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René Guénon e a Tradição Junho 7, 2011

Posted by Rafael in hinduísmo, metafísica, oriente e ocidente, tradição.
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Um dia a morte encontrará a tôdos, então que se esclareçam as coisas antes do fim do Mistério, pois saber do mistério na chegada de seu fim não tem graça.

1. Vou aproveitar para esclarecer uma coisa e acabar com tôda essa frescura: parem de procurar em Guénon um passatempo intelectual. Guénon não escreveu para fornecer erudição. Recebo acá pergunta de gente em busca de libros sobre Guénon, esoterismo, hermetismo, iniciação e assuntos correlactos. MANS noto que, em tôdos estes casos, não há um interesse em TENTAR realizar estas vias de realização – há a mera tentativa para compreender, no sentido de compreensão acadêmica, os ensinamentos chamados “ocultos”, “esotéricos” ou “perenes”. Se o q você deseja é isso, não perca seu tempo com Guénon. Procure nas librarias e bibliotecas as referências, há muitas.

A obra de Guénon é uma tentativa para explicar, em termos acessíveis, como buscar as duas formas de realização, individual e supra-individual. Tôda a obra de Guénon, mesmo a política, é influenciada pela doutrina não-dualista, e um dos trabalhos de Guénon foi a demonstração da existência de doutrinas não-dualistas no Oriente e Ocidente.

A doutrina não-dualista é de natureza expositiva. Não é uma doutrina que pode ser ensinada pela dialética. Algum parvo pode dizer que Shankaracharya derrotou tôdas as outras darshanas e o budismo através de debates dialéticos. MANS aqui é preciso fazer uma separação: os debates realizados por Shankaracharya, como por outros munis ou até mesmo outros representantes de doutrinas não-dualistas além do Advaita Vedanta, não buscavam levar o debatedor à realização, buscavam, primeiro, convencê-los do erro de suas doutrinas samsáricas, para depois iniciá-lo no verdadeiro caminho, para que o vencido, transformado em discípulo, conseguisse atingir moksa. É possível dividir a obra dos mestres, apologetas e mistagogos das doutrinas não-dualistas em diversas partes, MANS a que trata do caminho para a realização é um só: a parte prática.

E qual é a parte prática? Certamente não é aquela que vocês estão buscando. Vocês buscam saciar curiosidade, buscam coleccionar libros e erudição. Não adianta você ler a definição de samadhi. Ou achar que compreendeu o que é moksa. A exposição de moska não passa da transformação da experiência do realizado em palavras, através de sua misericórdia. O que está ali não é a realização de facto.

Guénon notou como as doutrinas não-dualistas foram confundidas entre diversas bobagens “esotéricas” de europeus dos círculos “ocultistas” da Europa, que misturavam incompreensão das doutrinas orientais, tanto por questões doutrinárias ou erros de tradução, com doutrinas iluministas e pietistas, e então apresentou a sua obra como “limpeza de terreno” (nas palavras do Luiz Pontual). Obras como “O Erro Espírita” e “Teosofia” não são apenas documentos para refutar falsas religiões, MANS sim manuais de esclarecimento sobre tôdo uma mentalidade torta, que influenciou praticamente tôdo o esoterismo Ocidental e que levou seus braços até o Oriente (procurem sobre a Arya Samaj do Swami Dayananda).

Portanto, você precisa ter em mente que, ao ler Guénon, você terá que estar com disposição para buscar alguma forma de realização. Se você deseja apenas saciar sua curiosidade, pegue qualquer livro de Guénon e vá ler. MANS não é algo que recomendo. Se você é católico carola, ateísta militante, evangélico ou travesti do Redondo, vá gastar seu tempo com outra coisa, pois a obra de Guénon não é de leitura agradável, muito menos vai te ajudar em qualquer coisa que está dentro do círculo de seus interesses.

A obra de Guénon é para gente como o então Eugene Rose, futuro Bem-Aventurado Monge Serafim Rose, que após uma vida perdida como homossexual e agnóstico, decidiu buscar uma alternativa ao niilismo ocidental. E então chegou ao Taoísmo, mas as previsões pessimistas e o sumiço de seu Mestre fizeram com que o leigo Eugene Rose visitasse uma Igreja Ortodoxa em São Francisco, onde encontrou São João (Maximovitch) de São Francisco e Shangai, e o resto faz parte da história. MANS isso prq o Pe. Serafim era uma pessoa em busca de algo sério. Não era um curioso, ou um sujeito atrás de uma tradição para se aparecer no orkut. Não era como certos “defensores da tradição” que vemos na internet, que comentam sobre a Sharia ou a questão dos wahabitas para em seguida comentar sobre vagina de atriz pornográfica.

Para essa gente, a obra de Guénon só servirá para trazer novas manias. Se você é um desses, não venha aqui me pedir bibliografia, explicação sobre Atma, Brahma Nirguna, Apara Brahman, sufismo e etc. Recomendo que você passe a dedicar seu tempo com a punheta, integralmente, pois já que você gosta tanto de onanismo, passe seu tempo com aquilo que te dá prazer. Não falo isso com qualquer teor moralsita, aqui falo de forma prática: é mais fácil você, por algum choque ou experiência no coito, atingir a realização com o caralho entre 5 cinco dedos do que lendo “O Homem e seu devir segundo o Vedanta”.

Então, se ainda quiser saber a pergunta para a primeira questão, faça um exame de consciência. Se ainda desejar, volte e pergunte, que eu entro em contacto via msg particular e explico tudo. Se você tentar me enganar, não pense que eu serei o maior prejudicado. Não sou burro, faço um caminho de estudos para você em 15 minutos, no máximo. O que não é nem 1% do tempo que você irá perer caso tente me enganar.

2. Fuja dos “tradicionalismos”. Religião é Tradição, não é tradicionalismo. O tradicionalismo é uma doença da Tradição. Os ambientes tradicionalistas foram criados para satisfazer necessidades afectivas e intelectuais de pessoas com diversos tipos de insatisfação. Por isso tôdo ambiente tradicionalista está masi preocupado em impor formas de comportamento, que vão desde o fumar cachimbo até formas de comportamento exótico nas coisas mais banais.

Por exemplo: num ambiente católico tradicionalista, principalmente da FSSPX, há mais preocupação em exibir conhecimento teórico da Summa Teológica ou fumar cigarrilhas depois da missa, com aquela cara de “mamãe, serei Chesterton”, que em viver a espiritualidade católica (que já é claudicante) de facto. Em ambientes islâmicos tradicionais (shias principalmente), há mais preocupação em exibir uma barbicha e demonstrar conhecimento teórico sobre Irfan que em viver segundo os pilares da Fé, como imitador do Profeta Mohamed (s.a.w). Em ambientes tradicionalistas ortodoxos há mais preocupação em fingir que estamos na Rússia de Ivan ou na Constantinopla de São Fócio que em viver de acordo com os ensinamentos dos startsi de nous iluminado.

Se você quer ter uma idéia geral sobre isso, leia esses artigos do Bem-Aventurado Monge Serafim que, apesar de tratar do ponto de vista ortodoxo, serve como guia para analisar qualquer comportamento religioso:

http://orthodoxinfo.com/inquirers/fsr_88.aspx

http://orthodoxinfo.com/praxis/fsr_87.aspx

http://orthodoxinfo.com/ecumenism/fsr_63.aspx

Se você seguir estes passos, você não cairá no papo dos “tradicionalistas”. Para cair na conversa dos “tradicionalistas”, é melhor cair de uma vez na vida de farra. Falta de realização por falta de realização, é melhor aquela com cachaça, baderna e preguiça. Brincar de santo é perigoso à saúde física. E mental.

O Centro Primordial Outubro 29, 2010

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Aqui, trataremos de questões que há muito precisam de certos esclarecimentos.  Muitos nos perguntam sobre Akakor, Preste João, O Rei do Mundo e outras cousas ligadas direta ou indiretamente a um ponto que é central na Tradição: a ligação com o Centro Primordial. Em primeiro lugar, esclarecemos que, ao longo deste breve artigo, traremos à luz alguns “mitos”, que não devem ser entendidos no sentido dos acadêmicos ou, pior ainda, de algumas correntes neo-pagãs. Somos sabedores de que os mitos não são meras “fábulas” pelas quais os antigos passavam lições morais, muito menos  fatos que ocorreram dentro do espaço-tempo, um delírio comum entre muitas correntes neo-pagãs da atualidade. Na verdade, essas duas interpretações, das quais desejamos, por questões sanitárias, uma distância segura, são filhas de uma só mãe: a modernidade, que privada do conhecimento tradicional, tende a analisar tudo sob um ponto de vista meramente humano. Portanto, é natural que esse tipo de mentalidade crie interpretações moralizantes ou “místicas” (em seu sentido mais degenerado), o que cria um impedimento à compreensão desses assuntos, que exigem uma análise além daquelas limitadas pela mentalidade moderna.

