forma de realização. Se você deseja apenas saciar sua curiosidade, pegue qualquer livro de Guénon e vá ler. MANS não é algo que recomendo. Se você é católico carola, ateísta militante, evangélico ou travesti do Redondo, vá gastar seu tempo com outra coisa, pois a obra de Guénon não é de leitura agradável, muito menos vai te ajudar em qualquer coisa que está dentro do círculo de seus interesses.

A obra de Guénon é para gente como o então Eugene Rose, futuro Bem-Aventurado Monge Serafim Rose, que após uma vida perdida como homossexual e agnóstico, decidiu buscar uma alternativa ao niilismo ocidental. E então chegou ao Taoísmo, mas as previsões pessimistas e o sumiço de seu Mestre fizeram com que o leigo Eugene Rose visitasse uma Igreja Ortodoxa em São Francisco, onde encontrou São João (Maximovitch) de São Francisco e Shangai, e o resto faz parte da história. MANS isso prq o Pe. Serafim era uma pessoa em busca de algo sério. Não era um curioso, ou um sujeito atrás de uma tradição para se aparecer no orkut. Não era como certos “defensores da tradição” que vemos na internet, que comentam sobre a Sharia ou a questão dos wahabitas para em seguida comentar sobre vagina de atriz pornográfica.

Para essa gente, a obra de Guénon só servirá para trazer novas manias. Se você é um desses, não venha aqui me pedir bibliografia, explicação sobre Atma, Brahma Nirguna, Apara Brahman, sufismo e etc. Recomendo que você passe a dedicar seu tempo com a punheta, integralmente, pois já que você gosta tanto de onanismo, passe seu tempo com aquilo que te dá prazer. Não falo isso com qualquer teor moralsita, aqui falo de forma prática: é mais fácil você, por algum choque ou experiência no coito, atingir a realização com o caralho entre 5 cinco dedos do que lendo “O Homem e seu devir segundo o Vedanta”.

Então, se ainda quiser saber a pergunta para a primeira questão, faça um exame de consciência. Se ainda desejar, volte e pergunte, que eu entro em contacto via msg particular e explico tudo. Se você tentar me enganar, não pense que eu serei o maior prejudicado. Não sou burro, faço um caminho de estudos para você em 15 minutos, no máximo. O que não é nem 1% do tempo que você irá perer caso tente me enganar.

2. Fuja dos “tradicionalismos”. Religião é Tradição, não é tradicionalismo. O tradicionalismo é uma doença da Tradição. Os ambientes tradicionalistas foram criados para satisfazer necessidades afectivas e intelectuais de pessoas com diversos tipos de insatisfação. Por isso tôdo ambiente tradicionalista está masi preocupado em impor formas de comportamento, que vão desde o fumar cachimbo até formas de comportamento exótico nas coisas mais banais.

Por exemplo: num ambiente católico tradicionalista, principalmente da FSSPX, há mais preocupação em exibir conhecimento teórico da Summa Teológica ou fumar cigarrilhas depois da missa, com aquela cara de “mamãe, serei Chesterton”, que em viver a espiritualidade católica (que já é claudicante) de facto. Em ambientes islâmicos tradicionais (shias principalmente), há mais preocupação em exibir uma barbicha e demonstrar conhecimento teórico sobre Irfan que em viver segundo os pilares da Fé, como imitador do Profeta Mohamed (s.a.w). Em ambientes tradicionalistas ortodoxos há mais preocupação em fingir que estamos na Rússia de Ivan ou na Constantinopla de São Fócio que em viver de acordo com os ensinamentos dos startsi de nous iluminado.

Se você quer ter uma idéia geral sobre isso, leia esses artigos do Bem-Aventurado Monge Serafim que, apesar de tratar do ponto de vista ortodoxo, serve como guia para analisar qualquer comportamento religioso:

http://orthodoxinfo.com/inquirers/fsr_88.aspx

http://orthodoxinfo.com/praxis/fsr_87.aspx

http://orthodoxinfo.com/ecumenism/fsr_63.aspx

Se você seguir estes passos, você não cairá no papo dos “tradicionalistas”. Para cair na conversa dos “tradicionalistas”, é melhor cair de uma vez na vida de farra. Falta de realização por falta de realização, é melhor aquela com cachaça, baderna e preguiça. Brincar de santo é perigoso à saúde física. E mental.

Sobre “luxo” e “requinte” Janeiro 11, 2011

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Lendo o óptimo artigo publicado no Chakubuku Aaryasattva, lembrei duma outra face de gente que busca glamorização: os “tradicionalistas de boutique”, o lado mais chique da madame da nova era que procura os mestres ascensos e as missas de magia branca da “Fraternidade Branca”.

Os tradicionalistas de boutique possuem um comportamento bem parecido com a madame leitora de Paulo Coelho e que encaminha 15 emaisl por dia com slides “edificantes”.  Mas também estão atrás de luxo e requinte: ou seja, de frescura. Da mesma forma que as madames, a busca começa por um local “exótico”: uma paróquia da FSSPX, uma paróquia ortodoxa, uma mesquita… Na paróquia ortodoxa, chegam importunando o coitado do pobre com o “hesicasmo”. Ainda nem receberam o batismo ou a crisma, mas desejam aprender as técnicas de oração reservada aos monges experimentados. E os anos de práticas necessárias para o hesicasmo? Não precisam, pois receberam todas as qualifacações iniciáticas nos livros de Guénon.

Desejam ser “hesicastas” sem praticar a dieta monástica, sem a renúncia e os votos e, principalmente, sem a reclusão. Pois não precisam de reclusão e não podem praticá-la: precisam se juntar com outros tradicionalistas para tomar chá tradicional, acompanhado por tabaco tradicional e confeitados tradicionais. Discutem com bastante elegância a teologia palamita, conhecem da vida do Monge Simeão, andam pra lá e pra cá com sacolas de livros. Mas quando começam a receber cobranças sobre jejum, confissão e comportamento, desgostam da vida ortodoxa pois “o padre não entende de hesicasmo, esta paróquia está degenerada”.

Semelhante ao caso dos tradicionalistas que buscam uma “missa tradicional”. E todos com delírios de cruzados. Mas ao invés de combater hereges, escolhem xingar pela internet todo não-católico. “Gnóstico”, “cismático” e  “conciliarista” são as palavras mais utilizadas. Mas escondem de seus padres integristas suas preferências “tradicionais”, pois estão ali atrás d’algum “resquício” da Tradição Ocidental – e ignoram que a missa que tanto idolatram é uma fabricação de Pio V, para sufocar os outros ritos ocidentais e com isso diminuir a influência de outras sés importantes do Ocidente, que não estavam a escapar da dura vigilância da monarquia papista. Mas com o tempo, também desgostam da brincadeira “estou na batalha de Lepanto”.  “Guénon estava certo, aqui só há ritos eXotéricos”, “o padre é ignorante e integrista” e então partem, batendo os pézinhos esotéricos.

Na mesquita, começam com entusiasmo: compram as vestes típicas, vão com o tarbush até no banco,  começam a especular sobre tariqa… Mas também não querem saber de seguir todas as práticas, de aprender o árabe, de ler o Corão e seus grandes comentadores… Afinal, não precisam de nada disso: aprenderam o islam com o Shiekh Abdul Wahed Yahia. Não demora muito e também partem, outra vez com ar de superioridade. Afinal, o padre ortodoxo não aprendeu Cristianismo com Guénon, o padre da FSSPX não aprendeu Cristianismo com Guénon, o Sheikh ficou a perder tempo na Arábia Saudita e não aprendeu com Guénon.

Nos resta, agora, esperar que tal elite iluminada e, principalmente, entendedora do luxo e requinte espiritual, deixe seus isolamentos e exílios orkutianos e venha de sua Agartha para iluminar todos os sacerdotes do mundo, para que todos possamos provar do requintado luxo tradicionalista, com suas hierarquias, transmissões e operações intelectuais. Só assim ficaremos livres dessa chatice chamada ascetismo, imposta pela súcia atual de religiosos como algo necessário para a libertação.

O Centro Primordial Outubro 29, 2010

Posted by Rafael in filosofia, hinduísmo, metafísica, nativos, oriente e ocidente, tradição.
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Aqui, trataremos de questões que há muito precisam de certos esclarecimentos.  Muitos nos perguntam sobre Akakor, Preste João, O Rei do Mundo e outras cousas ligadas direta ou indiretamente a um ponto que é central na Tradição: a ligação com o Centro Primordial. Em primeiro lugar, esclarecemos que, ao longo deste breve artigo, traremos à luz alguns “mitos”, que não devem ser entendidos no sentido dos acadêmicos ou, pior ainda, de algumas correntes neo-pagãs. Somos sabedores de que os mitos não são meras “fábulas” pelas quais os antigos passavam lições morais, muito menos  fatos que ocorreram dentro do espaço-tempo, um delírio comum entre muitas correntes neo-pagãs da atualidade. Na verdade, essas duas interpretações, das quais desejamos, por questões sanitárias, uma distância segura, são filhas de uma só mãe: a modernidade, que privada do conhecimento tradicional, tende a analisar tudo sob um ponto de vista meramente humano. Portanto, é natural que esse tipo de mentalidade crie interpretações moralizantes ou “místicas” (em seu sentido mais degenerado), o que cria um impedimento à compreensão desses assuntos, que exigem uma análise além daquelas limitadas pela mentalidade moderna.

Então, pedimos para o leitor compreender o mito como, nas palavras de Julius Evola, um estado ainda em curso, que ocorre além da dimensão espaço-tempo. Obviamente, trataremos de casos e figuras desta dimensão, como a do Preste João, pois o ponto principal deste artigo – as ligações com um Centro Primordial – pode ser demonstrado através do viver o mito e também através  das ligações deste Centro com figuras, tradições e sociedades durante os séculos.

Começamos, então, com um curioso caso da mitologia assíria: segundo Apolodoro, contam na Eritréia sobre um ser de cabeça humana sobreposta com um peixe, com corpo de peixe e pés humanos, mas possuidor de voz humana, chamado Oanes, que emergia do mar para ensinar a humanidade a construir casas e templos;  além disso, também instruiu sobre as criações das leis e ensinou como plantar as sementes – enfim, ensinou tudo aquilo necessário para a formação da civilização. Antes disso, segundo Beroso, a terra era um “abismo de águas”[1], um local escuro, habitado por criaturas invisíveis e androgynas[2], enquanto os homens habitavam as terras como “bestas do campo”.

