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O Centro Primordial Outubro 29, 2010

Posted by Rafael in filosofia, hinduísmo, metafísica, nativos, oriente e ocidente, tradição.
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Aqui, trataremos de questões que há muito precisam de certos esclarecimentos.  Muitos nos perguntam sobre Akakor, Preste João, O Rei do Mundo e outras cousas ligadas direta ou indiretamente a um ponto que é central na Tradição: a ligação com o Centro Primordial. Em primeiro lugar, esclarecemos que, ao longo deste breve artigo, traremos à luz alguns “mitos”, que não devem ser entendidos no sentido dos acadêmicos ou, pior ainda, de algumas correntes neo-pagãs. Somos sabedores de que os mitos não são meras “fábulas” pelas quais os antigos passavam lições morais, muito menos  fatos que ocorreram dentro do espaço-tempo, um delírio comum entre muitas correntes neo-pagãs da atualidade. Na verdade, essas duas interpretações, das quais desejamos, por questões sanitárias, uma distância segura, são filhas de uma só mãe: a modernidade, que privada do conhecimento tradicional, tende a analisar tudo sob um ponto de vista meramente humano. Portanto, é natural que esse tipo de mentalidade crie interpretações moralizantes ou “místicas” (em seu sentido mais degenerado), o que cria um impedimento à compreensão desses assuntos, que exigem uma análise além daquelas limitadas pela mentalidade moderna.

Então, pedimos para o leitor compreender o mito como, nas palavras de Julius Evola, um estado ainda em curso, que ocorre além da dimensão espaço-tempo. Obviamente, trataremos de casos e figuras desta dimensão, como a do Preste João, pois o ponto principal deste artigo – as ligações com um Centro Primordial – pode ser demonstrado através do viver o mito e também através  das ligações deste Centro com figuras, tradições e sociedades durante os séculos.

Começamos, então, com um curioso caso da mitologia assíria: segundo Apolodoro, contam na Eritréia sobre um ser de cabeça humana sobreposta com um peixe, com corpo de peixe e pés humanos, mas possuidor de voz humana, chamado Oanes, que emergia do mar para ensinar a humanidade a construir casas e templos;  além disso, também instruiu sobre as criações das leis e ensinou como plantar as sementes – enfim, ensinou tudo aquilo necessário para a formação da civilização. Antes disso, segundo Beroso, a terra era um “abismo de águas”[1], um local escuro, habitado por criaturas invisíveis e androgynas[2], enquanto os homens habitavam as terras como “bestas do campo”.

Oannes

Na Tradição Hindu[3], vemos a Suprema Personalidade de Deus, na forma dum peixe, que envia um barco para salvar os três mundos submersos nas “águas da inundação”, e instrui o Rei Satyavrata a coletar todas as sementes e ervas para salvaguardá-las num barco, que amarrado ao chifre de ouro do peixe[4], é conduzido pelas “águas da devastação”, durante toda a noite de Brahma[5]. O barco é carregado carregado com as sementes, ervas e sete risis[6] e, durante a jornada, a Suprema Personalidade explica a Satyavrata a Verdade Absoluta – a ciência espiritual, conhecida como sankhya-yoga. Ao final da inundação, Matsya, a `manifestação da Suprema Personalidade em forma de peixe, mata o demônio Hayagriva, para devolver a literatura Védica a Brahma, que despertava de seu sono[7], durante o qual Hayagriva roubou o conhecimento védico.

A manifestação de Vishnu Matsya

No ensinamento hermético-alquímico, são freqüentes as referências às “correntezas das águas” e “escuridão das águas” , e a própria água é representada por um símbolo descendente – .

Na Philosophumena de Hipólito, a alma escrava da morte está em “forma aquática”[8]. Também é recorrente chamar os realizados de “aqueles que foram salvos das águas”[9], o que nos leva novamente até a Tradição hindu, onde Prajapati, criador das águas, mas também dragado por elas, retorna na forma de semente dourada[10]. Notamos algo semelhante em dois fatos da vide Cristo: primeiro, Seu batismo nas águas, com a imersão e subida[11] e, pouco adiante, o Seu caminhar nas águas[12]. Podemos também, abandonando toda interpretação “moral” ou ordinária do mito de Narciso, observar caráter semelhante na água, que atrai Narciso para a morte através do reflexo de sua própria imagem – a ilusão da individualidade.