Então, pedimos para o leitor compreender o mito como, nas palavras de Julius Evola, um estado ainda em curso, que ocorre além da dimensão espaço-tempo. Obviamente, trataremos de casos e figuras desta dimensão, como a do Preste João, pois o ponto principal deste artigo – as ligações com um Centro Primordial – pode ser demonstrado através do viver o mito e também através  das ligações deste Centro com figuras, tradições e sociedades durante os séculos.

Começamos, então, com um curioso caso da mitologia assíria: segundo Apolodoro, contam na Eritréia sobre um ser de cabeça humana sobreposta com um peixe, com corpo de peixe e pés humanos, mas possuidor de voz humana, chamado Oanes, que emergia do mar para ensinar a humanidade a construir casas e templos;  além disso, também instruiu sobre as criações das leis e ensinou como plantar as sementes – enfim, ensinou tudo aquilo necessário para a formação da civilização. Antes disso, segundo Beroso, a terra era um “abismo de águas”[1], um local escuro, habitado por criaturas invisíveis e androgynas[2], enquanto os homens habitavam as terras como “bestas do campo”.

Oannes

Na Tradição Hindu[3], vemos a Suprema Personalidade de Deus, na forma dum peixe, que envia um barco para salvar os três mundos submersos nas “águas da inundação”, e instrui o Rei Satyavrata a coletar todas as sementes e ervas para salvaguardá-las num barco, que amarrado ao chifre de ouro do peixe[4], é conduzido pelas “águas da devastação”, durante toda a noite de Brahma[5]. O barco é carregado carregado com as sementes, ervas e sete risis[6] e, durante a jornada, a Suprema Personalidade explica a Satyavrata a Verdade Absoluta – a ciência espiritual, conhecida como sankhya-yoga. Ao final da inundação, Matsya, a `manifestação da Suprema Personalidade em forma de peixe, mata o demônio Hayagriva, para devolver a literatura Védica a Brahma, que despertava de seu sono[7], durante o qual Hayagriva roubou o conhecimento védico.

A manifestação de Vishnu Matsya

No ensinamento hermético-alquímico, são freqüentes as referências às “correntezas das águas” e “escuridão das águas” , e a própria água é representada por um símbolo descendente – .

Na Philosophumena de Hipólito, a alma escrava da morte está em “forma aquática”[8]. Também é recorrente chamar os realizados de “aqueles que foram salvos das águas”[9], o que nos leva novamente até a Tradição hindu, onde Prajapati, criador das águas, mas também dragado por elas, retorna na forma de semente dourada[10]. Notamos algo semelhante em dois fatos da vide Cristo: primeiro, Seu batismo nas águas, com a imersão e subida[11] e, pouco adiante, o Seu caminhar nas águas[12]. Podemos também, abandonando toda interpretação “moral” ou ordinária do mito de Narciso, observar caráter semelhante na água, que atrai Narciso para a morte através do reflexo de sua própria imagem – a ilusão da individualidade.

Assim, entendendo o “arrasto das águas” ou a “imersão nas águas” como a queda na escuridão e ignorância, podemos passar para a compreensão da ligação direta entre a restauração e um Centro Primordial e não-humano (que, como os Vedas, é anadi e aparusheya).

Em uma obra que, infelizmente, caiu no gosto dos lamentáveis “esotéricos”, ou na desgraça dos mais céticos que tomam qualquer cousa do tipo como “peça de anedotário”, notamos muitas outras referências que demonstram as mesmas idéias já expostas aqui. Primeiramente, começamos com um desenho da bandeira de Akakor:

Obviamente, o leitor que já compreendeu o que foi dito até aqui, não precisará de explicações além da própria figura. Logo no início, é descrita a “origem do tempo”, na partida dos deuses, “à hora zero”.

“Esta é a história. Esta é a história dos Servidores Escolhidos. No início era o caos. Os homens viviam como animais, sem razão, sem conhecimento, sem leis, e sem trabalhar o solo, sem se vestirem, nem sequer cobrindo a sua nudez. Não conheciam nada dos segredos da natureza. Viviam em grupos de dois e três, como o acaso os juntava, em cavernas ou nas fendas das rochas. Caminhavam com os pés e as mãos até a chegada dos Deuses. Eles trouxeram a luz.”

A crônica continua com o relato da chegada dos “Mestres Primitivos”, de origem que não pode ser esclarecida “nem pelos sacerdotes”, citando as palavras da própria crônica. O mais curioso, dessa vez, é o surgimento desses sacerdotes: em navios dourados, chegado de Schwerta, um local distante, nas profundezas do universo[13], origem do conhecimento do mundo. Segundo esses mestres, os dois mundos, o da profundeza, origem do conhecimento e o nosso, encontram-se a cada seis mil anos, quando ocorre a volta dos deuses – e tais seres, de origem divina, possuíam seis dedos nas mãos e nos pés. O seis, que forma um hexagrama, e na crônica demonstra a origem divina dos “Mestres Primitivos”, também traz novamente a questão do simbolismo alquímico. Conforme falamos anteriormente, a água, por sua ação descendente, é representada pelo triângulo , descendente, enquanto o fogo é representado pelo triângulo , ascendente, pois a ação da “chama que queima” é ascendente. O hexagrama, que é a junção desses dois triângulos, representa a união do poder sexual, entre macho e fêmea, o que nos leva novamente ao androgyno
. Vemos também, numa gravura alquímica de Petrus Bunus, o rei que recebe a reverência de seis súditos:

Na Spiegel der Kunst und Natur de Stefan Michelspacher, vemos novamente seis seres (reais, guerreiros, sacerdotais) em torno do cume da montanha, o ápice da realização:

Também é importante em Akakor a questão das habitações subterrâneas, cidades fantásticas e maravilhosas, até mesmo para a terra, já habitadas por máquinas fantásticas até mesmo para os dias de hoje:

E os Deuses governaram Akakor. Governaram sobre os homens e sobre a Terra. Tinham navios mais rápidos que o vôo das aves, navios que atingiam os pontos a que se destinavam sem velas nem remos, tanto de dia como de noite. Tinham pedras mágicas por onde viam a distância, de modo que podiam ver cidades, rios, colinas, e lagos. Tudo quanto acontecia na Terra e no Céu se refletiam nessas pedras. Mas as habitações subterrâneas eram as mais maravilhosas. E os Deuses deram-nas aos seus Servos Escolhidos como última dádiva. Para os Primitivos Mestres são do mesmo sangue e têm o mesmo pai.

Curiosamente, nos Vedas há o relato de veículos semelhantes, chamados “vimanas”, desafortunadamente confundidos com “ufos” por aqueles que descartam qualquer explicação divina para as coisas, muitas vezes porque as consideram absurdas – mas acabam por cair em explicações delirantes. Voltando à questão do subterrâneo, temos, também na América do Sul, relatos sobre a Cova dos Tayos, supostamente habitada pelos tayos, seres que, vez ou outra, sobem para ensinar aos homens[14]. Na América do Sul há várias histórias sobre civilizações subterrâneas, habitadas por seres que possuem um contato cada vez mais raro com os homens, e que aparecem sempre como instrutores. Portanto, chegamos a mais um ponto comum indicado pela Tradição: estes seres, originários de cavernas, indicam uma origem comum dos ensinamentos “divinos”.  Então, em Akakor, vemos novamente a ação destruidora das águas, no relato sobre a primeira grande catástrofe:

Isto é o relato de como os homens morreram. O que aconteceu à Terra? Quem a fez tremer? Quem fez dançar as estrelas? Quem fez as águas brotarem das rochas? Numerosos eram os flagelos que atingiam os homem. Estava sujeito a várias calamidades. Estava terrivelmente frio e um vento gelado soprava sobre a Terra. Estava excessivamente quente e a própria respiração das pessoas queimava-as. Homens e animais fugiam em pânico. Desesperados, corriam de um lado para o outro. Tentavam trepar nas árvores, mas as árvores repeliam-nos. Tentavam alcançar as cavernas. Contudo, estas abatem-se e sepultavam-nos. O chão tornava-se teto, e o teto desaparecia nas profundidades. O som e a fúria dos Deuses não se acalmavam. Até os abrigos subterrâneos começaram a tremer.

Na continuidade dos relatos das catástrofes, vemos outro importante aspecto do simbolismo tradicional: altas montanhas erguidas em direção ao sol (a transformação da montanha em caverna após o fim duma era de degeneração, o oposto da transformação da montanha em caverna, que marca a passagem duma era superior a uma inferior) e, novamente, a água aparece como origem de desordem e sua divisão como o fim da desordem.

