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Realização Metafísica e Aniquilação Agosto 31, 2008

Posted by Rafael in filosofia, hinduísmo, metafísica, tradição.
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Pois bem, no nyaya, vaisheshika e no purvamimamsa o conceito de abhava,  a não-existência, é dividido em quatro categorias. Muito embora no advaita o conceito de abhava não seja colocado como uma categoria, creio eu que é útil analisar todos os conceitos para melhor entender a realização metafísica, já que muitas vezes a pergunta “qual a diferença entre aniquilação e realização metafísica?” é levantada.

São eles:

1. prag-abhava – a não-existência anterior à criação.
2. pradhavamsa-abhava – a não-existêncioa posterior à destruição.
3. atyanta-abhava – a não-existência limitada, pois o objeto não existe em outro tempo particular além daquele que está limitado no espaço.
4. anyonya-abhava – É a diferença entre uma coisa e outra. Por exemplo: não existe um cachorro que é um gato. O que existe entre o cachorro e o gato é uma não-existência mútua, chamada anyonya-abhava.

Mas, o que isso pode resolver o nosso problema? Bem, sabemos que tudo nos modos de existência material passou a existir durante a criação, e portanto, um gato não é um gato que brotou da não-existência, mas um gato que existia em potência e passou a existir no mundo grosseiro. Desta forma, o realizado é aquele que não opera mais em si mesmo maya ou avidya, e que portanto, está além das ilusões de maya de expansão e limitação.

Utilizando uma outra analogia: peguem uma pessoa que não sabe matemática – ela só saberá que é ignorante em matemática quando alguém lhe fizer questões sobre matemática e ela não conseguir responder. É neste ponto, quando a pessoa se dá conta de avidya, que ela está apta para alcançar moksha.

Então, Brahman é qual dessas não-existência? Nenhuma delas. Brahman não tem origem, nem destruição, o que impossibilita as duas primeiras. Brahman não é limitado em espaço e tempo, e portanto, isso descarta a terceira. Por último, Brahman está além de todos os objetos e imposto em todos eles, portanto, nada é distinto de Brahman, o que descarta a quarta.

Brahman é a única existência real, e se abhava não pode ser Brahman, portanto, abhava também não existe, como a individualidade.

O jivan-mukta, quando se separa do corpo, entra no estado em que o ser é totalmente separado do corpo, o que nos faz concluir que a ligação entre o corpo e o ser é totalmente contrária à natureza do ser. E abhava, tal qual a existência individual, se difere da verdeira existência que é Brahman, e portanto, o sujeito que é aniquilado (como no exemplo citado aqui, ou no aniquilacionismo de alguns padres gregos), se difere do jivan-mukta no que tange à realidade de sua não-existência. A expressão pode parecer absurda e fazer rir os ignorantes, mas para quem acompanhou o raciocínio desde o começo, a conclusão inevitável é essa: a aniquilação (pradhavamsa-abhava) é diferente da proclamação upanishádica “todo rio perde seu nome ao desaguar no oceano”, por lhe faltar uma coisa: a existência real.

Adi Shankaracharya explica em seu mais celebrado trabalho, Atma Bôdha, o que é real:

O mundo é repleto de apegos, aversões, etc., é como um sonho. Ele parece ser real, assim como o sonho parece ser falso quando se acorda.

Todo o mundo manifestado de coisas e seres é projetado pela imaginação pelo o que é o substrato do Eterno e Onipotente Vishnu, cuja natureza é a Inteligência-Existência; como diferentes ornamentos que são feitos do mesmo ouro.

E adiante, explica o que é ser realizado:

Eu sou outro além de corpo e portanto sou livre de mudanças como nascimento, envelhecimento, senilidade, morte, etc. Eu não tenho nada com os sentidos como som e gosto, pois sou sem órgãos.

Eu sou outro além da mente e além disso, sou livre de dor, apego, malícia e medo, pois “Ele é sem fôlego e mente, puro, etc.” é o mandamento das grandes escrituras, o s Upanishads.

Eu sou sem atributos e ações; Eterno (Nytia), sem qualquer desejo e pensamento (Nirvikalpa), sem qualquer sede (Niranjana), sem qualquer mudança (Nirvikara), sem forma (Nirakara), sempre-liberado (Nitya Mukta), sempre-puro (Nirmala).

Como o espaço preencho todas as coisas desde dentro e fora. Sem alterações e o mesmo em todos, sou puro, desapegado, imaculado e imóvel.

Eu sou como o Supremo Brâhman que é o único Eterno, Puro e Livre, Uno, indivisível e não-dual da natureza do Imutável-Conhecimento-Infinito.

Muitas escolas, do vaishnavismo ao budismo, buscaram refutar as exposições de Adi Shankaracharya. Dentro do hinduísmo, as mais conhecidas são as Vishishtadvaita e Dvaita. Segundo os estudos que fiz até hoje, a que chega mais perto de lograr algum êxito é a refutação de Ramanujacharya, principalmente a contida no Vedanta Sutra. No Vedanta Sutra, Ramanujacharya busca refutar diversas afirmações do advaita sobre ser e consciência, a não-existência de diferentes substâncias e outros propugnáculos do advaita.

Para Ramanuja, se há uma substância além de toda diferenciação e que é também o verdadeiro conhecimento, há então uma contradição capital: através do próprio testemunho do Ser sabemos que toda consciência implica diferença, pois todos os estados de consciência possuem coisas que são diferenciáveis no julgamento das próprias coisas. A percepção também ocupa um papel fundamental no argumento de Ramanuja, pois todo conhecimento ocorre através da distinção, entre o determinado e não-determinado, o julgamento “isto é isto, aquilo é aquilo”, é tido como o conhecimento de uma coisa pertencente a uma classe, o não-determinado como o conhecimento da primeira coisa que pertence à alguma classe, e o determinado que é o conhecimento das seguintes, portanto, todo conhecimento é obtido através de alguma distinção.