Oannes

Na Tradição Hindu[3], vemos a Suprema Personalidade de Deus, na forma dum peixe, que envia um barco para salvar os três mundos submersos nas “águas da inundação”, e instrui o Rei Satyavrata a coletar todas as sementes e ervas para salvaguardá-las num barco, que amarrado ao chifre de ouro do peixe[4], é conduzido pelas “águas da devastação”, durante toda a noite de Brahma[5]. O barco é carregado carregado com as sementes, ervas e sete risis[6] e, durante a jornada, a Suprema Personalidade explica a Satyavrata a Verdade Absoluta – a ciência espiritual, conhecida como sankhya-yoga. Ao final da inundação, Matsya, a `manifestação da Suprema Personalidade em forma de peixe, mata o demônio Hayagriva, para devolver a literatura Védica a Brahma, que despertava de seu sono[7], durante o qual Hayagriva roubou o conhecimento védico.

A manifestação de Vishnu Matsya

No ensinamento hermético-alquímico, são freqüentes as referências às “correntezas das águas” e “escuridão das águas” , e a própria água é representada por um símbolo descendente – .

Na Philosophumena de Hipólito, a alma escrava da morte está em “forma aquática”[8]. Também é recorrente chamar os realizados de “aqueles que foram salvos das águas”[9], o que nos leva novamente até a Tradição hindu, onde Prajapati, criador das águas, mas também dragado por elas, retorna na forma de semente dourada[10]. Notamos algo semelhante em dois fatos da vide Cristo: primeiro, Seu batismo nas águas, com a imersão e subida[11] e, pouco adiante, o Seu caminhar nas águas[12]. Podemos também, abandonando toda interpretação “moral” ou ordinária do mito de Narciso, observar caráter semelhante na água, que atrai Narciso para a morte através do reflexo de sua própria imagem – a ilusão da individualidade.

Assim, entendendo o “arrasto das águas” ou a “imersão nas águas” como a queda na escuridão e ignorância, podemos passar para a compreensão da ligação direta entre a restauração e um Centro Primordial e não-humano (que, como os Vedas, é anadi e aparusheya).

Em uma obra que, infelizmente, caiu no gosto dos lamentáveis “esotéricos”, ou na desgraça dos mais céticos que tomam qualquer cousa do tipo como “peça de anedotário”, notamos muitas outras referências que demonstram as mesmas idéias já expostas aqui. Primeiramente, começamos com um desenho da bandeira de Akakor:

Obviamente, o leitor que já compreendeu o que foi dito até aqui, não precisará de explicações além da própria figura. Logo no início, é descrita a “origem do tempo”, na partida dos deuses, “à hora zero”.

“Esta é a história. Esta é a história dos Servidores Escolhidos. No início era o caos. Os homens viviam como animais, sem razão, sem conhecimento, sem leis, e sem trabalhar o solo, sem se vestirem, nem sequer cobrindo a sua nudez. Não conheciam nada dos segredos da natureza. Viviam em grupos de dois e três, como o acaso os juntava, em cavernas ou nas fendas das rochas. Caminhavam com os pés e as mãos até a chegada dos Deuses. Eles trouxeram a luz.”

A crônica continua com o relato da chegada dos “Mestres Primitivos”, de origem que não pode ser esclarecida “nem pelos sacerdotes”, citando as palavras da própria crônica. O mais curioso, dessa vez, é o surgimento desses sacerdotes: em navios dourados, chegado de Schwerta, um local distante, nas profundezas do universo[13], origem do conhecimento do mundo. Segundo esses mestres, os dois mundos, o da profundeza, origem do conhecimento e o nosso, encontram-se a cada seis mil anos, quando ocorre a volta dos deuses – e tais seres, de origem divina, possuíam seis dedos nas mãos e nos pés. O seis, que forma um hexagrama, e na crônica demonstra a origem divina dos “Mestres Primitivos”, também traz novamente a questão do simbolismo alquímico. Conforme falamos anteriormente, a água, por sua ação descendente, é representada pelo triângulo , descendente, enquanto o fogo é representado pelo triângulo , ascendente, pois a ação da “chama que queima” é ascendente. O hexagrama, que é a junção desses dois triângulos, representa a união do poder sexual, entre macho e fêmea, o que nos leva novamente ao androgyno
. Vemos também, numa gravura alquímica de Petrus Bunus, o rei que recebe a reverência de seis súditos:

Na Spiegel der Kunst und Natur de Stefan Michelspacher, vemos novamente seis seres (reais, guerreiros, sacerdotais) em torno do cume da montanha, o ápice da realização:

Também é importante em Akakor a questão das habitações subterrâneas, cidades fantásticas e maravilhosas, até mesmo para a terra, já habitadas por máquinas fantásticas até mesmo para os dias de hoje:

E os Deuses governaram Akakor. Governaram sobre os homens e sobre a Terra. Tinham navios mais rápidos que o vôo das aves, navios que atingiam os pontos a que se destinavam sem velas nem remos, tanto de dia como de noite. Tinham pedras mágicas por onde viam a distância, de modo que podiam ver cidades, rios, colinas, e lagos. Tudo quanto acontecia na Terra e no Céu se refletiam nessas pedras. Mas as habitações subterrâneas eram as mais maravilhosas. E os Deuses deram-nas aos seus Servos Escolhidos como última dádiva. Para os Primitivos Mestres são do mesmo sangue e têm o mesmo pai.

Curiosamente, nos Vedas há o relato de veículos semelhantes, chamados “vimanas”, desafortunadamente confundidos com “ufos” por aqueles que descartam qualquer explicação divina para as coisas, muitas vezes porque as consideram absurdas – mas acabam por cair em explicações delirantes. Voltando à questão do subterrâneo, temos, também na América do Sul, relatos sobre a Cova dos Tayos, supostamente habitada pelos tayos, seres que, vez ou outra, sobem para ensinar aos homens[14]. Na América do Sul há várias histórias sobre civilizações subterrâneas, habitadas por seres que possuem um contato cada vez mais raro com os homens, e que aparecem sempre como instrutores. Portanto, chegamos a mais um ponto comum indicado pela Tradição: estes seres, originários de cavernas, indicam uma origem comum dos ensinamentos “divinos”.  Então, em Akakor, vemos novamente a ação destruidora das águas, no relato sobre a primeira grande catástrofe:

Isto é o relato de como os homens morreram. O que aconteceu à Terra? Quem a fez tremer? Quem fez dançar as estrelas? Quem fez as águas brotarem das rochas? Numerosos eram os flagelos que atingiam os homem. Estava sujeito a várias calamidades. Estava terrivelmente frio e um vento gelado soprava sobre a Terra. Estava excessivamente quente e a própria respiração das pessoas queimava-as. Homens e animais fugiam em pânico. Desesperados, corriam de um lado para o outro. Tentavam trepar nas árvores, mas as árvores repeliam-nos. Tentavam alcançar as cavernas. Contudo, estas abatem-se e sepultavam-nos. O chão tornava-se teto, e o teto desaparecia nas profundidades. O som e a fúria dos Deuses não se acalmavam. Até os abrigos subterrâneos começaram a tremer.

Na continuidade dos relatos das catástrofes, vemos outro importante aspecto do simbolismo tradicional: altas montanhas erguidas em direção ao sol (a transformação da montanha em caverna após o fim duma era de degeneração, o oposto da transformação da montanha em caverna, que marca a passagem duma era superior a uma inferior) e, novamente, a água aparece como origem de desordem e sua divisão como o fim da desordem.

Três luas passaram e três vezes três luas. Então as águas dividiram-se. A Terra acalmou de novo. As correntes seguiram diferentes cursos. Perderam-se por entre as colinas. Altas montanhas se ergueram em direção ao Sol. A Terra modificou-se quando os Servos Escolhidos deixaram as moradias subterrâneas, e grande foi a sua mágoa. Ergueram o rosto para o céu. Os seus olhos procuraram as planícies, os rios e os lagos. A verdade era terrível; a destruição medonha. E Ina reuniu o Conselho dos Velhos. As Tribos Escolhidas juntaram dádivas: jóias, mel das abelhas e incenso. E sacrificaram-nos para fazer com que os Deuses voltassem à Terra. Mas o céu manteve-se vazio. A era do jaguar começara: época de sangue quando tudo foi destruído. Assim foi separado o elo entre os Primitivos Mestres e os seus servos. E principiou uma nova vida.

Outra vez, a inundação aparece como origem da destruição de nada menos que vinte e seis cidades – o que causou a diminuição significativa das passagens subterrâneas para o mundo interior. Akakor, então vai passando por um ciclo de catástrofe e reconstruções, onde símbolos como a montanha e a caverna  vão desenvolvendo papéis fundamentais, conforme podemos notar em gravuras da hermética obra Splendor Solis :

Agora, passando para a história do Preste João, vemos que a Árvore da Vida desempenha papel fundamental em seu reino – a mesma árvore que, tanto nas Tradições como nos ensinamentos hermético-alquímicos, possui profunda importância. Na tradição nórdica, Ygdrasil é a árvore que guarda a fonte de toda sabedoria, já na tradição hindu, vemos a “árvore invertida”, que esconde em suas folhas Yama, o rei do estado primordial. A Árvore, que aparece em várias tradições como “centro do mundo”, “origem da vida eterna” ou em diversas outras referências à idéia de centro e origem, fornece o caráter sobrenatural ao Preste João, ligado diretamente a seu significado como “Centro Supremo”.  No “Tractatus pulcherrimus”[15], o Preste João é citado como “rei dos reis”, numa clara referência ao “Rei do Mundo”, e curiosamente, o reino do Preste João é descrito em algumas lendas como “o reino das seis tendas” – o número seis, que acabamos de tratar:

Notas

[1] The Sacred Books And Early Literature Of The East, vol. 1, 1910.
[2] Também frequentes na alquimia, seres primordias compostos de dois elementos: o lunar e o solar, como em outra gravura do Splendor Solis:


[3] Cf. Śrīmad Bhāgavatam 8,24

[4] O ouro como restaurador do estado nas “profundezas das águas”, também muito comum no simbolismo hermético-alquímico.

[5] A noite de Brahma, durante o dilúvio e  devastação das águas, também é comum na alquimia: do “estado de sono” nasce as tribulações da alma nas águas. Há também algo semelhante no caso da “tumba de Osíris”, e também no “sono gerado pelo desejo”, que encarcerou a alma no corpo, segundo os alquimistas, como o sono gerador de ignorância, o que equivale ao obscurecimento dos Vedas.

[6] Os “sete homens” correspondentes aos “sete ministros”, criados por Nous demiurgo, deus do fogo e do sopro. Há também que se mencionar a importância do sete, como  nas sete destilações necessárias para obter a “Água Divina”, contrária à correnteza “água das correntezas”, capaz de trazer vida aos mortos.

[7]   Equivalente ao “despertar” relatado pelos alquimistas.

[8] Hipólito, Philosophumena, 5,10, em “A Tradição Hermética”, Julius Evola.

[9] A Igreja, segundo diversos padres, é a “Arca da Salvação”.