Três luas passaram e três vezes três luas. Então as águas dividiram-se. A Terra acalmou de novo. As correntes seguiram diferentes cursos. Perderam-se por entre as colinas. Altas montanhas se ergueram em direção ao Sol. A Terra modificou-se quando os Servos Escolhidos deixaram as moradias subterrâneas, e grande foi a sua mágoa. Ergueram o rosto para o céu. Os seus olhos procuraram as planícies, os rios e os lagos. A verdade era terrível; a destruição medonha. E Ina reuniu o Conselho dos Velhos. As Tribos Escolhidas juntaram dádivas: jóias, mel das abelhas e incenso. E sacrificaram-nos para fazer com que os Deuses voltassem à Terra. Mas o céu manteve-se vazio. A era do jaguar começara: época de sangue quando tudo foi destruído. Assim foi separado o elo entre os Primitivos Mestres e os seus servos. E principiou uma nova vida.

Outra vez, a inundação aparece como origem da destruição de nada menos que vinte e seis cidades – o que causou a diminuição significativa das passagens subterrâneas para o mundo interior. Akakor, então vai passando por um ciclo de catástrofe e reconstruções, onde símbolos como a montanha e a caverna  vão desenvolvendo papéis fundamentais, conforme podemos notar em gravuras da hermética obra Splendor Solis :

Agora, passando para a história do Preste João, vemos que a Árvore da Vida desempenha papel fundamental em seu reino – a mesma árvore que, tanto nas Tradições como nos ensinamentos hermético-alquímicos, possui profunda importância. Na tradição nórdica, Ygdrasil é a árvore que guarda a fonte de toda sabedoria, já na tradição hindu, vemos a “árvore invertida”, que esconde em suas folhas Yama, o rei do estado primordial. A Árvore, que aparece em várias tradições como “centro do mundo”, “origem da vida eterna” ou em diversas outras referências à idéia de centro e origem, fornece o caráter sobrenatural ao Preste João, ligado diretamente a seu significado como “Centro Supremo”.  No “Tractatus pulcherrimus”[15], o Preste João é citado como “rei dos reis”, numa clara referência ao “Rei do Mundo”, e curiosamente, o reino do Preste João é descrito em algumas lendas como “o reino das seis tendas” – o número seis, que acabamos de tratar:

Notas

[1] The Sacred Books And Early Literature Of The East, vol. 1, 1910.
[2] Também frequentes na alquimia, seres primordias compostos de dois elementos: o lunar e o solar, como em outra gravura do Splendor Solis:


[3] Cf. Śrīmad Bhāgavatam 8,24

[4] O ouro como restaurador do estado nas “profundezas das águas”, também muito comum no simbolismo hermético-alquímico.

[5] A noite de Brahma, durante o dilúvio e  devastação das águas, também é comum na alquimia: do “estado de sono” nasce as tribulações da alma nas águas. Há também algo semelhante no caso da “tumba de Osíris”, e também no “sono gerado pelo desejo”, que encarcerou a alma no corpo, segundo os alquimistas, como o sono gerador de ignorância, o que equivale ao obscurecimento dos Vedas.

[6] Os “sete homens” correspondentes aos “sete ministros”, criados por Nous demiurgo, deus do fogo e do sopro. Há também que se mencionar a importância do sete, como  nas sete destilações necessárias para obter a “Água Divina”, contrária à correnteza “água das correntezas”, capaz de trazer vida aos mortos.

[7]   Equivalente ao “despertar” relatado pelos alquimistas.

[8] Hipólito, Philosophumena, 5,10, em “A Tradição Hermética”, Julius Evola.

[9] A Igreja, segundo diversos padres, é a “Arca da Salvação”.

[10] Em São Mateus (cap. 13), Cristo usa a semente numa parábola sobre a Vida Eterna.

[11] A água misturada ao vinho da Eucaristia, para simbolizar sua natureza humana. Temos então mais uma relação direta entre a água e a descida em forma humana.

[12] Cristo, cabeça da Igreja, também caminha sobre a água, pois a Igreja é a “arca da salvação”, conforme acabemos de mencionar. No Apocalipse de João, vemos: “Veio, então, um dos sete Anjos que tinham as sete taças e falou comigo: Vem, e eu te mostrarei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas…” (17,1) e “O anjo me disse: As águas que viste, à beira das quais a Prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas.” (17,15) e também a vegetação que cresce “à beira das águas”,  fora da Arca, será condenada à destruição (Eclesiástico 40,16).

[13] Para mais informações sobre a Caverna, cf. “Os Símbolos Fundamentais das Ciências Sagradas”, René Guénon, 29-31.

[14] Murugan, que liderou a vitória dos devas contra os asuras, por exemplo, mora em uma caverna.

[15] Citado em “O Mistério do Graal”, Julius Evola

Moksha e individualidade Outubro 30, 2008

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Os ocidentais, quando se aproximam da filosofia oriental, chegam sem antes de fazer um exame rigoroso de mentalidade, pois imaginam que as controvérsias da filosofia oriental (principalmente a hindu) são de ordem semelhante às disputas filosóficas e metafísicas ocorridas no Ocidente.

Por isso notamos que até estudiosos e eruditos do quilate de um Pe. Leonel Franca acabam por cair em erros primários ao tratar da filosofia hindu [1], pois imaginam que é possível reduzir essas questões à dialética ou até mesmo à erudição. Orientalistas muito mais eruditos que Guénon em diversas áreas, como Max Muller, por exemplo, não compreenderam os diversos aspectos fundamentais da doutrina hindu, e serviram como próceres de diversos movimentos modernos que deturpam a doutrina em diversas correntes sentimentalóides, panteístas e reencarnacionistas.

Quando chegamos a tratar desta questão, as dúvidas e problemas oferecidos à nossa mentalidade aumentam ainda mais, já que este assunto causou e ainda causa controvérsia mesmo entre os orientais, com a diferença que entre eles há uma certa noção do que está em disputa.

Em primeiro lugar, os partidários do tomismo ou de outras correntes filosóficas cristãs acreditam absurdamente que a extinção da dualidade é uma espécie de aniquilação. Isso porque, para eles, existência quer dizer necessariamente individualidade, e então já fazem suas apressadas conclusões: “isso [o não-dualismo] é uma doutrina niilista, atéia”, “é aniquilacionismo” e assim por diante. Ora, isso demonstra duas coisas: ignorância, pois o sujeito não tem noção do que o não-dualismo toma como existência o personalismo histérico, com base num dualismo construído a um apego aos filósofos cristãos e principalmente os escolásticos, já que não podemos incluir todos os santos nesta interpretação pois São Dionísio e Mestre Eckhart fugiram um pouco dessa regra.

Lutero, a besta beberrona e fideísta, duvidava da santidade de São Dionísio, que para ele era mais “neoplatonista que cristão”.[2] Como, infelizmente, nosso atual Ocidente lembra mais de javalis selvagens como Lutero que de santos como Mestre Eckhart, é natural que à primeira vista cause um certo espanto as doutrinas não-dualistas orientais.

Os caminhos apresentados pela filosofia hindu, o caminho da gnose (jnana-marga), o caminho da dedicação (bhakti-marga), não são caminhos opostos, mas sim diferentes. Normalmente, a mentalidade ocidental toma o bhakti-marga como o oposto do jnana-marga, o que é falso, pois o que os defensores das duas escolas, em todos os debates públicos feitos até hoje, buscaram apenas identificar o seu caminho como o summum bonum, aquele que realmente liberta de todo sofrimento e ilusão. Enquanto o bhakta afirma que a experiência do jnani, embora existente, é uma ilusão diante da verdadeira satisfação que é serviço devocional à Personalidade Suprema, o jnani, pelo contrário, afirma que o estado do bhakta, embora existente, é ilusório, pois está preso dentro da individualidade que é a separação de Brahman.

No entanto, para nós é mais fácil entender o bhakti-marga que o jnana-marga, pois fomos criado com aquela idéia de um céu de anjos sentados nos nuvens, tocando harpa, com os salvos contemplando a divindade.

Conforme expliquei acima, há muita incompreensão aqui no Ocidente em relação ao não-dualismo, principalmente devido a cousas como a injusta excomunhão de Mestre Eckhart, a visão dominante do neoplatonismo como gnóstico e essencialmente anticristão. Com isso, padres como Santo Evrágio, São Máximo o Confessor e São Dionísio são jogados para baixo do tapete, e qualquer estulto armado de um manual tomista pode zurrar seus anátemas e condenações numa questão que não é para o seu bico.

Os complexos Upanishads, em seus vários koans[3] e passagens obscuras, lançaram cousas que são discutidas e interpretadas até hoje, como essa do Brhdaranayak Upanishad:

“Quando o sol se apagar… a lua se apagar… o fogo desaparecer… o discurso calar, qual luz a pessoa terá?”