Assim, entendendo o “arrasto das águas” ou a “imersão nas águas” como a queda na escuridão e ignorância, podemos passar para a compreensão da ligação direta entre a restauração e um Centro Primordial e não-humano (que, como os Vedas, é anadi e aparusheya).

Em uma obra que, infelizmente, caiu no gosto dos lamentáveis “esotéricos”, ou na desgraça dos mais céticos que tomam qualquer cousa do tipo como “peça de anedotário”, notamos muitas outras referências que demonstram as mesmas idéias já expostas aqui. Primeiramente, começamos com um desenho da bandeira de Akakor:

Obviamente, o leitor que já compreendeu o que foi dito até aqui, não precisará de explicações além da própria figura. Logo no início, é descrita a “origem do tempo”, na partida dos deuses, “à hora zero”.

“Esta é a história. Esta é a história dos Servidores Escolhidos. No início era o caos. Os homens viviam como animais, sem razão, sem conhecimento, sem leis, e sem trabalhar o solo, sem se vestirem, nem sequer cobrindo a sua nudez. Não conheciam nada dos segredos da natureza. Viviam em grupos de dois e três, como o acaso os juntava, em cavernas ou nas fendas das rochas. Caminhavam com os pés e as mãos até a chegada dos Deuses. Eles trouxeram a luz.”

A crônica continua com o relato da chegada dos “Mestres Primitivos”, de origem que não pode ser esclarecida “nem pelos sacerdotes”, citando as palavras da própria crônica. O mais curioso, dessa vez, é o surgimento desses sacerdotes: em navios dourados, chegado de Schwerta, um local distante, nas profundezas do universo[13], origem do conhecimento do mundo. Segundo esses mestres, os dois mundos, o da profundeza, origem do conhecimento e o nosso, encontram-se a cada seis mil anos, quando ocorre a volta dos deuses – e tais seres, de origem divina, possuíam seis dedos nas mãos e nos pés. O seis, que forma um hexagrama, e na crônica demonstra a origem divina dos “Mestres Primitivos”, também traz novamente a questão do simbolismo alquímico. Conforme falamos anteriormente, a água, por sua ação descendente, é representada pelo triângulo , descendente, enquanto o fogo é representado pelo triângulo , ascendente, pois a ação da “chama que queima” é ascendente. O hexagrama, que é a junção desses dois triângulos, representa a união do poder sexual, entre macho e fêmea, o que nos leva novamente ao androgyno
. Vemos também, numa gravura alquímica de Petrus Bunus, o rei que recebe a reverência de seis súditos:

Na Spiegel der Kunst und Natur de Stefan Michelspacher, vemos novamente seis seres (reais, guerreiros, sacerdotais) em torno do cume da montanha, o ápice da realização:

Também é importante em Akakor a questão das habitações subterrâneas, cidades fantásticas e maravilhosas, até mesmo para a terra, já habitadas por máquinas fantásticas até mesmo para os dias de hoje:

E os Deuses governaram Akakor. Governaram sobre os homens e sobre a Terra. Tinham navios mais rápidos que o vôo das aves, navios que atingiam os pontos a que se destinavam sem velas nem remos, tanto de dia como de noite. Tinham pedras mágicas por onde viam a distância, de modo que podiam ver cidades, rios, colinas, e lagos. Tudo quanto acontecia na Terra e no Céu se refletiam nessas pedras. Mas as habitações subterrâneas eram as mais maravilhosas. E os Deuses deram-nas aos seus Servos Escolhidos como última dádiva. Para os Primitivos Mestres são do mesmo sangue e têm o mesmo pai.