[10] Em São Mateus (cap. 13), Cristo usa a semente numa parábola sobre a Vida Eterna.

[11] A água misturada ao vinho da Eucaristia, para simbolizar sua natureza humana. Temos então mais uma relação direta entre a água e a descida em forma humana.

[12] Cristo, cabeça da Igreja, também caminha sobre a água, pois a Igreja é a “arca da salvação”, conforme acabemos de mencionar. No Apocalipse de João, vemos: “Veio, então, um dos sete Anjos que tinham as sete taças e falou comigo: Vem, e eu te mostrarei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas…” (17,1) e “O anjo me disse: As águas que viste, à beira das quais a Prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas.” (17,15) e também a vegetação que cresce “à beira das águas”,  fora da Arca, será condenada à destruição (Eclesiástico 40,16).

[13] Para mais informações sobre a Caverna, cf. “Os Símbolos Fundamentais das Ciências Sagradas”, René Guénon, 29-31.

[14] Murugan, que liderou a vitória dos devas contra os asuras, por exemplo, mora em uma caverna.

[15] Citado em “O Mistério do Graal”, Julius Evola

Moksha e individualidade Outubro 30, 2008

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Os ocidentais, quando se aproximam da filosofia oriental, chegam sem antes de fazer um exame rigoroso de mentalidade, pois imaginam que as controvérsias da filosofia oriental (principalmente a hindu) são de ordem semelhante às disputas filosóficas e metafísicas ocorridas no Ocidente.

Por isso notamos que até estudiosos e eruditos do quilate de um Pe. Leonel Franca acabam por cair em erros primários ao tratar da filosofia hindu [1], pois imaginam que é possível reduzir essas questões à dialética ou até mesmo à erudição. Orientalistas muito mais eruditos que Guénon em diversas áreas, como Max Muller, por exemplo, não compreenderam os diversos aspectos fundamentais da doutrina hindu, e serviram como próceres de diversos movimentos modernos que deturpam a doutrina em diversas correntes sentimentalóides, panteístas e reencarnacionistas.

Quando chegamos a tratar desta questão, as dúvidas e problemas oferecidos à nossa mentalidade aumentam ainda mais, já que este assunto causou e ainda causa controvérsia mesmo entre os orientais, com a diferença que entre eles há uma certa noção do que está em disputa.

Em primeiro lugar, os partidários do tomismo ou de outras correntes filosóficas cristãs acreditam absurdamente que a extinção da dualidade é uma espécie de aniquilação. Isso porque, para eles, existência quer dizer necessariamente individualidade, e então já fazem suas apressadas conclusões: “isso [o não-dualismo] é uma doutrina niilista, atéia”, “é aniquilacionismo” e assim por diante. Ora, isso demonstra duas coisas: ignorância, pois o sujeito não tem noção do que o não-dualismo toma como existência o personalismo histérico, com base num dualismo construído a um apego aos filósofos cristãos e principalmente os escolásticos, já que não podemos incluir todos os santos nesta interpretação pois São Dionísio e Mestre Eckhart fugiram um pouco dessa regra.

Lutero, a besta beberrona e fideísta, duvidava da santidade de São Dionísio, que para ele era mais “neoplatonista que cristão”.[2] Como, infelizmente, nosso atual Ocidente lembra mais de javalis selvagens como Lutero que de santos como Mestre Eckhart, é natural que à primeira vista cause um certo espanto as doutrinas não-dualistas orientais.

Os caminhos apresentados pela filosofia hindu, o caminho da gnose (jnana-marga), o caminho da dedicação (bhakti-marga), não são caminhos opostos, mas sim diferentes. Normalmente, a mentalidade ocidental toma o bhakti-marga como o oposto do jnana-marga, o que é falso, pois o que os defensores das duas escolas, em todos os debates públicos feitos até hoje, buscaram apenas identificar o seu caminho como o summum bonum, aquele que realmente liberta de todo sofrimento e ilusão. Enquanto o bhakta afirma que a experiência do jnani, embora existente, é uma ilusão diante da verdadeira satisfação que é serviço devocional à Personalidade Suprema, o jnani, pelo contrário, afirma que o estado do bhakta, embora existente, é ilusório, pois está preso dentro da individualidade que é a separação de Brahman.

No entanto, para nós é mais fácil entender o bhakti-marga que o jnana-marga, pois fomos criado com aquela idéia de um céu de anjos sentados nos nuvens, tocando harpa, com os salvos contemplando a divindade.

Conforme expliquei acima, há muita incompreensão aqui no Ocidente em relação ao não-dualismo, principalmente devido a cousas como a injusta excomunhão de Mestre Eckhart, a visão dominante do neoplatonismo como gnóstico e essencialmente anticristão. Com isso, padres como Santo Evrágio, São Máximo o Confessor e São Dionísio são jogados para baixo do tapete, e qualquer estulto armado de um manual tomista pode zurrar seus anátemas e condenações numa questão que não é para o seu bico.

Os complexos Upanishads, em seus vários koans[3] e passagens obscuras, lançaram cousas que são discutidas e interpretadas até hoje, como essa do Brhdaranayak Upanishad:

“Quando o sol se apagar… a lua se apagar… o fogo desaparecer… o discurso calar, qual luz a pessoa terá?”

A questão de como algo corruptível e sujeito à morte e devir pode “tornar-se partícipe da natureza divina” ou “voltar a Brahman” foi respondida corretamente por Mestre Eckhart, com sua doutrina do “esvaziamento do ser”, que consiste no esvaziamento do indivíduo para que o vazio seja completado por Deus, até que este vazio se torne completo para que Deus preencha a tudo.

Moksha é o fim da intelecção, que é diferente da destruição do intelecto, já que onde não há mais distinção entre visão e vidente, cessa também a intelecção. Aos que acham isso muito distante do Cristianismo, trazemos uma citação de São Dionísio:

“É então somente que, ultrapassando o mundo em que se é visto e onde se vê, Moisés penetra na Treva verdadeiramente mística do não-cognoscível; é aí que faz calar todo saber positivo, que escapa inteiramente a toda compreensão e toda visão, porque ele pertence inteiramente Àquele que está além de tudo, porque ele não pertence mais a si mesmo nem pertence a nada de estranho, unido pelo melhor de si mesmo Àquele que escapa a todo conhecimento, após ter renunciado a todo saber positivo e, graças a este próprio não-conhecimento, conhecendo para além de toda inteligência.” Obra Completa, Pseudo-Dioníso o Areopagita (sic), Paulos, 2004, Pg. 132

Mestre Eckhart segue de forma semelhante: “O que o novato teme é o gozo do sábio; o reino de Deus não é para ninguém exceto os totalmente mortos.” (I, 419).

Pois essas palavras não parecem muito semelhantes ao que Krishna diz a Arjuna no Gita? “Aquele que abandona todos os desejos materiais torna-se livre da saudade dos sentimentos de ‘eu’ e meu’, alcançando a paz.” (BG 2,71, grifos meus)

No livro do Apocalipse, São João relata uma cidade que “não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina” (Apocalipse 21,23); semelhante ao Mundaka Upanishad “Lá o sol não brilha, nem a lua ou as estrelas, nem essas luzes, e muito menos o fogo. Quando ele brilha, tudo brilha depois dele; por sua luz tudo é iluminado” (2,2,10).

Essa escuridão divina (a mesma escuridão divina de Êxodo 20,21), que é a iluminação divina que não é iluminada, o desconhecimento que nenhum conhecimento pode conhecer (cf. Carta de São Dionísio a Gaio), está além de qualquer compreensão é o “desconhecimento transcendente”.

Neste desconhecido, também chamado de agnosia (o estado que São Dionísio descreve como o “não saber nada, que está acima de todo conhecimento), tudo que é de ordem invidual (vontade), se extingue, como diz São Boaventura “reduz à humildade as idéias insensatas da tua vontade, e empenha-se em subjugar a besta cruel. Estás preso à vontade; esforça-te em desatar este laço que não poderia ser rompido. Tua vontade é tua Eva.”

Isso também aparece na história de Leander Märchen, do homem que acordou no céu e pediu a São Pedro todos os confortos que sonhara a vida toda. Depois de um tempo, quando foi reclamar com São Pedro sobre a monotonia, o sujeito descobriu que na verdade estava no inferno, pois no céu não há esse tipo de vontade, de seguir os próprios desejos, mas apenas a vontade divina.

[1] – Noções de História da Filosofia, , Cap. I, Pe. Leonel Franca, V Edição, 1930

[2] – The Neoplatonic Philosophy of Dionysius the Areopagite, Eric D. Perl, State of New York University Press, 2007

[3] – Obviamente, somos sabedores que a palavra koan pertence ao Zen Budismo. A palavra é utilizada aqui apenas para exemplificar trechos dos Upanishads que estão além do entendimento humano, impossíveis de compreensão através da mera razão humana.

Recomendação Agosto 31, 2008

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Recomendo aos amigos o blog do Daniel Placido, um estudioso muito sério de metafísica, esoterologia e filosofia. Não deixem de conferir a bibliografia que ele fez sobre esoterologia.

Realização Metafísica e Aniquilação Agosto 31, 2008

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Pois bem, no nyaya, vaisheshika e no purvamimamsa o conceito de abhava,  a não-existência, é dividido em quatro categorias. Muito embora no advaita o conceito de abhava não seja colocado como uma categoria, creio eu que é útil analisar todos os conceitos para melhor entender a realização metafísica, já que muitas vezes a pergunta “qual a diferença entre aniquilação e realização metafísica?” é levantada.

São eles:

1. prag-abhava – a não-existência anterior à criação.
2. pradhavamsa-abhava – a não-existêncioa posterior à destruição.
3. atyanta-abhava – a não-existência limitada, pois o objeto não existe em outro tempo particular além daquele que está limitado no espaço.
4. anyonya-abhava – É a diferença entre uma coisa e outra. Por exemplo: não existe um cachorro que é um gato. O que existe entre o cachorro e o gato é uma não-existência mútua, chamada anyonya-abhava.

Mas, o que isso pode resolver o nosso problema? Bem, sabemos que tudo nos modos de existência material passou a existir durante a criação, e portanto, um gato não é um gato que brotou da não-existência, mas um gato que existia em potência e passou a existir no mundo grosseiro. Desta forma, o realizado é aquele que não opera mais em si mesmo maya ou avidya, e que portanto, está além das ilusões de maya de expansão e limitação.

Utilizando uma outra analogia: peguem uma pessoa que não sabe matemática – ela só saberá que é ignorante em matemática quando alguém lhe fizer questões sobre matemática e ela não conseguir responder. É neste ponto, quando a pessoa se dá conta de avidya, que ela está apta para alcançar moksha.