A questão de como algo corruptível e sujeito à morte e devir pode “tornar-se partícipe da natureza divina” ou “voltar a Brahman” foi respondida corretamente por Mestre Eckhart, com sua doutrina do “esvaziamento do ser”, que consiste no esvaziamento do indivíduo para que o vazio seja completado por Deus, até que este vazio se torne completo para que Deus preencha a tudo.

Moksha é o fim da intelecção, que é diferente da destruição do intelecto, já que onde não há mais distinção entre visão e vidente, cessa também a intelecção. Aos que acham isso muito distante do Cristianismo, trazemos uma citação de São Dionísio:

“É então somente que, ultrapassando o mundo em que se é visto e onde se vê, Moisés penetra na Treva verdadeiramente mística do não-cognoscível; é aí que faz calar todo saber positivo, que escapa inteiramente a toda compreensão e toda visão, porque ele pertence inteiramente Àquele que está além de tudo, porque ele não pertence mais a si mesmo nem pertence a nada de estranho, unido pelo melhor de si mesmo Àquele que escapa a todo conhecimento, após ter renunciado a todo saber positivo e, graças a este próprio não-conhecimento, conhecendo para além de toda inteligência.” Obra Completa, Pseudo-Dioníso o Areopagita (sic), Paulos, 2004, Pg. 132

Mestre Eckhart segue de forma semelhante: “O que o novato teme é o gozo do sábio; o reino de Deus não é para ninguém exceto os totalmente mortos.” (I, 419).

Pois essas palavras não parecem muito semelhantes ao que Krishna diz a Arjuna no Gita? “Aquele que abandona todos os desejos materiais torna-se livre da saudade dos sentimentos de ‘eu’ e meu’, alcançando a paz.” (BG 2,71, grifos meus)

No livro do Apocalipse, São João relata uma cidade que “não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina” (Apocalipse 21,23); semelhante ao Mundaka Upanishad “Lá o sol não brilha, nem a lua ou as estrelas, nem essas luzes, e muito menos o fogo. Quando ele brilha, tudo brilha depois dele; por sua luz tudo é iluminado” (2,2,10).

Essa escuridão divina (a mesma escuridão divina de Êxodo 20,21), que é a iluminação divina que não é iluminada, o desconhecimento que nenhum conhecimento pode conhecer (cf. Carta de São Dionísio a Gaio), está além de qualquer compreensão é o “desconhecimento transcendente”.

Neste desconhecido, também chamado de agnosia (o estado que São Dionísio descreve como o “não saber nada, que está acima de todo conhecimento), tudo que é de ordem invidual (vontade), se extingue, como diz São Boaventura “reduz à humildade as idéias insensatas da tua vontade, e empenha-se em subjugar a besta cruel. Estás preso à vontade; esforça-te em desatar este laço que não poderia ser rompido. Tua vontade é tua Eva.”

Isso também aparece na história de Leander Märchen, do homem que acordou no céu e pediu a São Pedro todos os confortos que sonhara a vida toda. Depois de um tempo, quando foi reclamar com São Pedro sobre a monotonia, o sujeito descobriu que na verdade estava no inferno, pois no céu não há esse tipo de vontade, de seguir os próprios desejos, mas apenas a vontade divina.

[1] – Noções de História da Filosofia, , Cap. I, Pe. Leonel Franca, V Edição, 1930

[2] – The Neoplatonic Philosophy of Dionysius the Areopagite, Eric D. Perl, State of New York University Press, 2007

[3] – Obviamente, somos sabedores que a palavra koan pertence ao Zen Budismo. A palavra é utilizada aqui apenas para exemplificar trechos dos Upanishads que estão além do entendimento humano, impossíveis de compreensão através da mera razão humana.

Recomendação Agosto 31, 2008

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Recomendo aos amigos o blog do Daniel Placido, um estudioso muito sério de metafísica, esoterologia e filosofia. Não deixem de conferir a bibliografia que ele fez sobre esoterologia.

Realização Metafísica e Aniquilação Agosto 31, 2008

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Pois bem, no nyaya, vaisheshika e no purvamimamsa o conceito de abhava,  a não-existência, é dividido em quatro categorias. Muito embora no advaita o conceito de abhava não seja colocado como uma categoria, creio eu que é útil analisar todos os conceitos para melhor entender a realização metafísica, já que muitas vezes a pergunta “qual a diferença entre aniquilação e realização metafísica?” é levantada.

São eles:

1. prag-abhava – a não-existência anterior à criação.
2. pradhavamsa-abhava – a não-existêncioa posterior à destruição.
3. atyanta-abhava – a não-existência limitada, pois o objeto não existe em outro tempo particular além daquele que está limitado no espaço.
4. anyonya-abhava – É a diferença entre uma coisa e outra. Por exemplo: não existe um cachorro que é um gato. O que existe entre o cachorro e o gato é uma não-existência mútua, chamada anyonya-abhava.

Mas, o que isso pode resolver o nosso problema? Bem, sabemos que tudo nos modos de existência material passou a existir durante a criação, e portanto, um gato não é um gato que brotou da não-existência, mas um gato que existia em potência e passou a existir no mundo grosseiro. Desta forma, o realizado é aquele que não opera mais em si mesmo maya ou avidya, e que portanto, está além das ilusões de maya de expansão e limitação.

Utilizando uma outra analogia: peguem uma pessoa que não sabe matemática – ela só saberá que é ignorante em matemática quando alguém lhe fizer questões sobre matemática e ela não conseguir responder. É neste ponto, quando a pessoa se dá conta de avidya, que ela está apta para alcançar moksha.

Então, Brahman é qual dessas não-existência? Nenhuma delas. Brahman não tem origem, nem destruição, o que impossibilita as duas primeiras. Brahman não é limitado em espaço e tempo, e portanto, isso descarta a terceira. Por último, Brahman está além de todos os objetos e imposto em todos eles, portanto, nada é distinto de Brahman, o que descarta a quarta.

Brahman é a única existência real, e se abhava não pode ser Brahman, portanto, abhava também não existe, como a individualidade.

O jivan-mukta, quando se separa do corpo, entra no estado em que o ser é totalmente separado do corpo, o que nos faz concluir que a ligação entre o corpo e o ser é totalmente contrária à natureza do ser. E abhava, tal qual a existência individual, se difere da verdeira existência que é Brahman, e portanto, o sujeito que é aniquilado (como no exemplo citado aqui, ou no aniquilacionismo de alguns padres gregos), se difere do jivan-mukta no que tange à realidade de sua não-existência. A expressão pode parecer absurda e fazer rir os ignorantes, mas para quem acompanhou o raciocínio desde o começo, a conclusão inevitável é essa: a aniquilação (pradhavamsa-abhava) é diferente da proclamação upanishádica “todo rio perde seu nome ao desaguar no oceano”, por lhe faltar uma coisa: a existência real.

Adi Shankaracharya explica em seu mais celebrado trabalho, Atma Bôdha, o que é real:

O mundo é repleto de apegos, aversões, etc., é como um sonho. Ele parece ser real, assim como o sonho parece ser falso quando se acorda.

Todo o mundo manifestado de coisas e seres é projetado pela imaginação pelo o que é o substrato do Eterno e Onipotente Vishnu, cuja natureza é a Inteligência-Existência; como diferentes ornamentos que são feitos do mesmo ouro.

E adiante, explica o que é ser realizado:

Eu sou outro além de corpo e portanto sou livre de mudanças como nascimento, envelhecimento, senilidade, morte, etc. Eu não tenho nada com os sentidos como som e gosto, pois sou sem órgãos.

Eu sou outro além da mente e além disso, sou livre de dor, apego, malícia e medo, pois “Ele é sem fôlego e mente, puro, etc.” é o mandamento das grandes escrituras, o s Upanishads.

Eu sou sem atributos e ações; Eterno (Nytia), sem qualquer desejo e pensamento (Nirvikalpa), sem qualquer sede (Niranjana), sem qualquer mudança (Nirvikara), sem forma (Nirakara), sempre-liberado (Nitya Mukta), sempre-puro (Nirmala).

Como o espaço preencho todas as coisas desde dentro e fora. Sem alterações e o mesmo em todos, sou puro, desapegado, imaculado e imóvel.

Eu sou como o Supremo Brâhman que é o único Eterno, Puro e Livre, Uno, indivisível e não-dual da natureza do Imutável-Conhecimento-Infinito.

Muitas escolas, do vaishnavismo ao budismo, buscaram refutar as exposições de Adi Shankaracharya. Dentro do hinduísmo, as mais conhecidas são as Vishishtadvaita e Dvaita. Segundo os estudos que fiz até hoje, a que chega mais perto de lograr algum êxito é a refutação de Ramanujacharya, principalmente a contida no Vedanta Sutra. No Vedanta Sutra, Ramanujacharya busca refutar diversas afirmações do advaita sobre ser e consciência, a não-existência de diferentes substâncias e outros propugnáculos do advaita.