Curiosamente, nos Vedas há o relato de veículos semelhantes, chamados “vimanas”, desafortunadamente confundidos com “ufos” por aqueles que descartam qualquer explicação divina para as coisas, muitas vezes porque as consideram absurdas – mas acabam por cair em explicações delirantes. Voltando à questão do subterrâneo, temos, também na América do Sul, relatos sobre a Cova dos Tayos, supostamente habitada pelos tayos, seres que, vez ou outra, sobem para ensinar aos homens[14]. Na América do Sul há várias histórias sobre civilizações subterrâneas, habitadas por seres que possuem um contato cada vez mais raro com os homens, e que aparecem sempre como instrutores. Portanto, chegamos a mais um ponto comum indicado pela Tradição: estes seres, originários de cavernas, indicam uma origem comum dos ensinamentos “divinos”.  Então, em Akakor, vemos novamente a ação destruidora das águas, no relato sobre a primeira grande catástrofe:

Isto é o relato de como os homens morreram. O que aconteceu à Terra? Quem a fez tremer? Quem fez dançar as estrelas? Quem fez as águas brotarem das rochas? Numerosos eram os flagelos que atingiam os homem. Estava sujeito a várias calamidades. Estava terrivelmente frio e um vento gelado soprava sobre a Terra. Estava excessivamente quente e a própria respiração das pessoas queimava-as. Homens e animais fugiam em pânico. Desesperados, corriam de um lado para o outro. Tentavam trepar nas árvores, mas as árvores repeliam-nos. Tentavam alcançar as cavernas. Contudo, estas abatem-se e sepultavam-nos. O chão tornava-se teto, e o teto desaparecia nas profundidades. O som e a fúria dos Deuses não se acalmavam. Até os abrigos subterrâneos começaram a tremer.

Na continuidade dos relatos das catástrofes, vemos outro importante aspecto do simbolismo tradicional: altas montanhas erguidas em direção ao sol (a transformação da montanha em caverna após o fim duma era de degeneração, o oposto da transformação da montanha em caverna, que marca a passagem duma era superior a uma inferior) e, novamente, a água aparece como origem de desordem e sua divisão como o fim da desordem.

Três luas passaram e três vezes três luas. Então as águas dividiram-se. A Terra acalmou de novo. As correntes seguiram diferentes cursos. Perderam-se por entre as colinas. Altas montanhas se ergueram em direção ao Sol. A Terra modificou-se quando os Servos Escolhidos deixaram as moradias subterrâneas, e grande foi a sua mágoa. Ergueram o rosto para o céu. Os seus olhos procuraram as planícies, os rios e os lagos. A verdade era terrível; a destruição medonha. E Ina reuniu o Conselho dos Velhos. As Tribos Escolhidas juntaram dádivas: jóias, mel das abelhas e incenso. E sacrificaram-nos para fazer com que os Deuses voltassem à Terra. Mas o céu manteve-se vazio. A era do jaguar começara: época de sangue quando tudo foi destruído. Assim foi separado o elo entre os Primitivos Mestres e os seus servos. E principiou uma nova vida.

Outra vez, a inundação aparece como origem da destruição de nada menos que vinte e seis cidades – o que causou a diminuição significativa das passagens subterrâneas para o mundo interior. Akakor, então vai passando por um ciclo de catástrofe e reconstruções, onde símbolos como a montanha e a caverna  vão desenvolvendo papéis fundamentais, conforme podemos notar em gravuras da hermética obra Splendor Solis :

Agora, passando para a história do Preste João, vemos que a Árvore da Vida desempenha papel fundamental em seu reino – a mesma árvore que, tanto nas Tradições como nos ensinamentos hermético-alquímicos, possui profunda importância. Na tradição nórdica, Ygdrasil é a árvore que guarda a fonte de toda sabedoria, já na tradição hindu, vemos a “árvore invertida”, que esconde em suas folhas Yama, o rei do estado primordial. A Árvore, que aparece em várias tradições como “centro do mundo”, “origem da vida eterna” ou em diversas outras referências à idéia de centro e origem, fornece o caráter sobrenatural ao Preste João, ligado diretamente a seu significado como “Centro Supremo”.  No “Tractatus pulcherrimus”[15], o Preste João é citado como “rei dos reis”, numa clara referência ao “Rei do Mundo”, e curiosamente, o reino do Preste João é descrito em algumas lendas como “o reino das seis tendas” – o número seis, que acabamos de tratar:

Notas

[1] The Sacred Books And Early Literature Of The East, vol. 1, 1910.
[2] Também frequentes na alquimia, seres primordias compostos de dois elementos: o lunar e o solar, como em outra gravura do Splendor Solis:


[3] Cf. Śrīmad Bhāgavatam 8,24

[4] O ouro como restaurador do estado nas “profundezas das águas”, também muito comum no simbolismo hermético-alquímico.

[5] A noite de Brahma, durante o dilúvio e  devastação das águas, também é comum na alquimia: do “estado de sono” nasce as tribulações da alma nas águas. Há também algo semelhante no caso da “tumba de Osíris”, e também no “sono gerado pelo desejo”, que encarcerou a alma no corpo, segundo os alquimistas, como o sono gerador de ignorância, o que equivale ao obscurecimento dos Vedas.

[6] Os “sete homens” correspondentes aos “sete ministros”, criados por Nous demiurgo, deus do fogo e do sopro. Há também que se mencionar a importância do sete, como  nas sete destilações necessárias para obter a “Água Divina”, contrária à correnteza “água das correntezas”, capaz de trazer vida aos mortos.

[7]   Equivalente ao “despertar” relatado pelos alquimistas.

[8] Hipólito, Philosophumena, 5,10, em “A Tradição Hermética”, Julius Evola.

[9] A Igreja, segundo diversos padres, é a “Arca da Salvação”.

[10] Em São Mateus (cap. 13), Cristo usa a semente numa parábola sobre a Vida Eterna.

[11] A água misturada ao vinho da Eucaristia, para simbolizar sua natureza humana. Temos então mais uma relação direta entre a água e a descida em forma humana.

[12] Cristo, cabeça da Igreja, também caminha sobre a água, pois a Igreja é a “arca da salvação”, conforme acabemos de mencionar. No Apocalipse de João, vemos: “Veio, então, um dos sete Anjos que tinham as sete taças e falou comigo: Vem, e eu te mostrarei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas…” (17,1) e “O anjo me disse: As águas que viste, à beira das quais a Prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas.” (17,15) e também a vegetação que cresce “à beira das águas”,  fora da Arca, será condenada à destruição (Eclesiástico 40,16).

[13] Para mais informações sobre a Caverna, cf. “Os Símbolos Fundamentais das Ciências Sagradas”, René Guénon, 29-31.

[14] Murugan, que liderou a vitória dos devas contra os asuras, por exemplo, mora em uma caverna.

[15] Citado em “O Mistério do Graal”, Julius Evola

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Contra o mito do bom civilizado Agosto 13, 2008

Posted by Rafael in filosofia, nativos, oriente e ocidente, third position.
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Durante meu encontro com Nikkon, perguntei sobre as outras coisas que ele pensava da Europa:

“O senhor viveu na Europa”, perguntei “O que o senhor pensa disso? Qual é a sua opinião sobre a civilização Ocidental?”

“Civilização!”, ele exclamou “A civilização Ocidental é um ersatz!”

Ele enfatizou a palavra “ersatz”. Esta palavra é de origem germânica. Significa substituto, enganador, falso. Após uma pausa, Nikkon continuou.

“Tudo que está nela: as artes, ciências, filosofias, religiões, é ersatz!

“O senhor acredita realmente que não há nada autêntico, bom, nos países da Europa Ocidental?”

“Nada”, ele respondeu, “Tudo é falso, vazio. A única exceção é a Ortodoxia. Mas até ela é dificilmente encontrada em sua forma genuína, original.”