Para Ramanujacharya, o som (sabda) também denota diferença, pois a palavra (pada), a união de um radical e um sufixo, possui dois significados diferentes , portanto o próprio sentido da palavra é afetado pela diferança, como a sentença que conforme a combinação de palavras e significados denotam a falta de algo que não possui qualquer diferenciação.

Muito embora tal refutação pareça muito lógica, o advaita possui respostas muito satisfatórias a ela. Os Upanishads demonstram um Brahman sem distinção, sem qualidades, sem sentimentos, sem forma, auto-suficiente e não-dual (advayam).

a natureza de Paramatma que é manifestada na metne, indivisa, não-dual, testemunha de toda, distinta de toda causa e efeito, pura… – Taitirya Upanishad II,1

Sou distinto de todo sujeito, objeto e instrumento. Em todos os três estados – jagrat, swapna e sushupti – sou a testemunha que é a pura consciência e que é sempre auspiciosa. – Kayvalya Upanishad, XVIII

Vejo sem olhos, escuto sem ouvidos. Assumo várias formas, eu sei de tudo. Não há ninguém que Me conheça. Eu sou a eterna consciência pura. – Kayvalya Upanishad, XXI

Deixando os Upanishads um pouco, e partindo para o Bhagavatam, que é um dos principais livros dos vaishnavas, vemos também certas passagens que dão razão à interpretação de Adi Shankaracharya:

Tu é o Ser não-dual, a Pessoa primordial, auto-luminosa, infinita, a Causa Primordial, eterna, imperecível, a felicidade em si própria, pura, perfeita e sem seguidor, sem qualquer diferença (nirguna) e imortal.
– Bh. X,14

Ao comentar um trecho do Gita (que tenho como o meu favorito), Adi Shankaracharya explica que o plural é utilizado para denotar a existência de vários corpos, e não a multiplicade do Ser.:

Nunca houve um tempo que todos estes monarcas, você, ou Eu não tenhamos existido, e nem deixaremos de existir no futuro.

na tv evāhaḿ jātu nāsaḿ
na tvaḿ neme janādhipāḥ
na caiva na bhaviṣyāmaḥ
sarve vayam ataḥ param

Comentário de Adi Shankaracharya:

Mas por que não devemos nos lamentar? Porque somos eternos? Como? Na tu eva, mas certamente isto não é um fato, que jatu, em qualquer tempo; aham, I; na asam; não tenhamos existido; pelo contrário, eu existo. A idéia é que quando os corpos nascem ou morrem no passado, Eu existo eternamente. Da mesma forma, na tvam, não que você não exista, você certamente existe. Ca, tammbém, na ime, estas coisas; jana-adhipah, reis; não existem. Por outro lado, eles existem. E similarmente, na eva, certamente; vayam, nós, sarve, tudo; na bhavisyamah, deixaremos, atah param, depois disso; mesmo após a destruição deste corpo. Pelo contrário, nós deveremos existir. Isso significa que nos três tempos (passado, presente e futuro) somos eternos na nossa natureza como Ser. O plura (nós) é usado para a diversidade de corpos, mas não no sentido da diversidade do ser.

O advaita pode responder essa objeção de Ramanuja da seguinte forma: suponhamos que vimos o Sr. X, com sua cara de psicopata hoje, pela primeira vez. Amanhã temos a infelicidade de encontrá-lo outra vez. Você pode duvidar de ter visto o mesmo Sr. X, caso tenha feito a sensata questão de esquecer sua face. Mas você não vai duvidar que foi você que viu o Sr. X ou outra tenebrosa personagem em seu lugar.

Como o seu “eu” não se alterou, é percebido então a verdadeira natureza do Ser imutável. Toda distinção nasce da ignorância, quando o verdadeiro conhecimento é obtido, a distinção some.

Então, a refutação do advaita para esta objeção pode ser resumida assim: o objeto não é a última realidade. A consciência sim. Então, temos os atributos do objeto na mente que estão sujeitos às coisas que dizem respeito aos estados mentais e análogos. A mente é a visão e o vidente, diz Shankara no Bala Bodhani.

Sri Sadananda, a consciência que está limitada à visão é a consciência ligada à coisa, que por sua vez também é limitada pela consciência ligada às formas de conhecimento, e que é limitada pela mente que é a consciência ligada ao sujeito. Ele explica:

“A percepção através dos sentidos envolve a percepção apenas dos atributos do objeto, já que Brahman não pode ser conhecido fora do conhecedor.”

É possível perceber que a refutação de Ramanuja exposta acima não é suficiente, pois o advaita consegue se sair muito bem através de sua explicação e do uso de uma passagem dos Upanishads:

Ushastta: Você está provando com algumas descrições indiretas de Brahman como a vaca que é isso e aquilo, ou o cavalo que é isso ou aquilo, etc. Explique-me porque Brahman é imediato e direto além dessas descrições indiretas. Explique-me Brahman, que é o ser dentro de todos.

Yagnavalkia: Você não testemunhar que é a testemunha do testemunho, você não pode ouvir o que é o ouvinte do som, você não pode pensar que é pensador do pensamento, você não pode saber que é conhecedor do conhecimento – que é você que está em tudo; e que tudo mais é perecível – com essa resposta, Ushastta não fez mais perguntas. Bṛhadāraṇyaka Brahadaranyaka Upanishad, III,4

Desta forma, o indivíduo ao aparecer como a limitação do Ser, como raio da consciência do ser e como o sonho imaginado (cf. Bala Bodhani), a idéia da individualização do ser torna-se um erro, e Maya faz justamente isso: esconde a natureza indivisível do eterno.

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