Então, Brahman é qual dessas não-existência? Nenhuma delas. Brahman não tem origem, nem destruição, o que impossibilita as duas primeiras. Brahman não é limitado em espaço e tempo, e portanto, isso descarta a terceira. Por último, Brahman está além de todos os objetos e imposto em todos eles, portanto, nada é distinto de Brahman, o que descarta a quarta.

Brahman é a única existência real, e se abhava não pode ser Brahman, portanto, abhava também não existe, como a individualidade.

O jivan-mukta, quando se separa do corpo, entra no estado em que o ser é totalmente separado do corpo, o que nos faz concluir que a ligação entre o corpo e o ser é totalmente contrária à natureza do ser. E abhava, tal qual a existência individual, se difere da verdeira existência que é Brahman, e portanto, o sujeito que é aniquilado (como no exemplo citado aqui, ou no aniquilacionismo de alguns padres gregos), se difere do jivan-mukta no que tange à realidade de sua não-existência. A expressão pode parecer absurda e fazer rir os ignorantes, mas para quem acompanhou o raciocínio desde o começo, a conclusão inevitável é essa: a aniquilação (pradhavamsa-abhava) é diferente da proclamação upanishádica “todo rio perde seu nome ao desaguar no oceano”, por lhe faltar uma coisa: a existência real.

Adi Shankaracharya explica em seu mais celebrado trabalho, Atma Bôdha, o que é real:

O mundo é repleto de apegos, aversões, etc., é como um sonho. Ele parece ser real, assim como o sonho parece ser falso quando se acorda.

Todo o mundo manifestado de coisas e seres é projetado pela imaginação pelo o que é o substrato do Eterno e Onipotente Vishnu, cuja natureza é a Inteligência-Existência; como diferentes ornamentos que são feitos do mesmo ouro.

E adiante, explica o que é ser realizado:

Eu sou outro além de corpo e portanto sou livre de mudanças como nascimento, envelhecimento, senilidade, morte, etc. Eu não tenho nada com os sentidos como som e gosto, pois sou sem órgãos.

Eu sou outro além da mente e além disso, sou livre de dor, apego, malícia e medo, pois “Ele é sem fôlego e mente, puro, etc.” é o mandamento das grandes escrituras, o s Upanishads.

Eu sou sem atributos e ações; Eterno (Nytia), sem qualquer desejo e pensamento (Nirvikalpa), sem qualquer sede (Niranjana), sem qualquer mudança (Nirvikara), sem forma (Nirakara), sempre-liberado (Nitya Mukta), sempre-puro (Nirmala).

Como o espaço preencho todas as coisas desde dentro e fora. Sem alterações e o mesmo em todos, sou puro, desapegado, imaculado e imóvel.

Eu sou como o Supremo Brâhman que é o único Eterno, Puro e Livre, Uno, indivisível e não-dual da natureza do Imutável-Conhecimento-Infinito.

Muitas escolas, do vaishnavismo ao budismo, buscaram refutar as exposições de Adi Shankaracharya. Dentro do hinduísmo, as mais conhecidas são as Vishishtadvaita e Dvaita. Segundo os estudos que fiz até hoje, a que chega mais perto de lograr algum êxito é a refutação de Ramanujacharya, principalmente a contida no Vedanta Sutra. No Vedanta Sutra, Ramanujacharya busca refutar diversas afirmações do advaita sobre ser e consciência, a não-existência de diferentes substâncias e outros propugnáculos do advaita.

Para Ramanuja, se há uma substância além de toda diferenciação e que é também o verdadeiro conhecimento, há então uma contradição capital: através do próprio testemunho do Ser sabemos que toda consciência implica diferença, pois todos os estados de consciência possuem coisas que são diferenciáveis no julgamento das próprias coisas. A percepção também ocupa um papel fundamental no argumento de Ramanuja, pois todo conhecimento ocorre através da distinção, entre o determinado e não-determinado, o julgamento “isto é isto, aquilo é aquilo”, é tido como o conhecimento de uma coisa pertencente a uma classe, o não-determinado como o conhecimento da primeira coisa que pertence à alguma classe, e o determinado que é o conhecimento das seguintes, portanto, todo conhecimento é obtido através de alguma distinção.

Para Ramanujacharya, o som (sabda) também denota diferença, pois a palavra (pada), a união de um radical e um sufixo, possui dois significados diferentes , portanto o próprio sentido da palavra é afetado pela diferança, como a sentença que conforme a combinação de palavras e significados denotam a falta de algo que não possui qualquer diferenciação.

Muito embora tal refutação pareça muito lógica, o advaita possui respostas muito satisfatórias a ela. Os Upanishads demonstram um Brahman sem distinção, sem qualidades, sem sentimentos, sem forma, auto-suficiente e não-dual (advayam).

a natureza de Paramatma que é manifestada na metne, indivisa, não-dual, testemunha de toda, distinta de toda causa e efeito, pura… – Taitirya Upanishad II,1

Sou distinto de todo sujeito, objeto e instrumento. Em todos os três estados – jagrat, swapna e sushupti – sou a testemunha que é a pura consciência e que é sempre auspiciosa. – Kayvalya Upanishad, XVIII

Vejo sem olhos, escuto sem ouvidos. Assumo várias formas, eu sei de tudo. Não há ninguém que Me conheça. Eu sou a eterna consciência pura. – Kayvalya Upanishad, XXI

Deixando os Upanishads um pouco, e partindo para o Bhagavatam, que é um dos principais livros dos vaishnavas, vemos também certas passagens que dão razão à interpretação de Adi Shankaracharya:

Tu é o Ser não-dual, a Pessoa primordial, auto-luminosa, infinita, a Causa Primordial, eterna, imperecível, a felicidade em si própria, pura, perfeita e sem seguidor, sem qualquer diferença (nirguna) e imortal.
– Bh. X,14

Ao comentar um trecho do Gita (que tenho como o meu favorito), Adi Shankaracharya explica que o plural é utilizado para denotar a existência de vários corpos, e não a multiplicade do Ser.:

Nunca houve um tempo que todos estes monarcas, você, ou Eu não tenhamos existido, e nem deixaremos de existir no futuro.

na tv evāhaḿ jātu nāsaḿ
na tvaḿ neme janādhipāḥ
na caiva na bhaviṣyāmaḥ
sarve vayam ataḥ param

Comentário de Adi Shankaracharya:

Mas por que não devemos nos lamentar? Porque somos eternos? Como? Na tu eva, mas certamente isto não é um fato, que jatu, em qualquer tempo; aham, I; na asam; não tenhamos existido; pelo contrário, eu existo. A idéia é que quando os corpos nascem ou morrem no passado, Eu existo eternamente. Da mesma forma, na tvam, não que você não exista, você certamente existe. Ca, tammbém, na ime, estas coisas; jana-adhipah, reis; não existem. Por outro lado, eles existem. E similarmente, na eva, certamente; vayam, nós, sarve, tudo; na bhavisyamah, deixaremos, atah param, depois disso; mesmo após a destruição deste corpo. Pelo contrário, nós deveremos existir. Isso significa que nos três tempos (passado, presente e futuro) somos eternos na nossa natureza como Ser. O plura (nós) é usado para a diversidade de corpos, mas não no sentido da diversidade do ser.

O advaita pode responder essa objeção de Ramanuja da seguinte forma: suponhamos que vimos o Sr. X, com sua cara de psicopata hoje, pela primeira vez. Amanhã temos a infelicidade de encontrá-lo outra vez. Você pode duvidar de ter visto o mesmo Sr. X, caso tenha feito a sensata questão de esquecer sua face. Mas você não vai duvidar que foi você que viu o Sr. X ou outra tenebrosa personagem em seu lugar.

Como o seu “eu” não se alterou, é percebido então a verdadeira natureza do Ser imutável. Toda distinção nasce da ignorância, quando o verdadeiro conhecimento é obtido, a distinção some.

Então, a refutação do advaita para esta objeção pode ser resumida assim: o objeto não é a última realidade. A consciência sim. Então, temos os atributos do objeto na mente que estão sujeitos às coisas que dizem respeito aos estados mentais e análogos. A mente é a visão e o vidente, diz Shankara no Bala Bodhani.

Sri Sadananda, a consciência que está limitada à visão é a consciência ligada à coisa, que por sua vez também é limitada pela consciência ligada às formas de conhecimento, e que é limitada pela mente que é a consciência ligada ao sujeito. Ele explica:

“A percepção através dos sentidos envolve a percepção apenas dos atributos do objeto, já que Brahman não pode ser conhecido fora do conhecedor.”

É possível perceber que a refutação de Ramanuja exposta acima não é suficiente, pois o advaita consegue se sair muito bem através de sua explicação e do uso de uma passagem dos Upanishads:

Ushastta: Você está provando com algumas descrições indiretas de Brahman como a vaca que é isso e aquilo, ou o cavalo que é isso ou aquilo, etc. Explique-me porque Brahman é imediato e direto além dessas descrições indiretas. Explique-me Brahman, que é o ser dentro de todos.

Yagnavalkia: Você não testemunhar que é a testemunha do testemunho, você não pode ouvir o que é o ouvinte do som, você não pode pensar que é pensador do pensamento, você não pode saber que é conhecedor do conhecimento – que é você que está em tudo; e que tudo mais é perecível – com essa resposta, Ushastta não fez mais perguntas. Bṛhadāraṇyaka Brahadaranyaka Upanishad, III,4

Desta forma, o indivíduo ao aparecer como a limitação do Ser, como raio da consciência do ser e como o sonho imaginado (cf. Bala Bodhani), a idéia da individualização do ser torna-se um erro, e Maya faz justamente isso: esconde a natureza indivisível do eterno.

Para onde vai Marcel de Corte? Agosto 22, 2008

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Embora tenha sido um grande pensador, Marcel de Corte cometeu certas imprecisões. Uma delas em sua análise sobre o Islam [1], que vai de sua origem até a modernidade, uma análise que podemos, sem sobre de dúvidas, chamar de injusta e repleta de erros históricos. Logo no começo do artigo, De Corte comete um julgamento muito estranho para um pensador católico, pois sua condenação ao Islam pode muito bem recair sobre o Cristianismo, tanto Oriental como Ocidental:

“Para onde vai o Islã? Não parece errado afirmar que o Islã mesmo o ignora quase por completo. Esse grande corpo informe está despertando de uma longa letargia, as pálpebras fechadas, a mente entorpecida, os membros estirados e sacudidos aqui e acolá por sobressaltos involuntários. A história do Islã manifesta duma ponta à outra a estranha alternância entre torpor e exaltação.


A causa disso parece ser o atavismo nômade desse imenso agregado de povos: o Islã só se mexe e se agita quando encontra um condutor, um animador, um füher, um êmulo de Maomé. Sem a guarda do pastor com seus cães, o rebanho cai na anarquia e, pouco a pouco, na sonolência. O Islã é semelhante à limalha de ferro cuja força coesiva depende da ação do ímã.”