Após ouvir que eu era Cristão Ortodoxo, o ancião fez uma observação:

“Você deve considerar-se um afortunado. Pois não há nada mais precioso neste mundo que o Cristianismo Ortodoxo. Mesmo com a dificuldade de encontrá-lo em sua forma mais pura, ordene tudo em sua vida de acordo com ele” [1]

No Ocidente moderno, é comum a disputa entre barbárie x civilização, bem x mal, progresso x atraso e assim por diante. Gurdjieff, inteligentíssimo esoterista do século XX, foi preciso ao identificar essa angústia de um amontoado de gente que já perdeu qualquer resquício daquilo que é entendido como civilização tradicional, angústia nascida pela falta de uma cosmo visão tradicional, que criou aquilo que Evola chamava de “mundo de agitados”, e a saga em busca de “progresso”, “conservação” ou até mesmo “regresso” [2], sem se dar conta que, neste mundo de agitados, todos correm para o mesmo abismo, embora por caminhos distintos.

As críticas de tradicionalistas, não só os da escola perenialista, como também de religiosos de vida contemplativa ou de sábios que tiveram algum contato ou pertenceram a uma civilização tradicional, sempre levam ao mesmo ponto: todas as correntes e ideologias ocidentais que concorreram entre si não passam de faces da mesma degeneração. O staretz Nikkon, citado acima, era um monge do Monte Athos praticante do hesicasmo, a contemplação e oração silenciosa, quando jovem viajara por toda a Europa ocidental, e teve a oportunidade de conhecer o modo de vida e pensamento europeu. Sua decepção foi grande, e não por menos: àquele acostumado à vida da antiga Grécia [3], por exemplo, a vida do europeu, quer do acadêmico quer do simples trabalhador, é muito agitada, inconstante e repleta de incertezas.

Russel Means, líder sioux e ativista dos direitos dos nativos norte-americanos, também notou esta tragédia do homem europeu, e foi ainda mais adiante em sua análise do capitalismo, comunismo, hegelianismo, cientificismo e alhures. Neste discurso, nota-se os laços entre a Tradição dos nativos norte-americanos e outras Tradições, como o Cristianismo. Como por exemplo, a crítica ao excesso de valor dado à palavra escrita, que para São João Crisóstomo nos mostrava o quão degradados somos [4], a crítica da transformação da natureza em propriedade privada [5], e neste ponto tanto marxismo como capitalismo são semelhantes, pois ambos desafiam a ordem natural das coisas.

Obviamente, tal raciocínio é capaz de levantar diversas questões e críticas, do tipo: como explicar o aumento da qualidade de vida, o avanço tecnológico e farmacêutico que permite o prolongamento da expectativa de vida, ou ainda as intermináveis guerras travadas entre nativos de todo o mundo. Mas tudo isso, se analisado e comparado friamente, nos mostra os problemas existentes entre os nativos não foram solucionados pelos bons civilizados, como também, aumentaram.

Em primeiro lugar, não só podemos como devemos questionar o conceito de qualidade de vida do homem ocidental, principalmente do primeiro mundo. Muito daquilo que lhe faz se orgulhar, como o conforto da nossa civilização contra a vida na natureza e todos seus perigos, não passa de um problema maior ainda. Os tradicionalistas acusam o homem moderno de perder a capacidade de contemplação, e isso pode muito bem deixar de ser uma acusação para se tornar uma constatação: qual homem ocidental é capaz de práticas contemplativas como o hesicasmo, meditação ou a adoração silenciosa dos nativos norte-americanos? Todo este conforto, construído no desvio da ordem natural das coisas, custou primeiro a capacidade de contemplação, e hoje custa a sanidade. O homem sente cada vez mais necessidade de trabalhar mais para obter mais conforto, e os avanços tecnológicos que aumentam seu conforto também fazem com que ele trabalhe cada vez mais. Distúrbios como DDA e doenças como depressão aumentam anualmente, e o crítico do uso de “drogas” feito pelos nativos não se dá conta que o homem moderno é cada vez mais dependente de remédios contra depressão, distúrbios de atenção e transtornos de personalidade. Ele não consegue ver qualquer relação entre estes problemas e o fato do homem moderno não viver mais em uma civilização de fato, mas sim num amontoado de indecisos, agitados que já perderam qualquer noção real sobre humanidade, transcendência e realidade.