Para Ramanuja, se há uma substância além de toda diferenciação e que é também o verdadeiro conhecimento, há então uma contradição capital: através do próprio testemunho do Ser sabemos que toda consciência implica diferença, pois todos os estados de consciência possuem coisas que são diferenciáveis no julgamento das próprias coisas. A percepção também ocupa um papel fundamental no argumento de Ramanuja, pois todo conhecimento ocorre através da distinção, entre o determinado e não-determinado, o julgamento “isto é isto, aquilo é aquilo”, é tido como o conhecimento de uma coisa pertencente a uma classe, o não-determinado como o conhecimento da primeira coisa que pertence à alguma classe, e o determinado que é o conhecimento das seguintes, portanto, todo conhecimento é obtido através de alguma distinção.

Para Ramanujacharya, o som (sabda) também denota diferença, pois a palavra (pada), a união de um radical e um sufixo, possui dois significados diferentes , portanto o próprio sentido da palavra é afetado pela diferança, como a sentença que conforme a combinação de palavras e significados denotam a falta de algo que não possui qualquer diferenciação.

Muito embora tal refutação pareça muito lógica, o advaita possui respostas muito satisfatórias a ela. Os Upanishads demonstram um Brahman sem distinção, sem qualidades, sem sentimentos, sem forma, auto-suficiente e não-dual (advayam).

a natureza de Paramatma que é manifestada na metne, indivisa, não-dual, testemunha de toda, distinta de toda causa e efeito, pura… – Taitirya Upanishad II,1

Sou distinto de todo sujeito, objeto e instrumento. Em todos os três estados – jagrat, swapna e sushupti – sou a testemunha que é a pura consciência e que é sempre auspiciosa. – Kayvalya Upanishad, XVIII

Vejo sem olhos, escuto sem ouvidos. Assumo várias formas, eu sei de tudo. Não há ninguém que Me conheça. Eu sou a eterna consciência pura. – Kayvalya Upanishad, XXI

Deixando os Upanishads um pouco, e partindo para o Bhagavatam, que é um dos principais livros dos vaishnavas, vemos também certas passagens que dão razão à interpretação de Adi Shankaracharya:

Tu é o Ser não-dual, a Pessoa primordial, auto-luminosa, infinita, a Causa Primordial, eterna, imperecível, a felicidade em si própria, pura, perfeita e sem seguidor, sem qualquer diferença (nirguna) e imortal.
– Bh. X,14

Ao comentar um trecho do Gita (que tenho como o meu favorito), Adi Shankaracharya explica que o plural é utilizado para denotar a existência de vários corpos, e não a multiplicade do Ser.:

Nunca houve um tempo que todos estes monarcas, você, ou Eu não tenhamos existido, e nem deixaremos de existir no futuro.

na tv evāhaḿ jātu nāsaḿ
na tvaḿ neme janādhipāḥ
na caiva na bhaviṣyāmaḥ
sarve vayam ataḥ param

Comentário de Adi Shankaracharya:

Mas por que não devemos nos lamentar? Porque somos eternos? Como? Na tu eva, mas certamente isto não é um fato, que jatu, em qualquer tempo; aham, I; na asam; não tenhamos existido; pelo contrário, eu existo. A idéia é que quando os corpos nascem ou morrem no passado, Eu existo eternamente. Da mesma forma, na tvam, não que você não exista, você certamente existe. Ca, tammbém, na ime, estas coisas; jana-adhipah, reis; não existem. Por outro lado, eles existem. E similarmente, na eva, certamente; vayam, nós, sarve, tudo; na bhavisyamah, deixaremos, atah param, depois disso; mesmo após a destruição deste corpo. Pelo contrário, nós deveremos existir. Isso significa que nos três tempos (passado, presente e futuro) somos eternos na nossa natureza como Ser. O plura (nós) é usado para a diversidade de corpos, mas não no sentido da diversidade do ser.

O advaita pode responder essa objeção de Ramanuja da seguinte forma: suponhamos que vimos o Sr. X, com sua cara de psicopata hoje, pela primeira vez. Amanhã temos a infelicidade de encontrá-lo outra vez. Você pode duvidar de ter visto o mesmo Sr. X, caso tenha feito a sensata questão de esquecer sua face. Mas você não vai duvidar que foi você que viu o Sr. X ou outra tenebrosa personagem em seu lugar.

Como o seu “eu” não se alterou, é percebido então a verdadeira natureza do Ser imutável. Toda distinção nasce da ignorância, quando o verdadeiro conhecimento é obtido, a distinção some.

Então, a refutação do advaita para esta objeção pode ser resumida assim: o objeto não é a última realidade. A consciência sim. Então, temos os atributos do objeto na mente que estão sujeitos às coisas que dizem respeito aos estados mentais e análogos. A mente é a visão e o vidente, diz Shankara no Bala Bodhani.

Sri Sadananda, a consciência que está limitada à visão é a consciência ligada à coisa, que por sua vez também é limitada pela consciência ligada às formas de conhecimento, e que é limitada pela mente que é a consciência ligada ao sujeito. Ele explica:

“A percepção através dos sentidos envolve a percepção apenas dos atributos do objeto, já que Brahman não pode ser conhecido fora do conhecedor.”

É possível perceber que a refutação de Ramanuja exposta acima não é suficiente, pois o advaita consegue se sair muito bem através de sua explicação e do uso de uma passagem dos Upanishads:

Ushastta: Você está provando com algumas descrições indiretas de Brahman como a vaca que é isso e aquilo, ou o cavalo que é isso ou aquilo, etc. Explique-me porque Brahman é imediato e direto além dessas descrições indiretas. Explique-me Brahman, que é o ser dentro de todos.

Yagnavalkia: Você não testemunhar que é a testemunha do testemunho, você não pode ouvir o que é o ouvinte do som, você não pode pensar que é pensador do pensamento, você não pode saber que é conhecedor do conhecimento – que é você que está em tudo; e que tudo mais é perecível – com essa resposta, Ushastta não fez mais perguntas. Bṛhadāraṇyaka Brahadaranyaka Upanishad, III,4

Desta forma, o indivíduo ao aparecer como a limitação do Ser, como raio da consciência do ser e como o sonho imaginado (cf. Bala Bodhani), a idéia da individualização do ser torna-se um erro, e Maya faz justamente isso: esconde a natureza indivisível do eterno.

O problema do Não-Ser Agosto 5, 2008

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O ponto chave dos erros de Guénon – que até hoje ninguém neste mundo parece ter enxergado, nem mesmo seus concorrentes da escola schuoniana – é de natureza puramente metafísica: está na sua doutrina do Não-Ser e das ‘possibilidades de não-manifestação’. Esclarecida e derrubada essa doutrina intrinsecamente absurda, manifestam-se os verdadeiros pontos de discordância entre cristianismo e guénonismo, bem como sua via de conciliação. Explico isto mais extensamente em meu Diário Filósofico. – Olavo de Carvalho, nota de rodapé em “O Jardim das Aflições”

Primeiramente, porque Olavo considera absurda a doutrina do Não-Ser e das possibilidades de não-manifestação? Isso pode ser explicado através de outra explicação de Olavo:

E Deus? Se imaginarmos um Deus transcendente ao universo, um Deus que não fosse o próprio Universo, mas que estivesse fora dele, estaria Ele fora necessariamente e sempre, ou seria um aspecto transcendente do próprio Universo? Ora, é claro que Ele é um aspecto do Universo que não pode se reduzir a nenhuma de suas partes e que é de certa forma transcendente a si mesmo, porque inclui toda a possibilidade ainda não realizada no universo físico. Essa possibilidade existe, e ela tem de se autoconhecer. Imagine se assim não fosse: a possibilidade transcendente que desconhece a si mesma e que só nós, seres humanos, conhecemos…Logo, é claro que o Universo se conhece. A parte dele que se conhece mas que não está realizada ainda, e que talvez não se realize nunca, nós chamamos de aspectos transcendentes de Deus. Para ser transcendente, não é preciso ser transcendente a tudo. – Olavo de Carvalho

Ora, as possibilidades de manifestação e as impossibilidades de manifestação, juntas, compõem o domínio propriamente dito do Ser, nada sobrando para além dele senão um conceito vazio. Na verdade a expressão Não-Ser só vale como figura de linguagem, para designar os aspectos superiores e mais sublimes do Ser mesmo, seu lado misterioso e eternamente desconhecido, ou imanifestado, portanto qualidades do Ser e não uma outra entidade substancialmente distinta. Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito. Olavo de Carvalho, Diário Filosófico

