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Moksha e individualidade Outubro 30, 2008

Posted by Rafael in filosofia, hinduísmo, metafísica, tradição.
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Os ocidentais, quando se aproximam da filosofia oriental, chegam sem antes de fazer um exame rigoroso de mentalidade, pois imaginam que as controvérsias da filosofia oriental (principalmente a hindu) são de ordem semelhante às disputas filosóficas e metafísicas ocorridas no Ocidente.

Por isso notamos que até estudiosos e eruditos do quilate de um Pe. Leonel Franca acabam por cair em erros primários ao tratar da filosofia hindu [1], pois imaginam que é possível reduzir essas questões à dialética ou até mesmo à erudição. Orientalistas muito mais eruditos que Guénon em diversas áreas, como Max Muller, por exemplo, não compreenderam os diversos aspectos fundamentais da doutrina hindu, e serviram como próceres de diversos movimentos modernos que deturpam a doutrina em diversas correntes sentimentalóides, panteístas e reencarnacionistas.

Quando chegamos a tratar desta questão, as dúvidas e problemas oferecidos à nossa mentalidade aumentam ainda mais, já que este assunto causou e ainda causa controvérsia mesmo entre os orientais, com a diferença que entre eles há uma certa noção do que está em disputa.

Em primeiro lugar, os partidários do tomismo ou de outras correntes filosóficas cristãs acreditam absurdamente que a extinção da dualidade é uma espécie de aniquilação. Isso porque, para eles, existência quer dizer necessariamente individualidade, e então já fazem suas apressadas conclusões: “isso [o não-dualismo] é uma doutrina niilista, atéia”, “é aniquilacionismo” e assim por diante. Ora, isso demonstra duas coisas: ignorância, pois o sujeito não tem noção do que o não-dualismo toma como existência o personalismo histérico, com base num dualismo construído a um apego aos filósofos cristãos e principalmente os escolásticos, já que não podemos incluir todos os santos nesta interpretação pois São Dionísio e Mestre Eckhart fugiram um pouco dessa regra.

Lutero, a besta beberrona e fideísta, duvidava da santidade de São Dionísio, que para ele era mais “neoplatonista que cristão”.[2] Como, infelizmente, nosso atual Ocidente lembra mais de javalis selvagens como Lutero que de santos como Mestre Eckhart, é natural que à primeira vista cause um certo espanto as doutrinas não-dualistas orientais.

Os caminhos apresentados pela filosofia hindu, o caminho da gnose (jnana-marga), o caminho da dedicação (bhakti-marga), não são caminhos opostos, mas sim diferentes. Normalmente, a mentalidade ocidental toma o bhakti-marga como o oposto do jnana-marga, o que é falso, pois o que os defensores das duas escolas, em todos os debates públicos feitos até hoje, buscaram apenas identificar o seu caminho como o summum bonum, aquele que realmente liberta de todo sofrimento e ilusão. Enquanto o bhakta afirma que a experiência do jnani, embora existente, é uma ilusão diante da verdadeira satisfação que é serviço devocional à Personalidade Suprema, o jnani, pelo contrário, afirma que o estado do bhakta, embora existente, é ilusório, pois está preso dentro da individualidade que é a separação de Brahman.

No entanto, para nós é mais fácil entender o bhakti-marga que o jnana-marga, pois fomos criado com aquela idéia de um céu de anjos sentados nos nuvens, tocando harpa, com os salvos contemplando a divindade.

Conforme expliquei acima, há muita incompreensão aqui no Ocidente em relação ao não-dualismo, principalmente devido a cousas como a injusta excomunhão de Mestre Eckhart, a visão dominante do neoplatonismo como gnóstico e essencialmente anticristão. Com isso, padres como Santo Evrágio, São Máximo o Confessor e São Dionísio são jogados para baixo do tapete, e qualquer estulto armado de um manual tomista pode zurrar seus anátemas e condenações numa questão que não é para o seu bico.

Os complexos Upanishads, em seus vários koans[3] e passagens obscuras, lançaram cousas que são discutidas e interpretadas até hoje, como essa do Brhdaranayak Upanishad:

“Quando o sol se apagar… a lua se apagar… o fogo desaparecer… o discurso calar, qual luz a pessoa terá?”