Já os índios, citando J.P. McEvoy, “talvez não seja o progresso… mas que importa?”. Em países cristãos que ficaram livres do Imperialismo de Carlos Magno, como também do legalismo dos escolásticos e posteriormente de uma das maiores tragédias da humanidade, a Reforma Protestante, nota-se uma visão diferente sobre a religião, bem como o impacto da vida religiosa dessa população. O fervor dos russos anteriores às deformas de Pedro o Grande causavam espanto até aos emissários de Patriarcados ortodoxos como da Antioquia, já influenciado negativamente pelo Ocidente devido ao seu intercâmbio educacional com Roma devido ao domínio turco [6]. Já nos vilarejos gregos sob ocupação turca, onde os pais não tinham condições financeiras para enviar seus filhos para estudar no Ocidente, a vida era tranqüila e religiosa, semelhante à Rússia antes de Pedro, pois o domínio turco não era capaz de afetar o andamento da vida das pessoas que tinham um foco verdadeiro na vida. O que causava mais espanto era a concentração das crianças nos longos ofícios divinos, que em pé rezavam ao lado dos adultos, por horas, sem qualquer reclamação ou agitação. Algo semelhante às crianças dos nativos, que escutam por horas os ensinamentos orais de seu povo, como nota o professor Luiz Pontual, que coroa sua explicação com uma belíssima foto:

“É muito ilustrativo a este respeito o fato das crianças índias serem extremamente calmas e mesmo concentradas. São capazes, como pudemos testemunhar em mais de uma ocasião, de permanecerem durante duas ou mais horas em perfeita tranqüilidade , enquanto adultos conversam ou desempenham tarefas. Pode-se talvez compreender um pouco tal traço inusitado para os modernos se repararmos que um índio, assim como um camponês medieval, acompanha os vários momentos que constituem, por exemplo, o ciclo da alimentação. Ajudam ou vêem os pais desde o preparo da terra, passando pela semeadura, o brotar e o desenvolvimento das plantas , até sua colheita e preparo final para alimentação. É algo um tanto diferente, por exemplo, de um insuportável garoto super-ativo detonando um pacote de cornflakes…ou um hot-dog !”

Portanto, os ortodoxos mais sensatos como o Conde Lucas Notaris preferiam o turbante do sultão que a tiara do papa, já que enquanto o domínio turco custava apenas algumas vidas vez ou outra e um pouco de dinheiro, a aproximação ao degradado Ocidente custava a alma e o próprio modo de vida oriental. Os turcos não eram capazes de alterar a vida tranqüila e religiosa dos habitantes da Anatólia e da Trácia, mas a influência ocidental conseguiu lançar a Rússia nas maiores trevas de sua história, e logo em seguida jogou a Grécia sob jugo de Venizelos à guerra e decadência espiritual, em busca do tal progresso. É compreensível tanta angústia e desespero do Ocidental: ele pensa que está sempre atrasado, mas não sabe em qual local deve chegar.

Por isso o staretz alerta sobre onde encontrar a verdadeira Ortodoxia: a vida ortodoxa não envolve apenas a fé, ou a fé e um corpo de códigos morais a ser seguido, mas também toda uma visão de mundo [7], e que não pode existir entre a degradação da modernidade. Hoje em dia, lamentamos muito quando vemos fiéis exigindo a liturgia em vernáculo, padres desmerecendo o essencial da tradição como a batina ou a barba e cabelos longos, pois se trata de quem está muito próximo do ideal, pois bastaria olhar para algumas décadas atrás e perceber o quanto isso é importante e estava vivo, fazia parte de nosso cotidiano; enquanto os ocidentais já não têm a mesma sorte, pois passam por um processo de decadência gradual e longo, e possuem idéias muito vagas e imprecisas sobre tradição, pois a vida sob princípios tradicionais é algo que está muito distante, como uma abstração ou histórias de passado muito distante.

