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Contra o mito do bom civilizado Agosto 13, 2008

Posted by Rafael in filosofia, nativos, oriente e ocidente, third position.
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Durante meu encontro com Nikkon, perguntei sobre as outras coisas que ele pensava da Europa:

“O senhor viveu na Europa”, perguntei “O que o senhor pensa disso? Qual é a sua opinião sobre a civilização Ocidental?”

“Civilização!”, ele exclamou “A civilização Ocidental é um ersatz!”

Ele enfatizou a palavra “ersatz”. Esta palavra é de origem germânica. Significa substituto, enganador, falso. Após uma pausa, Nikkon continuou.

“Tudo que está nela: as artes, ciências, filosofias, religiões, é ersatz!

“O senhor acredita realmente que não há nada autêntico, bom, nos países da Europa Ocidental?”

“Nada”, ele respondeu, “Tudo é falso, vazio. A única exceção é a Ortodoxia. Mas até ela é dificilmente encontrada em sua forma genuína, original.”

Após ouvir que eu era Cristão Ortodoxo, o ancião fez uma observação:

“Você deve considerar-se um afortunado. Pois não há nada mais precioso neste mundo que o Cristianismo Ortodoxo. Mesmo com a dificuldade de encontrá-lo em sua forma mais pura, ordene tudo em sua vida de acordo com ele” [1]

No Ocidente moderno, é comum a disputa entre barbárie x civilização, bem x mal, progresso x atraso e assim por diante. Gurdjieff, inteligentíssimo esoterista do século XX, foi preciso ao identificar essa angústia de um amontoado de gente que já perdeu qualquer resquício daquilo que é entendido como civilização tradicional, angústia nascida pela falta de uma cosmo visão tradicional, que criou aquilo que Evola chamava de “mundo de agitados”, e a saga em busca de “progresso”, “conservação” ou até mesmo “regresso” [2], sem se dar conta que, neste mundo de agitados, todos correm para o mesmo abismo, embora por caminhos distintos.

As críticas de tradicionalistas, não só os da escola perenialista, como também de religiosos de vida contemplativa ou de sábios que tiveram algum contato ou pertenceram a uma civilização tradicional, sempre levam ao mesmo ponto: todas as correntes e ideologias ocidentais que concorreram entre si não passam de faces da mesma degeneração. O staretz Nikkon, citado acima, era um monge do Monte Athos praticante do hesicasmo, a contemplação e oração silenciosa, quando jovem viajara por toda a Europa ocidental, e teve a oportunidade de conhecer o modo de vida e pensamento europeu. Sua decepção foi grande, e não por menos: àquele acostumado à vida da antiga Grécia [3], por exemplo, a vida do europeu, quer do acadêmico quer do simples trabalhador, é muito agitada, inconstante e repleta de incertezas.

Russel Means, líder sioux e ativista dos direitos dos nativos norte-americanos, também notou esta tragédia do homem europeu, e foi ainda mais adiante em sua análise do capitalismo, comunismo, hegelianismo, cientificismo e alhures. Neste discurso, nota-se os laços entre a Tradição dos nativos norte-americanos e outras Tradições, como o Cristianismo. Como por exemplo, a crítica ao excesso de valor dado à palavra escrita, que para São João Crisóstomo nos mostrava o quão degradados somos [4], a crítica da transformação da natureza em propriedade privada [5], e neste ponto tanto marxismo como capitalismo são semelhantes, pois ambos desafiam a ordem natural das coisas.

Obviamente, tal raciocínio é capaz de levantar diversas questões e críticas, do tipo: como explicar o aumento da qualidade de vida, o avanço tecnológico e farmacêutico que permite o prolongamento da expectativa de vida, ou ainda as intermináveis guerras travadas entre nativos de todo o mundo. Mas tudo isso, se analisado e comparado friamente, nos mostra os problemas existentes entre os nativos não foram solucionados pelos bons civilizados, como também, aumentaram.