Quando se usa a expressão ‘ser supremo’, se altera totalmente aquilo que Deus é: origem de todos os seres. Por que existe o ser e não antes o nada? Se se coloca essa pergunta, existe um ser, um nada, e uma causa. Essa causa não é nem um ser, nem o nada. Isso jamais foi contestado. A existência de Deus é inerente à própria existência. O poder que gera a existência não é uma primeira causa que está atrás de uma série de causas. Ele é inerente à existência mesma. A primeira causa já seria um ser, já seria uma existência. Se você enxerga Deus como a possibilidade da existência, não se pode usar a palavra ‘ser’ para Deus. Todo religioso tem de saber disso. A pessoa que não é capaz de raciocinar em termos da totalidade da existência, evidentemente não pode entender do que estão falando, aí ela inventa uma coisa chamada ‘ser supremo’, um ‘serzão’, que não é a definição de Deus. Isso virou um ser que cria outros seres. Mas então, quem criou o primeiro ser? Deus é a possibilidade universal, a onipotência. Se você o define como ‘ser’ e tem de provar a existência ou inexistência do mesmo, você está num mato sem cachorro. Seriamente falando, não se discute a existência de Deus. A existência está sempre presente. Conceber a possibilidade hipotética da inexistência de tudo é a condição de perceber o poder da existência, a presença da existência. E perceber essa existência é perceber Deus. Os ateus não acreditam num ‘ser supremo’, mas acreditam na existência. Sendo assim, eles não são ateus. A discussão entre ciência e religião é muito primária, é uma vergonha. A onipotência, a presença da experiência está aí, mas você não pode obrigar uma pessoa a olhar para lá, não se pode provar nada.
– Olavo de Carvalho

Para resumir a doutrina do Não-Ser, antes de começar a defender o ponto de Guénon criticado por Olavo, podemos dizer da seguinte forma: o Não-Ser é todo atributo divino que jamais se manifestará, como a unicidade. A afirmação que Deus não é pode parecer absoluta a princípio, mas, quando esclarecemos o que Guénon entendia como o Não-Ser, bem como buscamos nas fontes da Tradição, a base das pesquisas de Guénon, notamos que Guénon não estava distante do Cristianismo nem da Tradição no que diz respeito a essa doutrina.

…Para designar o que está assim fora e além do Ser, estamos obrigados, na falta de outro termo, a chamá-lo Não-Ser; e esta expressão negativa, que, para nós, não é, em nenhum grau, sinônimo de «nada» como parece sê-lo na linguagem de alguns filósofos, além de estar diretamente inspirada pela terminologia da doutrina metafísica extremo-oriental, está suficientemente justificada pela necessidade de empregar uma denominação qualquer para poder falar disso, junto à precisão, feita já mais atrás, de que as idéias mais universais, sendo as mais indetermináveis, não podem expressar-se, na medida em que são expressáveis, senão por termos que são, com efeito, de forma negativa, assim como vimos no que concerne ao Infinito… – René Guénon, Estados Múltiplos do Ser – Cap. III

Que diversos padres cristãos escolheram a via apofática para tratar de Deus não é segredo a ninguém.

…Não tem corpo, nem figura, nem qualidade, nem quantidade, nem peso. Não está em nenhum lugar. Nem a vista nem o tato o percebem. Não sente nem a alcançam os sentidos. Não sofre de desordem nem perturbação procedente de paixões terrenas. Que os acontecimentos sensíveis não a escravizam nem a reduzem à impotência. Não necessita de luz. Não experimenta mudança, nem corrupção, nem decaimento. Não se lhe acrescentar ser, nem ter, nem coisa alguma que caia sob o domínio dos sentidos… -Dionísio Areopagita. Teologia Mística, Cap.1

E no budismo:

…Desta maneira, Shariputra, na vacuidade não há forma, não há emoção, não há percepção, não há manifestação, não há consciência; não há olho, não há ouvido, não há nariz, não há língua, não há corpo, não há mente; não há aparência, não há audição, não há olfato, não há paladar, não há tato, não há darmas, não há datu da visão, e assim por diante até chegarmos a: não há datu da mente, não há datu de darmas, não há datu da consciência da mente; não há ignorância, não há extinção da ignorância, e assim por diante até chegarmos a : não há velhice e morte, não há fim para a velhice e a morte; não há sofrimento, não há origem para o sofrimento, não há cessação do sofrimento, não há caminho, não há sabedoria, não há realização,e não há não-realização… – Sutra do Prajnaparamita

O que Olavo quis dizer com “… Creio que o próprio Guénon não ignorava isso. Alguns de seus colaboradores preferiram mesmo usar em vez de Não-Ser a expressão Supra-Ser para designar o Brahman, o eternamente imanifestado, distinguindo-o de Ishwara, o Ser manifestado. Isso basta para eliminar toda confusão a respeito…” ? Aqui, precisamos fazer uma ressalva importante: a idéia de dois Brahmans, apara Brahman e para Brahman, um manifestado e condicionado por Maya (apara Brahman), outro o ser transcendental e livre de toda dualidade (para Brahman), não é uma idéia criada por Guénon, mas sim presente no hinduísmo. Costuma-se dizer que ao tentar qualificar para Brahman com qualquer atributo, ainda que infinitos, já não está mais se tratando de para Brahman, mas sim de apara Brahman. Outra vez, temos o que pode parecer um absurdo ou uma contradição gritante, e de fato, aos mais acostumados ao aristotelismo, essas exposições do hinduísmo soam absurdas. No entanto, faz-se mister relembrar que Guénon era um expositor da doutrina Tradicional, e seu fundamento era a Tradição, que lhe dá boa razão, vejamos alguns exemplos:


O que não pode ser visto chamamos invisível

O que não pode ser escutado, inaudível

Quando tocamos e não sentimos, dizemos que é impalpável.

Esses três objetos não podem ser sondados

desta forma, confundem-se e são considerados como uno..


…Sua origem está lá onde não existe qualquer ser.

Sua forma é sem forma, sua figura sem figura.

Ele é o indeterminado… Tao Te King, 14

Com relação a Ele não há antes, nem depois; nem alto nem baixo; nem perto, nem longe, nem como, nem o que, nem onde, nem estado, nem sucessão de instantes, nem tempo, nem espaço, nem ser. Ele é tal como é. Ele é o Único sem necessidade da Unidade. Ele é o singular sem necessidade da Singularidade. – Ibn Arabi, Tratado da Unidade


Prosseguindo, portanto, em nossa ascensão, afirmamos que [a Causa] não é alma, nem inteligência, não possui imaginação, nem opinião, nem palavra, nem pensamento, não é palavra ou pensamento; não é objeto de discurso, nem de pensamento; não é número nem ordem, nem grandeza, nem pequeneza, nem igualdade, nem desigualdade, nem semelhança, nem dessemelhança; não está parada nem se move, não repousa, não possui uma força, nem é uma força; não é luz, não vive e não é vida; não é essência, nem eternidade, nem tempo; não admite sequer um contato inteligível; não é ciência, nem verdade, nem reino, nem sabedoria; não é uno, nem unidade, nem divindade, nem bondade, não é tampouco espírito, segundo sabemos; não é filiação, nem paternidade, nem quaisquer das coisas que podem ser conhecidas por nós ou por qualquer outro ser; não é nenhum dos não-seres e nenhum dos seres, nem mesmo os seres conhecem-Na enquanto existe; [a Causa] tampouco conhece os seres enquanto seres. Não é razão, nome ou conhecimento, não é treva, nem luz; erro ou verdade; não se Lhe aplicam afirmações ou negações: quando negamos ou afirmamos os seres que Lhe são posteriores, não A afirmamos, nem A negamos. A Causa perfeita e unitária de todas as coisas está acima de toda afirmação, e a excelência dAquele, que está absolutamente separado de tudo que supera toda negação. – Teologia Mística, São Dionísio o Aeropagita, Tradução de Marco Lucchesi, Editora Fissus, 2005, Rio de Janeiro.

A exposição de Guénon está completamente de acordo com o Advaita Vedanta. Swami Krishnananda explica que o universo é a negação de Brahman, um Brahman distorcido. Shankara ensina que o mundo aparece como real assim como uma corda é confundida com uma cobra. Enquanto a ilusão se faz presente, aquele cordão é para o vidente uma cobra real, mas quando a ilusão se esvai, a cobra deixa de ser real. O mesmo se passa com o mundo manifestado. Dois poderes de Maya, o da extensão e limitação, trazem a existência do mundo. O da extensão ao criar uma existência isolada, que atribui o testemunho do ser, a divisão entre vidente e a visão, e a limitação ao dividir o eterno do mundo, que é a causa do samsara.