A questão de como algo corruptível e sujeito à morte e devir pode “tornar-se partícipe da natureza divina” ou “voltar a Brahman” foi respondida corretamente por Mestre Eckhart, com sua doutrina do “esvaziamento do ser”, que consiste no esvaziamento do indivíduo para que o vazio seja completado por Deus, até que este vazio se torne completo para que Deus preencha a tudo.

Moksha é o fim da intelecção, que é diferente da destruição do intelecto, já que onde não há mais distinção entre visão e vidente, cessa também a intelecção. Aos que acham isso muito distante do Cristianismo, trazemos uma citação de São Dionísio:

“É então somente que, ultrapassando o mundo em que se é visto e onde se vê, Moisés penetra na Treva verdadeiramente mística do não-cognoscível; é aí que faz calar todo saber positivo, que escapa inteiramente a toda compreensão e toda visão, porque ele pertence inteiramente Àquele que está além de tudo, porque ele não pertence mais a si mesmo nem pertence a nada de estranho, unido pelo melhor de si mesmo Àquele que escapa a todo conhecimento, após ter renunciado a todo saber positivo e, graças a este próprio não-conhecimento, conhecendo para além de toda inteligência.” Obra Completa, Pseudo-Dioníso o Areopagita (sic), Paulos, 2004, Pg. 132

Mestre Eckhart segue de forma semelhante: “O que o novato teme é o gozo do sábio; o reino de Deus não é para ninguém exceto os totalmente mortos.” (I, 419).

Pois essas palavras não parecem muito semelhantes ao que Krishna diz a Arjuna no Gita? “Aquele que abandona todos os desejos materiais torna-se livre da saudade dos sentimentos de ‘eu’ e meu’, alcançando a paz.” (BG 2,71, grifos meus)

No livro do Apocalipse, São João relata uma cidade que “não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina” (Apocalipse 21,23); semelhante ao Mundaka Upanishad “Lá o sol não brilha, nem a lua ou as estrelas, nem essas luzes, e muito menos o fogo. Quando ele brilha, tudo brilha depois dele; por sua luz tudo é iluminado” (2,2,10).

Essa escuridão divina (a mesma escuridão divina de Êxodo 20,21), que é a iluminação divina que não é iluminada, o desconhecimento que nenhum conhecimento pode conhecer (cf. Carta de São Dionísio a Gaio), está além de qualquer compreensão é o “desconhecimento transcendente”.

Neste desconhecido, também chamado de agnosia (o estado que São Dionísio descreve como o “não saber nada, que está acima de todo conhecimento), tudo que é de ordem invidual (vontade), se extingue, como diz São Boaventura “reduz à humildade as idéias insensatas da tua vontade, e empenha-se em subjugar a besta cruel. Estás preso à vontade; esforça-te em desatar este laço que não poderia ser rompido. Tua vontade é tua Eva.”

Isso também aparece na história de Leander Märchen, do homem que acordou no céu e pediu a São Pedro todos os confortos que sonhara a vida toda. Depois de um tempo, quando foi reclamar com São Pedro sobre a monotonia, o sujeito descobriu que na verdade estava no inferno, pois no céu não há esse tipo de vontade, de seguir os próprios desejos, mas apenas a vontade divina.

[1] – Noções de História da Filosofia, , Cap. I, Pe. Leonel Franca, V Edição, 1930

[2] – The Neoplatonic Philosophy of Dionysius the Areopagite, Eric D. Perl, State of New York University Press, 2007

[3] – Obviamente, somos sabedores que a palavra koan pertence ao Zen Budismo. A palavra é utilizada aqui apenas para exemplificar trechos dos Upanishads que estão além do entendimento humano, impossíveis de compreensão através da mera razão humana.

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Comentários»

1. ronaldrobson - Fevereiro 5, 2009

Daher, seu blog é uma maravilha num meio tão carente de pessoas empenhadas em compreender esotorologia a sério. Eu, por exemplo, sou profundo desconhecedor da matéria, embora interessado. Desde já, então, acompanharei seu blog com atenção.

Abrç.,

R.


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