Em primeiro lugar, não só podemos como devemos questionar o conceito de qualidade de vida do homem ocidental, principalmente do primeiro mundo. Muito daquilo que lhe faz se orgulhar, como o conforto da nossa civilização contra a vida na natureza e todos seus perigos, não passa de um problema maior ainda. Os tradicionalistas acusam o homem moderno de perder a capacidade de contemplação, e isso pode muito bem deixar de ser uma acusação para se tornar uma constatação: qual homem ocidental é capaz de práticas contemplativas como o hesicasmo, meditação ou a adoração silenciosa dos nativos norte-americanos? Todo este conforto, construído no desvio da ordem natural das coisas, custou primeiro a capacidade de contemplação, e hoje custa a sanidade. O homem sente cada vez mais necessidade de trabalhar mais para obter mais conforto, e os avanços tecnológicos que aumentam seu conforto também fazem com que ele trabalhe cada vez mais. Distúrbios como DDA e doenças como depressão aumentam anualmente, e o crítico do uso de “drogas” feito pelos nativos não se dá conta que o homem moderno é cada vez mais dependente de remédios contra depressão, distúrbios de atenção e transtornos de personalidade. Ele não consegue ver qualquer relação entre estes problemas e o fato do homem moderno não viver mais em uma civilização de fato, mas sim num amontoado de indecisos, agitados que já perderam qualquer noção real sobre humanidade, transcendência e realidade.

Já os índios, citando J.P. McEvoy, “talvez não seja o progresso… mas que importa?”. Em países cristãos que ficaram livres do Imperialismo de Carlos Magno, como também do legalismo dos escolásticos e posteriormente de uma das maiores tragédias da humanidade, a Reforma Protestante, nota-se uma visão diferente sobre a religião, bem como o impacto da vida religiosa dessa população. O fervor dos russos anteriores às deformas de Pedro o Grande causavam espanto até aos emissários de Patriarcados ortodoxos como da Antioquia, já influenciado negativamente pelo Ocidente devido ao seu intercâmbio educacional com Roma devido ao domínio turco [6]. Já nos vilarejos gregos sob ocupação turca, onde os pais não tinham condições financeiras para enviar seus filhos para estudar no Ocidente, a vida era tranqüila e religiosa, semelhante à Rússia antes de Pedro, pois o domínio turco não era capaz de afetar o andamento da vida das pessoas que tinham um foco verdadeiro na vida. O que causava mais espanto era a concentração das crianças nos longos ofícios divinos, que em pé rezavam ao lado dos adultos, por horas, sem qualquer reclamação ou agitação. Algo semelhante às crianças dos nativos, que escutam por horas os ensinamentos orais de seu povo, como nota o professor Luiz Pontual, que coroa sua explicação com uma belíssima foto:

“É muito ilustrativo a este respeito o fato das crianças índias serem extremamente calmas e mesmo concentradas. São capazes, como pudemos testemunhar em mais de uma ocasião, de permanecerem durante duas ou mais horas em perfeita tranqüilidade , enquanto adultos conversam ou desempenham tarefas. Pode-se talvez compreender um pouco tal traço inusitado para os modernos se repararmos que um índio, assim como um camponês medieval, acompanha os vários momentos que constituem, por exemplo, o ciclo da alimentação. Ajudam ou vêem os pais desde o preparo da terra, passando pela semeadura, o brotar e o desenvolvimento das plantas , até sua colheita e preparo final para alimentação. É algo um tanto diferente, por exemplo, de um insuportável garoto super-ativo detonando um pacote de cornflakes…ou um hot-dog !”

Portanto, os ortodoxos mais sensatos como o Conde Lucas Notaris preferiam o turbante do sultão que a tiara do papa, já que enquanto o domínio turco custava apenas algumas vidas vez ou outra e um pouco de dinheiro, a aproximação ao degradado Ocidente custava a alma e o próprio modo de vida oriental. Os turcos não eram capazes de alterar a vida tranqüila e religiosa dos habitantes da Anatólia e da Trácia, mas a influência ocidental conseguiu lançar a Rússia nas maiores trevas de sua história, e logo em seguida jogou a Grécia sob jugo de Venizelos à guerra e decadência espiritual, em busca do tal progresso. É compreensível tanta angústia e desespero do Ocidental: ele pensa que está sempre atrasado, mas não sabe em qual local deve chegar.

Por isso o staretz alerta sobre onde encontrar a verdadeira Ortodoxia: a vida ortodoxa não envolve apenas a fé, ou a fé e um corpo de códigos morais a ser seguido, mas também toda uma visão de mundo [7], e que não pode existir entre a degradação da modernidade. Hoje em dia, lamentamos muito quando vemos fiéis exigindo a liturgia em vernáculo, padres desmerecendo o essencial da tradição como a batina ou a barba e cabelos longos, pois se trata de quem está muito próximo do ideal, pois bastaria olhar para algumas décadas atrás e perceber o quanto isso é importante e estava vivo, fazia parte de nosso cotidiano; enquanto os ocidentais já não têm a mesma sorte, pois passam por um processo de decadência gradual e longo, e possuem idéias muito vagas e imprecisas sobre tradição, pois a vida sob princípios tradicionais é algo que está muito distante, como uma abstração ou histórias de passado muito distante.