Dentro da interpretação patrística do livro do Apocalipse, encontramos uma corrente que predominou entre os padres, com as sete Igrejas da Ásia representando, cada uma delas, uma fase da Igreja do mundo inteiro, a Igreja Ecumênica (Universal). E essa análise parece muito sensata, pois se encaixa muito bem com uma análise histórica do que se passou com o Cristianismo. Apenas a título de exemplo, é muito interessante ver as semelhanças entre a Igreja de Pérgamo (cf. Rev. 2,12-16), com a época dos Concílios Ecumênicos. A Igreja de Pérgamo, mesmo assentada entre uma população corrupta, conseguiu através da espada (os Concílios) combater todas as heresias cristológicas que apareceram no Oriente (arianismo, nestorianismo, monofisitismo), e que depois esta Igreja floresceu entre os povos pagãos, passando para a fase da Igreja da Tiatira (cf. 2,18-20), e depois, por esta Igreja não ter feito o arrependimento exigido nas exortações às duas Igrejas anteriores, passou então para a fase da Igreja de Sardes. Veio, nesta Igreja, o castigo pela corrupção e fraqueza de seus bispos, que veio através da invasão dos islâmicos.

Ao analisar tal interpretação ao lado dos acontecimentos históricos, percebe-se que o Cristianismo também oscilou bastante entre “torpor e exaltação”: de uma religião restrita às catacumbas à Igreja oficial de um Império, de uma Igreja hábil e precisa ao condenar hereges à blasfema e covarde atuação de hierarcas e Imperadores cristãos diante da heresia iconoclasta, a corrupção moral do clero que talvez fosse muito maior que a atual. Além disso, ao afirmar que o Islam só se “mexe quando encontra um condutor… um führer”, de Corte esqueceu que tal problema também ocorreu no Ocidente cristão. Com a queda do Império Romano Ocidental, começou uma batalha incessante e impiedosa entre a autoridade espiritual e poder temporal, que teve um período de folga apenas na época de Carlos Magno, mas que depois continuou com ainda mais vigor. Quanto a isso, basta analisar as disputas entre Felipe o Belo e o Papa Bonifácio, o papado de Avinhão, e as controvérsias de papas que excomungaram reis e de reis que depuseram papas, e também os guelfos e gibelinos da Itália. Percebe-se através desta análise que a ausência de uma sinfonia de poderes (ainda que quase sempre corrupta) em torno de unificadas autoridades (o Patriarca de Constantinopla e o Imperador), fez com que o Cristianismo no Ocidente estivesse em constante busca para legitimar suas autoridades. O fenômeno destacado como exclusivo do Islam também aparece em todas as religiões antigas que oscilaram entre o aumento e queda de sua influência na sociedade. E parafraseando Reinaldo Azevedo, não falo de religião mais nova que meu whisky. Se De Corte fosse ateu, agnóstico, ou até mesmo um protestante republicano, tais críticas poderiam até possuir certa coerência, mas oriundas de justamente quem, não passam de puro cinismo.

“O Islã é instável e descomedido. É notável que a civilização islâmica, em Bagdá ou Espanha, tenha conhecido momentos de grande esplendor, quando o dom que a Grécia legou ao mundo chegou até ela. Poucas culturas alcançaram ao mesmo tempo aquela efervescência vital e sutileza espiritual.

Essa união durou pouco: o Islã precipitou-se num movimento pendular, que podemos observar com maior clareza nas pessoas de seus adeptos, sob a forma de brutalidade explosiva revezada com uma inesperada e requintada delicadeza, ou vice-versa. É como se o Islã sempre tivesse de balançar entre as qualidades e os defeitos da barbárie, e as qualidades e defeitos da decadência.”

Outra análise que, por vir de um católico, nos causa espanto. Ao acusar o Islam de instável e descomedido, por ter alcançado o esplendor de Bagdá ao brutal wahabismo. Nos causa espanto pois se tal análise for feita nos 2000 anos de Cristianismo, algo semelhante aparece: Pois o que oscilou mais que o Cristianismo? Não foi dentro de uma nação cristã que nasceram iluminismo, marxismo, positivismo e todas as desgraças do mundo moderno? O próprio liberalismo, heresia condenada pela Igreja Católica, nasceu como um simulacro de ideologia cristã.

Pois os Impérios Cristãos já não existem (a não ser que algum lorpa seja inocente o suficiente para considerar Inglaterra e Espanha como monarquias cristãs), e deram lugar a escabrosos sistemas que carregam em si todos os males da era de Kaly e das diversas profecias cristãs e islâmicas. Sistemas que já foram criticados pelo próprio De Corte, e ele não se deu conta que sua crítica ao Islam como gerador de barbárie e decadência cabe muito bem ao Cristianismo.

“Já é lugar comum dizer que no Islã a política é apenas um prolongamento da religião. O temporal e o espiritual não são dois domínios distintos. O primeiro não se subordina ao segundo, mas se confundem.”

No Islam, a ciência jurídica (jurisprudência) é tida como uma ciência religiosa. A jurisprudência é dividida em pessoa, penal e civil, e pelo menos a pessoal o muçulmano é obrigado a conhecer. Dentro do Islam, não há incoerência alguma, e isso não pode ser confundido com uma bazófia entre religião e poder temporal. O Islam já na época de Mohamed organizou uma sociedade, então, era natural que começasse desde aquela época a organizar sua política e lei conforme a religião. Ao contrário do Cristianismo, que em seu período primitivo não tinha qualquer pretensão de organizar uma sociedade secular, o Islam teve formulado em seu próprio livro sagrado códigos legais. Assim como os judeus da época de Moisés, seria impossível conduzir uma sociedade religiosa apenas com a jurisprudência pessoal.

O Cristianismo, quando obrigado a criar um sistema legal para ocupar o lugar de um Império decadente, também passou a legislar sobre o temporal, e embora houvesse o ideal da sinfonia entre os dois poderes, era do espiritual que emanava a legitimidade e fundamentos para o exercício da autoridade e coerção temporal.

“O Islã desconhece a natureza humana e suas implicações, logo desconhece também a idéia de pátria e, no interior desta, a idéia de diferenciação hierárquica entre homens de funções desiguais. Não existe “casta” ou “ordem”, no sentido Ancien Régime: no Islã, há igualdade absoluta entre os fiéis. O mulçumano sente-se em casa onde quer que haja Islã: seu passaporte é sua fé, viva ou aparente. O marroquino ou o tunisiano não é um estrangeiro no Egito.”

É de se espantar ver a acusação cristã a um caráter universal de uma religião. Talvez De Corte tenha esquecido que antes de ser Romano ou Bizantino, o Cristianismo também é universal. A autoridade Universal pode partir de uma Sé ou Concílio, mas esta autoridade de honra e para tomar decisões não confere um poder de superioridade a este ou aquele que habitam em tais locais. Pois se o marroquino se sentia bem no Egito, ele nada mais estava revivendo a época em que os cristãos do Oriente se sentiam em casa em qualquer lugar da Tsaringrad (cidade do Imperador). Um grego na Rússia era, antes de qualquer coisa, um cristão. As divisões entre os cristãos começaram justamente nos sentimentos nacionalistas: a adesão dos armênios ao monofisitismo foi nada mais que uma desculpa do nacionalismo armênio para se ver livre dos gregos, o ódio mútuo entre gregos e latinos foi o primeiro passo para o Grande Cisma, o nacionalismo do rei foi apenas uma desculpa para a grande salada feita para criar a Igreja Anglicana e assim por diante. O patriotismo, que é louvável, não pode ser confundido com o nacionalismo. Ao abandonar o critério da fé para reconhecer outro semelhante, e adotar o territorial, é cair em nacionalismo. Pois a união espiritual é muito mais importante que a nacional. Este “passaporte” que os islâmicos possuem, e que De Corte critica, nada mais é que uma característica ainda mais acentuada entre os cristãos, e que se a esquecemos atualmente, para dar lugar a ideais nacionalistas (que nasceram na Idade Moderna), isso deve ser motivo de vergonha, e nunca de orgulho.

“Além disso, esses dois sistemas constituíam um tampão contra o imperialismo russo. Hoje estamos pagando o preço dessa política cega, em que saíram ganhando o “idealismo” laico e as sórdidas preocupações econômicas. Tomara não nos seja o preço muito alto, já que, citando novamente Rivarol, a pior desgraça é a de merecer suas desgraças!


Em todo caso, é certo dizer, os nacionalismos árabes não possuem raízes nas tradições islâmicas, e evoluirão fatalmente em direção ao internacionalismo e ao pan-islamismo. A Rússia, sempre atenta, lhe dedicará mais e mais cuidados na proporção direta dos erros habituais da diplomacia dita atlântica. O único trunfo nas mãos do Ocidente é a debilidade do sentido de Estado em terras islâmicas. Hoje em dia, contudo, constroem-se Estados artificiais por meio da força. O Estado Ocidental, por seu turno, degenerou em Estado Providência, que vampiriza sua energia e suas reações vitais de defesa.”

Pois aqui vemos um De Corte criticando o idealismo laico. Talvez porque ele desejasse uma legislação católica, uma união entre espiritual e temporal, que ele criticou no Islam. Claro, sharia boa, só a minha.

O que ele considerava uma debilidade dos islâmicos, é hoje o grande triunfo. Vemos que a Síria apoiou insurgentes iraquianos, e também é conhecido por todos as relações muito próximas entre Síria e Irã. Enquanto os ocidentais ficam discutindo legitimidade das guerras, e fazendo votações e Assembléias, no Oriente até inimigos vão se unindo e preparando alianças. É óbvio que em um conflito entre o que luta por um Estado e o que luta por uma religião, o segundo sairá com grande vantagem. Enquanto um luta por limites territoriais, sem qualquer pretensão metafísica, pode muito bem se acovardar e dar no pé, o que luta com fé convicta na vida eterna e de prazeres celestiais dificilmente deixará de dar a vida por sua causa.

Marcel de Corte, ao tentar fazer uma análise do Islam, caiu em um erro comum até hoje: é absurdo buscar qualquer crítica ao Islam com base em seus fenômenos sociológicos. Toda religião que organizou sociedades acabou passando por ciclos que alternaram entre ápice e decadência, fervor e frieza; contudo, parece que De Corte ignorou qualquer análise deste tipo sobre o Islam, preferindo apenas as acusações demagogas, as confusões baratas e as conclusões precipitadas.

[1] “La libre Belgique”, 28 de dezembro de 1956. Tradução: Permanência, retirado do blog Reconquista.