No plano samsárico, e portanto segundo a interpretação temporal, um homem ignorante é aquele descrito como o sujeito que, após nascer, não consegue compreender que a lei do mundo é dukkha, que não pode ver sua origem, nem se libertar disso ou seguir pelo caminho que a liberação é obtida: a ignorância é desta forma a ignorância das quatro verdades de ariyan. Ao ser determinado por asava, pela intoxicação ou mania, essa ignorância particular estabelece um estado samsárico de existência e determina o substratum (upadhi) que lhe protege. – Julius Evola, A Doutrina do Despertar

No planos de existência mundana (vyavaharika satta) e ilusória (paramartikha satta), ocorre esse jogo entre extensão e limitação, lilla, o jogo divino. Ora, se Maya é o upadhi (substrato) de Iswara, então Iswara é a aparição pessoal de Brahman. Como Guénon considerava o Advaita a exposição Metafísica mais precisa, é de se entender a importância de sua distinção entre o Ser e o Não-Ser. Destarte, não se pode acusar Guénon de possuir uma teoria intrinsecamente absurda sem utilizar o mesmo rigor que Ramanuja utilizou ao tentar refutar o Advaita e lançar as bases para o seu Advaita qualificado, o Vishistadvaita. Até porque, mesmo o ramo heterodoxo do Advaita, o neoadvaita, consegue boas refutações às objeções de Ramanuja, portanto, não parece que Guénon adotou uma linha absurda ou heterodoxa do hinduísmo. A idéia de um princípio manifestado e outro imanifestado superior não é estranha ao hinduísmo.

O problema pode aparecer, de fato, ao tentar familiarizar esta doutrina com o Cristianismo; no entanto, este tema merece um estudo rigoroso e detalhado para si, pois enquanto até algumas passagens de Santo Agostinho parecem um obscuro encontro com o Advaita, e outras de São Dionísio, São Gregório Nazianzeno, Mestre Eckhart e outros místicos cristãos parecem estar de pleno acordo, outras idéias como a deificação e distinção entre essência e energia da Teologia Ortodoxa demonstram uma completa negação ao Advaita. Para finalizar, um trecho de “O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta”, de René Guénon, que ilustra muito bem o que foi tratado aqui.

Lembraremos que tudo o que concerne a este estado incondicionado de Atmâ é expresso sob uma forma negativa; isto é fácil de compreender, pois, na linguagem, toda afirmação direta é forçosamente uma afirmação particular e determinada, a afirmação de algo que exclui outra coisa, e que assim limita aquilo que podemos afirmar . Toda determinação é uma limitação, portanto uma negação; por conseguinte, é a negação de uma determinação que é uma verdadeira afirmação, e os termos de aparência negativa que encontramos aqui são, em seu sentido real, eminentemente afirmativos.

De resto, o termo “Infinito”, cuja forma é semelhante, exprime a negação de todo limite, de sorte que ele equivale à afirmação total e absoluta, que compreende ou abarca todas as afirmações particulares, mas que não é nenhuma delas com a exclusão das demais, precisamente porque ela implica a todas igualmente e “não-distintivamente”; e é assim que a Possibilidade Universal compreende absolutamente todas as possibilidades. Tudo o que pode exprimir-se em forma afirmativa está necessariamente encerrado no domínio do Ser, pois este é em si a primeira afirmação ou a primeira determinação, aquela da qual procedem todas as outras, assim como a unidade é o primeiro dos números e o número do qual todos derivam; mas, aqui, estamos na “não-dualidade”, e não mais na unidade, ou, em outros termos, estamos além do Ser, pelo fato mesmo de estarmos além de toda determinação, ainda que principial.

René Guénon, O Homem e Seu Devir Segundo o Vedanta, Cap.XV

Obras que São Fundamentais Maio 1, 2008

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La Doctrina India del Fin Último del Hombre

Na obra “La Doctrina India del Fin Último del Hombre” 9http://www.4shared.com/account/file/456

69288/661f2c4b/Ananda_Kentish_Coomaraswamy_-_La_Doctrina_India_del_Fin_ltimo_del_Hombre.html?sId=IiIRzCuRGFI0rvcp) teremos uma compreensão da diferença entre o que separa o atual Ocidente das doutrinas tradicionais. Sempre sóbrio e preciso, Coomaraswamy explica no capítulo (na verdade, uma palestra transcrita) “¿De Qué Herencia y ante quiénes son Responsables los Pueblos de Habla Inglesa?” como a abordagem inglesa à cultura e civilização hindu foi absurda e pretensiosa.

Podemos concluir após essa leitura que a civilização hindu, tida como tão exótica e “atrasada” pelos ocidentais modernos guardava muitas semelhanças com o antigo Ocidente, o Ocidente destruído pelos ideais materialistas, e que perdeu todo lastro de civilização. A civilização hindu era tão estranha aos ingleses por inserir todo seu cotidiano e afazeres em uma cosmovisão, algo que os ocidentais não possuem a menor idéia do que é.

A tentativa de converter a alma hindu ao modo de vida anglicano só poderia acabar em desastre. Primeiro, porque gerou uma casta de indianos que esqueceram de suas origens, tornaram-se ingleses de gosto e espírito, mas que ainda assim guardavam um certo sentimento nacionalista sem motivo algum. O segundo prejuízo ocorreu entre os ingleses que se aproximaram das doutrinas orientais sem qualquer preparo ou qualificação intelectual.

Nasceu então a pseudo-erudição orientalista ocidental, uma patética tentativa de reduzir o estudo das ciências tradicionais indianas às questões acadêmicas sob o ponto de vista racionalista. Coomaraswamy chega a traçar um renascimento positivo depois desses tristes eventos, devido ao aparecimento de estudiosos não mais interessados ao estudo com fins prosélitos de refutação das doutrinas hindus, mas sim com fim em “usar uma tradição para iluminar a outra”

Essa obra nos leva a uma reflexão importante, levando em conta o que vemos hoje, mas que Coomaraswamy não viveu para ver e comentar:

A invasão atual de falsos gurus e confusas doutrinas orientais, que muitos gostam de atribuir a René Guénon e autores tradicionalistas, não é nada mais que um fruto do contato entre uma civilização destruída que tentou destruir uma outra civilização. Ao aproximar de uma civilização tradicional, o Ocidente já sem os pressupostos capazes para defender sua civlização de heterodoxias e confusões doutrinárias, permitiu que fosse instaurada a confusão de conceitos tradicionais, e o que nos causa mais preocupação é o fato de na atual conjuntura não existir qualquer solução contra isso.

Além disso, Coomaraswamy aborda outros assuntos das doutrinas orientais pouco compreendidos pela maioria: desde a questão da reencarnação até evolução e as bases da civilização hindu.

A leitura desta obra é capaz de desmontar “dogmas” das doutrinas orientais criados pela má leitura ocidental, como a crença de que o hinduísmo é reencarncionista e politeísta.

No fim dessa leitura, percebe-se que a civilização hindu não é tão estranha, e muito menos confusa ou distante do Ocidente quando ainda era uma civilizaçõ. É uma obra que nos levará a meditar porque o Ocidente não é mais uma civilização, porque a conservação desse estado de coisas é um espírito de covardia e ignorância.

Dediquem certa atenção a esta obra, e procurem analisá-la segundo os eventos atuais. É fundamental compreender não só porque o Ocidente chegou nessa situação, como também porque ele tentou destruir o Oriente, e como essa tentativa acabou por afundar ainda mais o mundo moderno.

Os Três Modos de Natureza Material Abril 26, 2008

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“A influência da natureza material não pode afetar uma alma iluminada, ainda que ela participe de atividades materiais, pois ela sabe a verdade sobre o absoluto, e sua mente está fixada na Suprema Personalidade de Deus.” – Śrīmad Bhāgavatam, 3,27-3

 

 

Segundo os Vedas, a consciência material é a causa da vida condicionada. É a consciência material, a vontade de desfrutar, que força uma entidade a obter uma existência material. Outrossim, os sentimentos de felicidade e tristeza, transcendentais por natureza, são causados pelo próprio espírito. O mundo material, tido como uma grande floresta de desfrute, é o local onde o ser-vivo caiu por desejar o desfrute, e por causa disso, está sujeito aos três modos da matéria condicionada. A paixão cria, a bondade sustenta e a ignorância destrói. Toda alma está sujeita aos três modos de existência material:

“A bondade prevalece pela supressão da paixão e da ignorância; a paixão prevalece pela supressão da bondade e da ignorância, e a ignorância prevalece pela supressão da bondade e da paixão, Ó Arjuna.Bhagavad-Gita, 14,10

 

A poluição da consciência faz a alma se apegar nas ações físicas, de ações e reações comandadas pelas três formas de natureza material. O verdadeiro propósito, então, é se libertar dessa ilusão material, para voltar ao mundo espiritual, que foi deixado devido à vontade de desfrutar. O estado homem que esquece do espiritual, para desfrutar do mundo material, é comparado ao sono, pois assim como os prazeres que vemos nos sonhos são meras criações mentais, irreais, também este desfrute terreno é uma mera ilusão sem qualquer existência permanente.