Por estas razões, não consigo me alinhar ou até mesmo ter como “mal menor” correntes como o conservadorismo, que embora aparentemente menos maléfica que o comunismo, faz parte do mesmo processo de degradação, e não é menos pretensioso, pois também se coloca como o dique que impede a invasão da barbárie, quando também é um filho desse mito do bom civilizado, aquele Homem Universal repleto de autocrítica, dúvidas, problemas e soluções, sempre colocando as mãos imundas e cheias de sangue naquilo que já estava ordenado.

[1] Messages From The Holy Mountain, Dr. Constantine Cavarnos, Cap. 6, pgs. 31,32.

[2] https://lasciateognisperanza.wordpress.com/2008/04/26/revolucao-e-contra-revolucao/

[3] Em The Elder Ieronymos of Aegina, de Pedro Botsis (Monastério da Santa Transfiguração, Massaschusetts, 2007), o autor nos conta o espanto de São Jerônimo ao chegar em Atenas, depois da troca de população entre Grécia e Turquia devido às insanidades de Venizelos. O santo, ao desembarcar em Atenas, chorou ao ver a falta de piedade religiosa e o pouco caso com a vida espiritual da população que não vivia sob domínio turco há muito tempo, e lembrava como a vida em sua antiga vila da cidade de Iconium (hoje Konya), na Anatólia, era muito mais piedosa. Para se ter uma idéia, na pequena vila onde o staretz foi criado, não só os monges como também boa parte da população tinha o costume de praticar a oração com lágrimas nos olhos, algumas vezes encharcando o chão das pequenas e lotadas igrejas de fiéis que clamavam por perdão e choravam durante os ofícios divinos.

[4] cf. I Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, São João Crisóstomo

[5] cf. Homilias sobre os Salmos, São Basílio Magno; Sétima Homilia sobre o Hexameron, São Basílio Magno; Sobre o Eclesiastes, São Gregório de Nissa. Uma das mais impressionantes é esta homilia de São João Crisóstomo sobre a I Epístola a Timóteo:

“São belas as roupas de seda? Na realidade, são tecidos produzidos por vermes. Sua beleza é convenção e preconceito humano, não coisa natural. Se você olhar uma moeda de bronze recoberta por uma camada de ouro, logo admira e diz que a moeda é de ouro. Somente os especialistas na matéria lhe mostram o engano e, com o desengano, vai-se a admiração. Vê como a beleza não está na natureza? O mesmo acontece com a prata. Caso vir um pedaço de estanho, você o admira como prata, assim como admirava o bronze por ouro. É preciso que haja pessoas que nos ensinem o que deve ser admirado. não bastam os olhos para discernir. Isto não acontece com as flores, que são mais belas que ouro e prata. Se vir uma rosa, não precisa que lhe digam que aquilo é uma rosa. Você é capaz de distinguir por si próprio entre uma anêmona e uma violeta. O mesmo ocorre com os lírios e as demais flores. Logo, todo o ouro é uma simples questão de preconceito. E, para que fique demonstrado que toda essa funesta paixão é uma simples questão de preconceito, basta que me responda: se o imperador decretasse que a prata vale mais que o ouro, não se transformaria seu amor e sua admiração? Veja a que ponto somos dominados em tudo pela avareza e pela opinião. Que isto seja assim e que as coisas sejam estimadas por sua raridade, não por seu valor natural, prova-o o fato de existirem entre nós frutos desprezados, que são estimados na Capadócia, assim como há outros que nós estimamos e que têm ainda maior valor na terra dos seres donde vêm os famosos tecidos de seda. O mesmo fenômeno se dá na Arábia, terra de perfumes e na Índia, mãe das pedras preciosas. Em conclusão, tudo é preconceito, tudo é convenção humana. Nada fazemos judiciosamente, mas tudo ao acaso.”

[6] cf. The Orthodox Church, Timoty Ware, Part. 1, Moscow and Petersburg, 1º Ed., 1968;  The Travels of Macarius,  Patriarch of Antioch; London, The Oriental Translation Fund, 1836, Book VII.