Contra o mito do bom civilizado Agosto 13, 2008

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Durante meu encontro com Nikkon, perguntei sobre as outras coisas que ele pensava da Europa:

“O senhor viveu na Europa”, perguntei “O que o senhor pensa disso? Qual é a sua opinião sobre a civilização Ocidental?”

“Civilização!”, ele exclamou “A civilização Ocidental é um ersatz!”

Ele enfatizou a palavra “ersatz”. Esta palavra é de origem germânica. Significa substituto, enganador, falso. Após uma pausa, Nikkon continuou.

“Tudo que está nela: as artes, ciências, filosofias, religiões, é ersatz!

“O senhor acredita realmente que não há nada autêntico, bom, nos países da Europa Ocidental?”

“Nada”, ele respondeu, “Tudo é falso, vazio. A única exceção é a Ortodoxia. Mas até ela é dificilmente encontrada em sua forma genuína, original.”

Após ouvir que eu era Cristão Ortodoxo, o ancião fez uma observação:

“Você deve considerar-se um afortunado. Pois não há nada mais precioso neste mundo que o Cristianismo Ortodoxo. Mesmo com a dificuldade de encontrá-lo em sua forma mais pura, ordene tudo em sua vida de acordo com ele” [1]

No Ocidente moderno, é comum a disputa entre barbárie x civilização, bem x mal, progresso x atraso e assim por diante. Gurdjieff, inteligentíssimo esoterista do século XX, foi preciso ao identificar essa angústia de um amontoado de gente que já perdeu qualquer resquício daquilo que é entendido como civilização tradicional, angústia nascida pela falta de uma cosmo visão tradicional, que criou aquilo que Evola chamava de “mundo de agitados”, e a saga em busca de “progresso”, “conservação” ou até mesmo “regresso” [2], sem se dar conta que, neste mundo de agitados, todos correm para o mesmo abismo, embora por caminhos distintos.

As críticas de tradicionalistas, não só os da escola perenialista, como também de religiosos de vida contemplativa ou de sábios que tiveram algum contato ou pertenceram a uma civilização tradicional, sempre levam ao mesmo ponto: todas as correntes e ideologias ocidentais que concorreram entre si não passam de faces da mesma degeneração. O staretz Nikkon, citado acima, era um monge do Monte Athos praticante do hesicasmo, a contemplação e oração silenciosa, quando jovem viajara por toda a Europa ocidental, e teve a oportunidade de conhecer o modo de vida e pensamento europeu. Sua decepção foi grande, e não por menos: àquele acostumado à vida da antiga Grécia [3], por exemplo, a vida do europeu, quer do acadêmico quer do simples trabalhador, é muito agitada, inconstante e repleta de incertezas.

Russel Means, líder sioux e ativista dos direitos dos nativos norte-americanos, também notou esta tragédia do homem europeu, e foi ainda mais adiante em sua análise do capitalismo, comunismo, hegelianismo, cientificismo e alhures. Neste discurso, nota-se os laços entre a Tradição dos nativos norte-americanos e outras Tradições, como o Cristianismo. Como por exemplo, a crítica ao excesso de valor dado à palavra escrita, que para São João Crisóstomo nos mostrava o quão degradados somos [4], a crítica da transformação da natureza em propriedade privada [5], e neste ponto tanto marxismo como capitalismo são semelhantes, pois ambos desafiam a ordem natural das coisas.

Obviamente, tal raciocínio é capaz de levantar diversas questões e críticas, do tipo: como explicar o aumento da qualidade de vida, o avanço tecnológico e farmacêutico que permite o prolongamento da expectativa de vida, ou ainda as intermináveis guerras travadas entre nativos de todo o mundo. Mas tudo isso, se analisado e comparado friamente, nos mostra os problemas existentes entre os nativos não foram solucionados pelos bons civilizados, como também, aumentaram.

Em primeiro lugar, não só podemos como devemos questionar o conceito de qualidade de vida do homem ocidental, principalmente do primeiro mundo. Muito daquilo que lhe faz se orgulhar, como o conforto da nossa civilização contra a vida na natureza e todos seus perigos, não passa de um problema maior ainda. Os tradicionalistas acusam o homem moderno de perder a capacidade de contemplação, e isso pode muito bem deixar de ser uma acusação para se tornar uma constatação: qual homem ocidental é capaz de práticas contemplativas como o hesicasmo, meditação ou a adoração silenciosa dos nativos norte-americanos? Todo este conforto, construído no desvio da ordem natural das coisas, custou primeiro a capacidade de contemplação, e hoje custa a sanidade. O homem sente cada vez mais necessidade de trabalhar mais para obter mais conforto, e os avanços tecnológicos que aumentam seu conforto também fazem com que ele trabalhe cada vez mais. Distúrbios como DDA e doenças como depressão aumentam anualmente, e o crítico do uso de “drogas” feito pelos nativos não se dá conta que o homem moderno é cada vez mais dependente de remédios contra depressão, distúrbios de atenção e transtornos de personalidade. Ele não consegue ver qualquer relação entre estes problemas e o fato do homem moderno não viver mais em uma civilização de fato, mas sim num amontoado de indecisos, agitados que já perderam qualquer noção real sobre humanidade, transcendência e realidade.

Já os índios, citando J.P. McEvoy, “talvez não seja o progresso… mas que importa?”. Em países cristãos que ficaram livres do Imperialismo de Carlos Magno, como também do legalismo dos escolásticos e posteriormente de uma das maiores tragédias da humanidade, a Reforma Protestante, nota-se uma visão diferente sobre a religião, bem como o impacto da vida religiosa dessa população. O fervor dos russos anteriores às deformas de Pedro o Grande causavam espanto até aos emissários de Patriarcados ortodoxos como da Antioquia, já influenciado negativamente pelo Ocidente devido ao seu intercâmbio educacional com Roma devido ao domínio turco [6]. Já nos vilarejos gregos sob ocupação turca, onde os pais não tinham condições financeiras para enviar seus filhos para estudar no Ocidente, a vida era tranqüila e religiosa, semelhante à Rússia antes de Pedro, pois o domínio turco não era capaz de afetar o andamento da vida das pessoas que tinham um foco verdadeiro na vida. O que causava mais espanto era a concentração das crianças nos longos ofícios divinos, que em pé rezavam ao lado dos adultos, por horas, sem qualquer reclamação ou agitação. Algo semelhante às crianças dos nativos, que escutam por horas os ensinamentos orais de seu povo, como nota o professor Luiz Pontual, que coroa sua explicação com uma belíssima foto:

“É muito ilustrativo a este respeito o fato das crianças índias serem extremamente calmas e mesmo concentradas. São capazes, como pudemos testemunhar em mais de uma ocasião, de permanecerem durante duas ou mais horas em perfeita tranqüilidade , enquanto adultos conversam ou desempenham tarefas. Pode-se talvez compreender um pouco tal traço inusitado para os modernos se repararmos que um índio, assim como um camponês medieval, acompanha os vários momentos que constituem, por exemplo, o ciclo da alimentação. Ajudam ou vêem os pais desde o preparo da terra, passando pela semeadura, o brotar e o desenvolvimento das plantas , até sua colheita e preparo final para alimentação. É algo um tanto diferente, por exemplo, de um insuportável garoto super-ativo detonando um pacote de cornflakes…ou um hot-dog !”

Portanto, os ortodoxos mais sensatos como o Conde Lucas Notaris preferiam o turbante do sultão que a tiara do papa, já que enquanto o domínio turco custava apenas algumas vidas vez ou outra e um pouco de dinheiro, a aproximação ao degradado Ocidente custava a alma e o próprio modo de vida oriental. Os turcos não eram capazes de alterar a vida tranqüila e religiosa dos habitantes da Anatólia e da Trácia, mas a influência ocidental conseguiu lançar a Rússia nas maiores trevas de sua história, e logo em seguida jogou a Grécia sob jugo de Venizelos à guerra e decadência espiritual, em busca do tal progresso. É compreensível tanta angústia e desespero do Ocidental: ele pensa que está sempre atrasado, mas não sabe em qual local deve chegar.

Por isso o staretz alerta sobre onde encontrar a verdadeira Ortodoxia: a vida ortodoxa não envolve apenas a fé, ou a fé e um corpo de códigos morais a ser seguido, mas também toda uma visão de mundo [7], e que não pode existir entre a degradação da modernidade. Hoje em dia, lamentamos muito quando vemos fiéis exigindo a liturgia em vernáculo, padres desmerecendo o essencial da tradição como a batina ou a barba e cabelos longos, pois se trata de quem está muito próximo do ideal, pois bastaria olhar para algumas décadas atrás e perceber o quanto isso é importante e estava vivo, fazia parte de nosso cotidiano; enquanto os ocidentais já não têm a mesma sorte, pois passam por um processo de decadência gradual e longo, e possuem idéias muito vagas e imprecisas sobre tradição, pois a vida sob princípios tradicionais é algo que está muito distante, como uma abstração ou histórias de passado muito distante.

Por estas razões, não consigo me alinhar ou até mesmo ter como “mal menor” correntes como o conservadorismo, que embora aparentemente menos maléfica que o comunismo, faz parte do mesmo processo de degradação, e não é menos pretensioso, pois também se coloca como o dique que impede a invasão da barbárie, quando também é um filho desse mito do bom civilizado, aquele Homem Universal repleto de autocrítica, dúvidas, problemas e soluções, sempre colocando as mãos imundas e cheias de sangue naquilo que já estava ordenado.

[1] Messages From The Holy Mountain, Dr. Constantine Cavarnos, Cap. 6, pgs. 31,32.

[2] https://lasciateognisperanza.wordpress.com/2008/04/26/revolucao-e-contra-revolucao/

[3] Em The Elder Ieronymos of Aegina, de Pedro Botsis (Monastério da Santa Transfiguração, Massaschusetts, 2007), o autor nos conta o espanto de São Jerônimo ao chegar em Atenas, depois da troca de população entre Grécia e Turquia devido às insanidades de Venizelos. O santo, ao desembarcar em Atenas, chorou ao ver a falta de piedade religiosa e o pouco caso com a vida espiritual da população que não vivia sob domínio turco há muito tempo, e lembrava como a vida em sua antiga vila da cidade de Iconium (hoje Konya), na Anatólia, era muito mais piedosa. Para se ter uma idéia, na pequena vila onde o staretz foi criado, não só os monges como também boa parte da população tinha o costume de praticar a oração com lágrimas nos olhos, algumas vezes encharcando o chão das pequenas e lotadas igrejas de fiéis que clamavam por perdão e choravam durante os ofícios divinos.