 

 

Roubo, estupro, maus governantes, assassinatos, enganação, avareza, exploração: tudo isso nasce da necessidade de todos que passam para a vida material de desfrutar. Os conflitos nascem dessa necessidade, já que os interesses dos que desejam apenas desfrutar sempre é conflitante, e muitos, iludidos pelos sentidos, não conseguem escapar de suas ilusões, e tornam-se cada vez mais apegados a tais desfrutes.

“Os sentidos materiais criam as atividades materiais, tanto piedosas como pecaminosas, e os modos da natureza colocam os sentidos materiais em movimento. O ser-vivo, totalmente engajado pelos sentidos materiais e modos da natureza, experimenta os diversos resultados do trabalho fruitivo.” – Śrīmad Bhāgavatam 11,10

Tal caráter de deleite do mundo material fica muito claro na seguinte passagem:

 

 

“Quando o Rei Parīkṣit perguntou a Śukadeva Gosvāmī sobre o significado da floresta material, Śukadeva Gosvāmī respondeu assim: Meu querido rei, um homem que pertence à comunidade comercial está sempre interessado em ganhar dinheiro. Algumas vezes ele entra na floresta para adquirir algumas mercadorias gratuitas como árvore e terra para então vendê-las na cidade por um bom preço. Da mesma forma, a alma condicionada, pela avidez, entra neste mundo material em busca de algum benefício material. Gradualmente, ela entra nas profundezas da floresta, sem saber como sair. Ao entrar no mundo material, a alma pura torna-se condicionada pela atmosfera material, que é criada pela energia externa sob o controle do Senhor Viṣṇu. Assim as entidades vivas ficam sob o controle de uma energia externa, daivī māyā. Vivendo sozinha e confusa na floresta, ela não consegue obter a associação dos devotos que estão sempre engajados no serviço ao Senhor. Já na concepção corpórea, ela recebe diferentes tipos de corpos sucessivamente sob a influência da energia material e impelida pelos modos de natureza material. Assim a alma condicionada caminha algumas vezes para planos celestiais, outras para planos terrenos e algumas vezes para planos baixos e de espécies inferiores. Assim, seu sofrimento continua devido aos diferentes tipos de corpos. Estes sofrimentos e dores são misturados algumas vezes. Algumas vezes tais coisas são muito severas, outras não. Estas condições corpóreas são adquiridas devido às especulações mentais da alma condicionada. Ela usa sua mente e os cinco sentidos para adquirir conhecimento, e isso produz os diferentes corpos e condições. Usando os sentidos sob o controle da energia exterior, māyā, a entidade viva sofre as misérias da condição de existência material. Ela que de fato busca pro alívio, é geralmente desnorteada, embora algumas vezes consiga algum alívio após grandes dificuldades. Lutando pela existência neste caminho, ela não pode alcançar o abrigo dos devotos puros, que são como abelhas engajadas no serviço amoroso nos pés de lótus do Senhor Viṣṇu.” – Śrīmad Bhāgavatam, 5,14

 

Ao entrar na floresta, em busca de desfrute, a alma fica sujeita aos três modos da existência material. É a busca pelos benefícios da floresta que irá causar as dores e lamentações da alma.

A combinação desses três modos, que é a causa da existência material, é chamada de pradhāna. Quando manifestada no estado da existência, é chamada de prakṛti. Pradhāna é a reunião dos cinco elementos grosseiros, os cinco sutis, os quatro internos, os cinco de conhecimento e os cinco órgãos de ação exterior.

Os elementos grosseiros são: água, terra, fogo, ar e éter. São os sutis: cheiro, tato, cor, paladar e audição. Os sentidos de adquriri conhecimento e dos órgãos são: sentido de audição, sentido de paladar, sentido de tato, sentido de visão, sentido de olfato, o órgão ativo da fala, os órgãos utilizados para trabalho, e também os utilizados para viajar, procriar e evacuar.

A natureza material consiste de três modos: da bondade (sattvam), paixão (rajas) e ignorância (tama). A alma iluminada não é afetada por estes três modos, pois ao obter o conhecimento transcendental, ela deixa de ser influenciada por estes três modos da existência material, por já ter se fixado na Suprema Personalidade de Deus.

 

“Ó Arjuna, o modo da bondade prende alguém à felicidade do estudo e conhecimento do espírito; o modo da paixão prende à ação; e o modo da ignorância prende por negligência, pelo encobrimento do auto-conhecimento.” – Bhagavad-gītā , 14.09

O modo da bondade liberta das atividades pecaminosas, leva à felicidade, desenvolve o verdadeiro conhecimento, e aquele que morre no modo da bondade, é levado para os mais altos planos dos grandes mestres. Embora ainda seja um modo de natureza material, o modo da bondade não é pecaminoso, pois é “o mais puro do mundo material” (nirmalatvāt). O homem neste estado é menos afetado pelas misérias da existência material. O sacrifício do que está no modo da bondade é feito conforme as Escrituras, com fé e convicção firme de que ele é uma obrigação.

Neste modo, as aflições e confusões da alma condicionada são aliviadas. Embora seja um estado da alma condicionada, e portanto, do ser-vivo que buscou o desfrute, é um estado elevado por seu apego ao conhecimento, é o que faz desenvolver o verdadeiro conhecimento.

O modo da paixão, que nasce do desejo, e produz apego, desejo por ouro, e também gula, luxúria, mesquinharia, ambição. Tudo que é feito no modo da paixão resulta em miséria. Por esta razão, os brahmanas não devem tomar atitudes ou decisões no modo da paixão, pos ele é incompatível com o estado de sábio ou sacerdote, e muito menos viver neste estado. Os kshatriyas e vaishyas vivem entre o modo da bondade e paixão. Quanto maior é este modo, mais anseio a alma sente pelo desfrute, e mais sofrimento ela terá.

No modo da ignorância, o modo da escuridão, a alma é levada à loucura e ilusão. É o modo daquele que vive distraído pela preguiça, indolência. Neste estado, a alma não pode diferenciar o certo do errado, qual é seu objetivo ou se está cometendo atividades pecaminosas. Esta alma adora os demônios, oferece sacrifícios sem seguir as Escrituras, seja por egoísmo, hipocrisia e auto-satisfação.

“Assim os descendentes dos macacos misturam-se entre si, e eles são normalmente chamados de śūdras. Sem hesitação, eles vivem libertinamente, sem conhecer o objetivo da vida. Eles são condenados a ver apenas um a face do outro, que vos relembra o sentido da gratificação. Sempre engajados em atividades materiais, conhecidas como grāmya-karma, trabalham duro para benefício material. Desta forma esqueceram completamente que um dia suas expectativas de vida irá acabar e então serão degradados no ciclo evolutivo.” Śrīmad Bhāgavatam, 5,14

Na existência material, os sentidos são os maiores adversários do homem. Mesmo nas boas ações, sentidos como o da auto-gratificação podem arruinar as coisas boas. Pela necessidade de satisfazer seus instintos (visão, olfato, paladar, tato, audição, desejo e vontade), o homem ainda desvia aquilo que não era seu para satisfazer seus sentidos.

 

Por esta razão, apenas a alma iluminada, livre das tentações do sentido, consegue viver no mundo material sem ser atraída ou enganada pelos sentidos. Como confirmação, do que foi explicado e da citação do Śrīmad Bhāgavatam (3,27-3) no cabeço deste texto, coloco o ensinamento do Mahārāja Rahūgaṇa ao Rei Rahūgaṇa, sobre o que ele deveria fazer para escapar do ciclo de fuga e volta às perigosas posições sujeitas à alma condicionada.

 

“Meu querido Rei Rahūgaṇa, vós também és uma vítima da energia exterior, pois estás no caminho de atração dos prazeres materiais. Então, para que possais tornar-se um amigo justo a todas as entidades, aconselho-te a desistir da vossa posição real e da verga que usas para punir criminosos. Desistas da atenção aos objetos sensíveis para segurar a espada do conhecimento afiada pelo serviço devocional. Então, serás hábil para cortar o duro nó da energia ilusória e cruzar para o outro lado do oceano da existência espiritual.” – Śrīmad Bhāgavatam 5,13

 

Tudo que ocorre no modo material é consequência do desejo, aflições e necessidades. A fome a sede causam fúria, falta de paciência. Muitas vezes a noção de que o apreço às sentidos de desfrute é esquecido pela própria corrida aos gozos materiais. A ansiedade, pelo medo de perder posição de prestígio, também faz a alma não conseguir escapar e cair nas armadilhas da ilusão.

A incompatibilidade de atividades como de guerreiro e rei, com a busca da transcendência, se da pelo fato da própria atividade de punir causar danos à alma condicionada do castigador, prendendo-o ainda mais nas ilusões do modo de vida material.