[7]http://tradortodoxas.blogspot.com/2008/01/o-deserto-no-quintal.html

Revolução e Contra-Revolução Abril 26, 2008

Posted by Rafael in grande síntese, third position.
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“…Le guerre sono vinte da coloro che hanno saputo attrarre dai cieli le forze misteriose del mondo invisibile e assicurarsi il concorso di queste forze. Queste forze misteriose sono già spiriti dei morti, già spiriti dei nostri antenati, i quali sono stati anche loro, un tempo, legati alla nostra terra, alle nostre zolle e sono morti in difesa di questa terra, rimanendo ancor oggi legati ad essa dal ricordo della loro vita quaggiù e per tramite nostro, loro figli, nipoti e pronipoti. Ma più in alto degli spiriti dei morti sta Dio. Queste forze, una volta attratte, fanno pendere la bilancia dalla tua parte, ti difendono, ti infondono coraggio, volontà e tutti gli elementi necessari alla vittoria e fanno sì che tu vinca. Gettano il panico e il terrore fra i nemici, paralizzano la loro attività. In ultima analisi, le vittorie non dipendono dalla preparazione materiale, dalle forze materiali dei belligeranti, ma dal loro potere di assicurarsi il concorso delle potenze spirituali. In questo modo si spiegano, nella nostra storia, le vittorie miracolose di alcune potenze assolutamente inferiori dal punto di vista materiale…” – Cornelio Codreanu

 

 

Creio ser necessário estabelecer, durante este tópico, as diferenças, intenções e conceitos dos chamados movimentos revolucionários e contra-revolucionários.

Dantes, é necessário esclarecer alguns aspectos da mentalidade contra-revolucionária, bem como suas vertentes. A mais ditosa, a Contra-Revolução idealizada pelos pensadores católicos ultra-conservadores, como a TFP e movimentos contra a Nova Missa e o Vaticano II, tem como base não só a luta contra a revolução esquerdista, mas também contra a própria revolução liberal.

Católicos como o Prof. Dr. Orlando Fedeli colocam, repletos de razão, capitalismo e comunismo como faces diferentes da mesma moeda. Assim, essa contra-revolução é uma tentativa de voltar a ínclitos tempos do passado, quando o homem era guiado por valorosos ideais espirituais, quando não havia qualquer influência dessa nefanda concepção individualista do homem que surgiu durante o protestantismo. Portanto, é patético notar em alguns simpatizantes e até membros da TFP um apreço pueril aos EUA e ao próprio capitalismo, já que na obra “Revolução e Contra-Revolução” do Sr. Dr. Plínio podemos perceber um caminho completamente oposto, que é o caminho da valente e heróica luta contra a modernidade e todas suas vertentes, uma verdadeira revolta contra as bases do mundo moderno que foram constituídas pelo Protestantismo. A tese defendida pelo Sr. Dr. Plínio nesta obra, uma das poucas que adotamos gostosamente, postula que o Protestantismo é o pai das revoluções liberais seguintes, que por fim desaguaram no comunismo. Outrossim, é a contra-revolução nos dias de hoje a própria revolução em seu sentido literal, é a volta a um estado de coisas superior, através do heroísmo e de um fatalismo místico e milenarista, que também vemos com bons olhos.

Agora, abordemos a posição contra-revolucionária covarde e contraditório de neocons e olavetes.

Olavo e limitados da mesma laia defendem que a mentalidade revolucionária é algo que deve ser banido, pois é responsável pelas maiores desgraças e matanças de toda a história da humanidade.


“A essência da mentalidade contra-revolucionária ou conservadora é a aversão a qualquer projeto de transformação abrangente, a recusa obstinada de intervir na sociedade como um todo, o respeito quase religioso pelos processos sociais regionais, espontâneos e de longo prazo, a negação de toda autoridade aos porta-vozes do futuro hipotético.

Nesse sentido, o autor destas linhas é estritamente conservador. Entre outros motivos, porque acredita que só o ponto de vista conservador pode fornecer uma visão realista do processo histórico, já que se baseia na experiência do passado e não em conjeturações de futuro. Toda historiografia revolucionária é fraudulenta na base, porque interpreta e distorce o passado segundo o molde de um futuro hipotético e aliás indefinível. Não é uma coincidência que os maiores historiadores de todas as épocas tenham sido sempre conservadores.