[4] cf. I Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, São João Crisóstomo

[5] cf. Homilias sobre os Salmos, São Basílio Magno; Sétima Homilia sobre o Hexameron, São Basílio Magno; Sobre o Eclesiastes, São Gregório de Nissa. Uma das mais impressionantes é esta homilia de São João Crisóstomo sobre a I Epístola a Timóteo:

“São belas as roupas de seda? Na realidade, são tecidos produzidos por vermes. Sua beleza é convenção e preconceito humano, não coisa natural. Se você olhar uma moeda de bronze recoberta por uma camada de ouro, logo admira e diz que a moeda é de ouro. Somente os especialistas na matéria lhe mostram o engano e, com o desengano, vai-se a admiração. Vê como a beleza não está na natureza? O mesmo acontece com a prata. Caso vir um pedaço de estanho, você o admira como prata, assim como admirava o bronze por ouro. É preciso que haja pessoas que nos ensinem o que deve ser admirado. não bastam os olhos para discernir. Isto não acontece com as flores, que são mais belas que ouro e prata. Se vir uma rosa, não precisa que lhe digam que aquilo é uma rosa. Você é capaz de distinguir por si próprio entre uma anêmona e uma violeta. O mesmo ocorre com os lírios e as demais flores. Logo, todo o ouro é uma simples questão de preconceito. E, para que fique demonstrado que toda essa funesta paixão é uma simples questão de preconceito, basta que me responda: se o imperador decretasse que a prata vale mais que o ouro, não se transformaria seu amor e sua admiração? Veja a que ponto somos dominados em tudo pela avareza e pela opinião. Que isto seja assim e que as coisas sejam estimadas por sua raridade, não por seu valor natural, prova-o o fato de existirem entre nós frutos desprezados, que são estimados na Capadócia, assim como há outros que nós estimamos e que têm ainda maior valor na terra dos seres donde vêm os famosos tecidos de seda. O mesmo fenômeno se dá na Arábia, terra de perfumes e na Índia, mãe das pedras preciosas. Em conclusão, tudo é preconceito, tudo é convenção humana. Nada fazemos judiciosamente, mas tudo ao acaso.”

[6] cf. The Orthodox Church, Timoty Ware, Part. 1, Moscow and Petersburg, 1º Ed., 1968;  The Travels of Macarius,  Patriarch of Antioch; London, The Oriental Translation Fund, 1836, Book VII.

[7]http://tradortodoxas.blogspot.com/2008/01/o-deserto-no-quintal.html

O problema do Não-Ser Agosto 5, 2008

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O ponto chave dos erros de Guénon – que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado, nem mesmo seus concorrentes da escola schuoniana – é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das ‘possibilidades de não-manifestação’. Esclarecida e derrubada essa doutrina intrinsecamente absurda, manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo, bem como sua via de conciliação. Explico isto mais extensamente em meu Diário Filósofico. – Olavo de Carvalho, nota de rodapé em “O Jardim das Aflições”

Primeiramente, porque Olavo considera absurda a doutrina do Não-Ser e das possibilidades de não-manifestação? Isso pode ser explicado através de outra explicação de Olavo:

E Deus? Se imaginarmos um Deus transcendente ao universo, um Deus que não fosse o próprio Universo, mas que estivesse fora dele, estaria Ele fora necessariamente e sempre, ou seria um aspecto transcendente do próprio Universo? Ora, é claro que Ele é um aspecto do Universo que não pode se reduzir a nenhuma de suas partes e que é de certa forma transcendente a si mesmo, porque inclui toda a possibilidade ainda não realizada no universo físico. Essa possibilidade existe, e ela tem de se autoconhecer. Imagine se assim não fosse: a possibilidade transcendente que desconhece a si mesma e que só nós, seres humanos, conhecemos…Logo, é claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente a tudo. – Olavo de Carvalho

Ora, as possibilidades de manifestação e as impossibilidades de manifestação, juntas, compõem o domínio propriamente dito do Ser, nada sobrando para além dele senão um conceito vazio. Na verdade a expressão Não-Ser só vale como figura de linguagem, para designar os aspectos superiores e mais sublimes do Ser mesmo, seu lado misterioso e eternamente desconhecido, ou imanifestado, portanto qualidades do Ser e não uma outra entidade substancialmente distinta. Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito. Olavo de Carvalho, Diário Filosófico

Quando se usa a expressão ‘ser supremo’, se altera totalmente aquilo que Deus é: origem de todos os seres. Por que existe o ser e não antes o nada? Se se coloca essa pergunta, existe um ser, um nada, e uma causa. Essa causa não é nem um ser, nem o nada. Isso jamais foi contestado. A existência de Deus é inerente à própria existência. O poder que gera a existência não é uma primeira causa que está atrás de uma série de causas. Ele é inerente à existência mesma. A primeira causa já seria um ser, já seria uma existência. Se você enxerga Deus como a possibilidade da existência, não se pode usar a palavra ‘ser’ para Deus. Todo religioso tem de saber disso. A pessoa que não é capaz de raciocinar em termos da totalidade da existência, evidentemente não pode entender do que estão falando, aí ela inventa uma coisa chamada ‘ser supremo’, um ‘serzão’, que não é a definição de Deus. Isso virou um ser que cria outros seres. Mas então, quem criou o primeiro ser? Deus é a possibilidade universal, a onipotência. Se você o define como ‘ser’ e tem de provar a existência ou inexistência do mesmo, você está num mato sem cachorro. Seriamente falando, não se discute a existência de Deus. A existência está sempre presente. Conceber a possibilidade hipotética da inexistência de tudo é a condição de perceber o poder da existência, a presença da existência. E perceber essa existência é perceber Deus. Os ateus não acreditam num ‘ser supremo’, mas acreditam na existência. Sendo assim, eles não são ateus. A discussão entre ciência e religião é muito primária, é uma vergonha. A onipotência, a presença da experiência está aí, mas você não pode obrigar uma pessoa a olhar para lá, não se pode provar nada.
– Olavo de Carvalho

Para resumir a doutrina do Não-Ser, antes de começar a defender o ponto de Guénon criticado por Olavo, podemos dizer da seguinte forma: o Não-Ser é todo atributo divino que jamais se manifestará, como a unicidade. A afirmação que Deus não é pode parecer absoluta a princípio, mas, quando esclarecemos o que Guénon entendia como o Não-Ser, bem como buscamos nas fontes da Tradição, a base das pesquisas de Guénon, notamos que Guénon não estava distante do Cristianismo nem da Tradição no que diz respeito a essa doutrina.

…Para designar o que está assim fora e além do Ser, estamos obrigados, na falta de outro termo, a chamá-lo Não-Ser; e esta expressão negativa, que, para nós, não é, em nenhum grau, sinônimo de «nada» como parece sê-lo na linguagem de alguns filósofos, além de estar diretamente inspirada pela terminologia da doutrina metafísica extremo-oriental, está suficientemente justificada pela necessidade de empregar uma denominação qualquer para poder falar disso, junto à precisão, feita já mais atrás, de que as idéias mais universais, sendo as mais indetermináveis, não podem expressar-se, na medida em que são expressáveis, senão por termos que são, com efeito, de forma negativa, assim como vimos no que concerne ao Infinito… – René Guénon, Estados Múltiplos do Ser – Cap. III

Que diversos padres cristãos escolheram a via apofática para tratar de Deus não é segredo a ninguém.

…Não tem corpo, nem figura, nem qualidade, nem quantidade, nem peso. Não está em nenhum lugar. Nem a vista nem o tato o percebem. Não sente nem a alcançam os sentidos. Não sofre de desordem nem perturbação procedente de paixões terrenas. Que os acontecimentos sensíveis não a escravizam nem a reduzem à impotência. Não necessita de luz. Não experimenta mudança, nem corrupção, nem decaimento. Não se lhe acrescentar ser, nem ter, nem coisa alguma que caia sob o domínio dos sentidos… -Dionísio Areopagita. Teologia Mística, Cap.1

E no budismo:

…Desta maneira, Shariputra, na vacuidade não há forma, não há emoção, não há percepção, não há manifestação, não há consciência; não há olho, não há ouvido, não há nariz, não há língua, não há corpo, não há mente; não há aparência, não há audição, não há olfato, não há paladar, não há tato, não há darmas, não há datu da visão, e assim por diante até chegarmos a: não há datu da mente, não há datu de darmas, não há datu da consciência da mente; não há ignorância, não há extinção da ignorância, e assim por diante até chegarmos a : não há velhice e morte, não há fim para a velhice e a morte; não há sofrimento, não há origem para o sofrimento, não há cessação do sofrimento, não há caminho, não há sabedoria, não há realização,e não há não-realização… – Sutra do Prajnaparamita

O que Olavo quis dizer com “… Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito…” ? Aqui, precisamos fazer uma ressalva importante: a idéia de dois Brahmans, apara Brahman e para Brahman, um manifestado e condicionado por Maya (apara Brahman), outro o ser transcendental e livre de toda dualidade (para Brahman), não é uma idéia criada por Guénon, mas sim presente no hinduísmo. Costuma-se dizer que ao tentar qualificar para Brahman com qualquer atributo, ainda que infinitos, já não está mais se tratando de para Brahman, mas sim de apara Brahman. Outra vez, temos o que pode parecer um absurdo ou uma contradição gritante, e de fato, aos mais acostumados ao aristotelismo, essas exposições do hinduísmo soam absurdas. No entanto, faz-se mister relembrar que Guénon era um expositor da doutrina Tradicional, e seu fundamento era a Tradição, que lhe dá boa razão, vejamos alguns exemplos:


O que não pode ser visto chamamos invisível

O que não pode ser escutado, inaudível

Quando tocamos e não sentimos, dizemos que é impalpável.

Esses três objetos não podem ser sondados

desta forma, confundem-se e são considerados como uno..


…Sua origem está lá onde não existe qualquer ser.

Sua forma é sem forma, sua figura sem figura.

Ele é o indeterminado… Tao Te King, 14

Com relação a Ele não há antes, nem depois; nem alto nem baixo; nem perto, nem longe, nem como, nem o que, nem onde, nem estado, nem sucessão de instantes, nem tempo, nem espaço, nem ser. Ele é tal como é. Ele é o Único sem necessidade da Unidade. Ele é o singular sem necessidade da Singularidade. – Ibn Arabi, Tratado da Unidade


Prosseguindo, portanto, em nossa ascensão, afirmamos que [a Causa] não é alma, nem inteligência, não possui imaginação, nem opinião, nem palavra, nem pensamento, não é palavra ou pensamento; não é objeto de discurso, nem de pensamento; não é número nem ordem, nem grandeza, nem pequeneza, nem igualdade, nem desigualdade, nem semelhança, nem dessemelhança; não está parada nem se move, não repousa, não possui uma força, nem é uma força; não é luz, não vive e não é vida; não é essência, nem eternidade, nem tempo; não admite sequer um contato inteligível; não é ciência, nem verdade, nem reino, nem sabedoria; não é uno, nem unidade, nem divindade, nem bondade, não é tampouco espírito, segundo sabemos; não é filiação, nem paternidade, nem quaisquer das coisas que podem ser conhecidas por nós ou por qualquer outro ser; não é nenhum dos não-seres e nenhum dos seres, nem mesmo os seres conhecem-Na enquanto existe; [a Causa] tampouco conhece os seres enquanto seres. Não é razão, nome ou conhecimento, não é treva, nem luz; erro ou verdade; não se Lhe aplicam afirmações ou negações: quando negamos ou afirmamos os seres que Lhe são posteriores, não A afirmamos, nem A negamos. A Causa perfeita e unitária de todas as coisas está acima de toda afirmação, e a excelência dAquele, que está absolutamente separado de tudo que supera toda negação. – Teologia Mística, São Dionísio o Aeropagita, Tradução de Marco Lucchesi, Editora Fissus, 2005, Rio de Janeiro.