Por estas razões, não consigo me alinhar ou até mesmo ter como “mal menor” correntes como o conservadorismo, que embora aparentemente menos maléfica que o comunismo, faz parte do mesmo processo de degradação, e não é menos pretensioso, pois também se coloca como o dique que impede a invasão da barbárie, quando também é um filho desse mito do bom civilizado, aquele Homem Universal repleto de autocrítica, dúvidas, problemas e soluções, sempre colocando as mãos imundas e cheias de sangue naquilo que já estava ordenado.

[1] Messages From The Holy Mountain, Dr. Constantine Cavarnos, Cap. 6, pgs. 31,32.

[2] https://lasciateognisperanza.wordpress.com/2008/04/26/revolucao-e-contra-revolucao/

[3] Em The Elder Ieronymos of Aegina, de Pedro Botsis (Monastério da Santa Transfiguração, Massaschusetts, 2007), o autor nos conta o espanto de São Jerônimo ao chegar em Atenas, depois da troca de população entre Grécia e Turquia devido às insanidades de Venizelos. O santo, ao desembarcar em Atenas, chorou ao ver a falta de piedade religiosa e o pouco caso com a vida espiritual da população que não vivia sob domínio turco há muito tempo, e lembrava como a vida em sua antiga vila da cidade de Iconium (hoje Konya), na Anatólia, era muito mais piedosa. Para se ter uma idéia, na pequena vila onde o staretz foi criado, não só os monges como também boa parte da população tinha o costume de praticar a oração com lágrimas nos olhos, algumas vezes encharcando o chão das pequenas e lotadas igrejas de fiéis que clamavam por perdão e choravam durante os ofícios divinos.

[4] cf. I Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, São João Crisóstomo

[5] cf. Homilias sobre os Salmos, São Basílio Magno; Sétima Homilia sobre o Hexameron, São Basílio Magno; Sobre o Eclesiastes, São Gregório de Nissa. Uma das mais impressionantes é esta homilia de São João Crisóstomo sobre a I Epístola a Timóteo:

“São belas as roupas de seda? Na realidade, são tecidos produzidos por vermes. Sua beleza é convenção e preconceito humano, não coisa natural. Se você olhar uma moeda de bronze recoberta por uma camada de ouro, logo admira e diz que a moeda é de ouro. Somente os especialistas na matéria lhe mostram o engano e, com o desengano, vai-se a admiração. Vê como a beleza não está na natureza? O mesmo acontece com a prata. Caso vir um pedaço de estanho, você o admira como prata, assim como admirava o bronze por ouro. É preciso que haja pessoas que nos ensinem o que deve ser admirado. não bastam os olhos para discernir. Isto não acontece com as flores, que são mais belas que ouro e prata. Se vir uma rosa, não precisa que lhe digam que aquilo é uma rosa. Você é capaz de distinguir por si próprio entre uma anêmona e uma violeta. O mesmo ocorre com os lírios e as demais flores. Logo, todo o ouro é uma simples questão de preconceito. E, para que fique demonstrado que toda essa funesta paixão é uma simples questão de preconceito, basta que me responda: se o imperador decretasse que a prata vale mais que o ouro, não se transformaria seu amor e sua admiração? Veja a que ponto somos dominados em tudo pela avareza e pela opinião. Que isto seja assim e que as coisas sejam estimadas por sua raridade, não por seu valor natural, prova-o o fato de existirem entre nós frutos desprezados, que são estimados na Capadócia, assim como há outros que nós estimamos e que têm ainda maior valor na terra dos seres donde vêm os famosos tecidos de seda. O mesmo fenômeno se dá na Arábia, terra de perfumes e na Índia, mãe das pedras preciosas. Em conclusão, tudo é preconceito, tudo é convenção humana. Nada fazemos judiciosamente, mas tudo ao acaso.”

[6] cf. The Orthodox Church, Timoty Ware, Part. 1, Moscow and Petersburg, 1º Ed., 1968;  The Travels of Macarius,  Patriarch of Antioch; London, The Oriental Translation Fund, 1836, Book VII.

[7]http://tradortodoxas.blogspot.com/2008/01/o-deserto-no-quintal.html