A exposição de Guénon está completamente de acordo com o Advaita Vedanta. Swami Krishnananda explica que o universo é a negação de Brahman, um Brahman distorcido. Shankara ensina que o mundo aparece como real assim como uma corda é confundida com uma cobra. Enquanto a ilusão se faz presente, aquele cordão é para o vidente uma cobra real, mas quando a ilusão se esvai, a cobra deixa de ser real. O mesmo se passa com o mundo manifestado. Dois poderes de Maya, o da extensão e limitação, trazem a existência do mundo. O da extensão ao criar uma existência isolada, que atribui o testemunho do ser, a divisão entre vidente e a visão, e a limitação ao dividir o eterno do mundo, que é a causa do samsara.

No plano samsárico, e portanto segundo a interpretação temporal, um homem ignorante é aquele descrito como o sujeito que, após nascer, não consegue compreender que a lei do mundo é dukkha, que não pode ver sua origem, nem se libertar disso ou seguir pelo caminho que a liberação é obtida: a ignorância é desta forma a ignorância das quatro verdades de ariyan. Ao ser determinado por asava, pela intoxicação ou mania, essa ignorância particular estabelece um estado samsárico de existência e determina o substratum (upadhi) que lhe protege. – Julius Evola, A Doutrina do Despertar

No planos de existência mundana (vyavaharika satta) e ilusória (paramartikha satta), ocorre esse jogo entre extensão e limitação, lilla, o jogo divino. Ora, se Maya é o upadhi (substrato) de Iswara, então Iswara é a aparição pessoal de Brahman. Como Guénon considerava o Advaita a exposição Metafísica mais precisa, é de se entender a importância de sua distinção entre o Ser e o Não-Ser. Destarte, não se pode acusar Guénon de possuir uma teoria intrinsecamente absurda sem utilizar o mesmo rigor que Ramanuja utilizou ao tentar refutar o Advaita e lançar as bases para o seu Advaita qualificado, o Vishistadvaita. Até porque, mesmo o ramo heterodoxo do Advaita, o neoadvaita, consegue boas refutações às objeções de Ramanuja, portanto, não parece que Guénon adotou uma linha absurda ou heterodoxa do hinduísmo. A idéia de um princípio manifestado e outro imanifestado superior não é estranha ao hinduísmo.

O problema pode aparecer, de fato, ao tentar familiarizar esta doutrina com o Cristianismo; no entanto, este tema merece um estudo rigoroso e detalhado para si, pois enquanto até algumas passagens de Santo Agostinho parecem um obscuro encontro com o Advaita, e outras de São Dionísio, São Gregório Nazianzeno, Mestre Eckhart e outros místicos cristãos parecem estar de pleno acordo, outras idéias como a deificação e distinção entre essência e energia da Teologia Ortodoxa demonstram uma completa negação ao Advaita. Para finalizar, um trecho de “O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta”, de René Guénon, que ilustra muito bem o que foi tratado aqui.

Lembraremos que tudo o que concerne a este estado incondicionado de Atmâ é expresso sob uma forma negativa; isto é fácil de compreender, pois, na linguagem, toda afirmação direta é forçosamente uma afirmação particular e determinada, a afirmação de algo que exclui outra coisa, e que assim limita aquilo que podemos afirmar . Toda determinação é uma limitação, portanto uma negação; por conseguinte, é a negação de uma determinação que é uma verdadeira afirmação, e os termos de aparência negativa que encontramos aqui são, em seu sentido real, eminentemente afirmativos.

De resto, o termo “Infinito”, cuja forma é semelhante, exprime a negação de todo limite, de sorte que ele equivale à afirmação total e absoluta, que compreende ou abarca todas as afirmações particulares, mas que não é nenhuma delas com a exclusão das demais, precisamente porque ela implica a todas igualmente e “não-distintivamente”; e é assim que a Possibilidade Universal compreende absolutamente todas as possibilidades. Tudo o que pode exprimir-se em forma afirmativa está necessariamente encerrado no domínio do Ser, pois este é em si a primeira afirmação ou a primeira determinação, aquela da qual procedem todas as outras, assim como a unidade é o primeiro dos números e o número do qual todos derivam; mas, aqui, estamos na “não-dualidade”, e não mais na unidade, ou, em outros termos, estamos além do Ser, pelo fato mesmo de estarmos além de toda determinação, ainda que principial.

René Guénon, O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta, Cap.XV

Obras que são fundamentais Maio 1, 2008

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Filosofia da Afirmação e da Negação – Mário Ferreira dos Santos

Certas obras são fundamentais para o melhor entendimento da questão que desejamos abordar nessa comunidade. Além disso, são de capital importância aos que desejam entender porque as revoluções contra as ideologias modernas e materialistas são mais que necessárias, como também não são teorias postuladas por saudosos do passado ou místicos delirantes.

Tais obras são necessárias para que entendamos o que há de errado com o mundo moderno, para que tenhamos a compreensão sobre a raíz mais profunda da tragédia do mundo moderno, e porque ele é tão pernicioso espiritualmente. O espírito tradicional não é apenas uma revolta saudosista, nem uma promessa para volta aos tempos jamais imaginados e tidos como eras inexistentes: é antes de tudo uma revolta contra o estado de miséria intelectual e espiritual que domina o Ocidente. É a compreensão de que todas as ideologias materialistas, de quaisquer posição, não passam de tragédias do espírito e de revolta contra o nosso fim último.

Em primeiro lugar, recomendo a obra Filosofias da Afirmação e Negação, de Mário Ferreira dos Santos. Nesta obra, transcorrida dentre um diálogo filosófico entre amigos reunidos para o estudo e busca à verdade, diversos personagens (que também são alter egos de Mário Ferreira dos Santos), debatem os aspectos das chamadas filosofias da afirmação e da negação.

Os personagens são dividos entre “homens da tarde”, “homens da noite” e “homens da madrugada”, títulos de três romances escritos pelo distinto autor. São “homens da tarde” aqueles pensadores de um livro de só, pensadores que o autor trata como “intelectuais sistemáticos” e “littérateurs estéreis”, incapezes de compreender o esoterismo dos símbolos e penetrar nas mais profundas concepções. Não precisamos navegar muito para encontrar tais tipinhos, quer na direita quer na esquerda. São pessoas que costumam praticar o reducionismo de tudo segundo suas parcas concepções dogmáticas, cujo senso crítico resume-se à mera dictomia de seus maniqueísmos ideológicos e filosóficos.

Já os “homens da noite” são os buscadores, que podem ser comparados a título exotérico com o talib do sufismo, embora, ainda como buscadores, não possam ter a confiança daqueles que já atingiram o fim. Precisam vigiar, cansar as pupilas, lutar contra o duro cansaço de permanecer acordado enquanto busca a luz na escuridão. Tais homens são raros, mas quando perseverantes tornam-se “homens da madrugada”.

Os homens da madrugada são aqueles que, segundo as próprias palavras do autor, ” não sonham mais, sabem. Não esperam nem confiam, porque já encontraram.”

Distantes de todos esses homens, estão os “homens do meio-dia”, que são o sonho dos “homens da noite” e a realização dos “homens da madrugada”.

Sob esse pano de fundo, diversos personagens disputam temas como “Verdade e Ficção”, relativismo, idealismo, universais, teorias do conhecimento, Deus, criação, metafísica, Kant e Platão. Os debates entre Pitágoras, o homem da noite prestes a tornar-se um homem da madrugada, e Josias, o cético “com as marcas da decepção e do desespero gravdas nas faces, e sobretudo nas idéias.”

Percebe-se nessa obra o grande filósofo que foi Mário Ferreira dos Santos. Longe de ser um “homem da tarde”, seu raciocínio é capaz de espantar e maravilhar, pois nunca é apegado à mesquinhez filosófica nem ao ceticismo rebelde. Sua dúvida e questionamento é em busca da verdade, e é essa a diferença entre o homem da noite, o buscador, e o cético mesquinho e infantil. Não se duvida por duvidar, se duvida para encontrar aquilo que é certo, como também não nos apegamos àquilo que nos parece certo sem qualquer questionamento mais profundo, mas sim para podermos não mais esperar, mas sim confiar com fundamento e racionalidade.

Nesta obra percebemos que as diversas filosofias da negação causaram a crise do mundo moderno, e da mesma forma que destruíram os gregos, destruirão o mundo de nosso tempo. Hoje em dia também podemos perceber um pensamento reducionista de aparentes adeptos de filosofias da afirmação, mas que por não passarem de “homens da tarde”, acabaram por criar novas filosofias da negação.

Para solucionar tal problema, o autor postula que esta crise não será resolvida através de uma forçada unidade mecânica, mas sim “pelo poder que une os opostos”, isto é, a transcendência. O autor compara tal conflito com a síncrise e a diácrise, argumentando que a atual diácrise não será solucionada pela síncrese, pois é impossível existir a coesão intrínseca necessária através deste conflito, algo que só se dará pela transcendência.

Tal raciocínio mostra-se presente em todos os diálogos e debates do livro, que chegam a espantar pela exposição rigorosa e detalhada argumentação. Nos tempos em que filósofos são louvados pelo maniqueísmo político e vocabulário torpe, esta obra aparece como verdadeiro bálsamo aos nossos espíritos, nos traz de volta ao raciocínio correto.

De maneira que esta obra se torna fundamental por nos apresentar uma nova solução para os problemas que nos abalam. Uma solução que está muito além dos conflitos entre esquerda x direita, ateus x teístas, evolucionistas x criacionistas e reducionismos alhures.

É deveras uma obra densa, de leitura um tanto quanto complicada, mas que vai rejuvenescer nossa forma de pensar. Talvez pareça um tanto complicada como ponto de partida, mas sua posterior compreensão vale todo o esforço dedicado, pois trará um melhor aproveitamento dos estudos posteriores, já livres de todos os vícios e lástimas que atacam o pensamento moderno.