Se, considerada em si mesmo e nos valores que defende, a mentalidade contra-revolucionária deve ser chamada propriamente “conservadora”, é evidente que, do ponto de vista das suas relações com o inimigo, ela é estritamente “reacionária”. Ser reacionário é reagir da maneira mais intransigente e hostil à ambição diabólica de mandar no mundo.”

A Mentalidade Revolucionária, Olavo de Carvalho

Pois muito bem, eis que partindo dessas assertivas olavianas chegamos às seguintes conclusões:

1)- a mentalidade revolucionária deseja intervir a todo custo nos cursos da sociedade, em nome de seu tal “futuro hipoético”.
2)- a mentalidade revolucionária reveste-se de autoridade com base nesse futuro hipotético.
3)- mas no fim, o que move tudo isso é apenas a ambição diabólica de mandar no mundo.

Notamos que este pensamento carece de qualquer fundamento Tradicional, e está baseado em concepções com base no Protestantismo e seu filho preferido, o neoconservadorismo americano.

Embora neoconservadores neguem o intento de criar um novo homem, tal hipocrisia cai por terra ao notarmos que, na prática, buscam totalmente o contrário. Pois, o que é mais revolucionário que invadir países estrangeiros em nome de uma suposta libertação do povo, em nome da criação de regimes “democráticos”? Não é isso a busca por um novo homem? O insígne René Guénon, num tom que continua ainda mais atualizado nos dias de hoje, escreveu e profetizou:

“Incontestavelmente, o Ocidente está invadindo tudo; sua ação exerceu-se em primeiro lugar no domínio material, o que estava imediatamente ao seu alcance, seja pela conquista violenta, seja pelo comércio e o açambarcamento dos recursos de todos os povos. Mas as coisas agora vão ainda mais longe. Os ocidentais sempre animados por esta necessidade de proselitismo que lhes é tão peculiar, conseguiram até certo ponto espalhar entre outros, seu espírito anti-tradicional e materialista; e quando a primeira forma de invasão não atingia, em suma, senão os corpos, esta envenena as inteligências e mata a espiritualidade. Aliás, uma preparou a outra e a tornou possível, de maneira que não é em definitivo senão pela força bruta que o Ocidente chegou a impor-se por toda a parte, e não podia ser de outra forma, pois é nisso que assenta a única superioridade real de sua civilização, tão inferior sob qualquer outro ponto de vista.

A invasão ocidental é a invasão do materialismo sob todas as suas formas, e talvez não passe disso; todos os disfarces mais ou menos hipócritas, todos os pretextos “moralistas”, todas as declamações “humanitárias”, todas as habilidades de uma propaganda que sabe, na ocasião, tornar-se insinuante, para melhor atingir seu fim de destruição, tudo isso nada pode contra esta verdade, que não poderia ser contestada senão por ingênuos, ou por aqueles que têm qualquer interesse nesta obra verdadeiramente “satânica”, no sentido mais rigoroso da palavra.”

[…]

“Assim, quando a resistência a uma invasão estrangeira é feita por um povo ocidental, chama-se “patriotismo” e é ela digna de todos os elogios; quando porém, o é por um povo orientai, chama-se “fanatismo”, ou “xenofobia” e já não merece agora senão o ódio e o desprezo. Demais, não é em nome do “Direito”, da “Liberdade”, da “Justiça” e da “Civilização” que os europeus pretendem sempre impor a sua dominação, e impedir a qualquer outro homem que êle viva e pense de um modo diferente do seu? Convir-se-á que o “moralismo” é realmente uma coisa admirável, a não ser que se prefira concluir muito simplesmente, como nós mesmos que, salvo algumas exceções tanto mais honrosas quanto mais raras, já não há mais, por assim dizer, no Ocidente, senão duas espécies de pessoas, bem pouco interessantes tanto uma como outra: os ingênuos, que se deixam levar pelas belas palavras e que crêem em sua “missão civilizadora”, inconscientes como são da barbarie materialista em que estão mergulhados, e os hábeis, que exploram este estado de espírito para a satisfação de seus instintos de violência e de cupidez. Em todo o caso, o que há de certo é que os orientais não ameaçam a ninguém, nem cogitam tampouco de invadir o Ocidente de um modo ou doutro.” – “A Crise do Mundo Moderno”

Notamos tal pernicioso pensamento em ditos “católicos” neocons, como Dinesh D’Souza, sujeito que se diz católico, mas na prática e nas idéiais, é um protestante furreca. Notem que neocons reduzem o papel da religião ao moralismo, não é mais função da religião criar um novo homem, estabelecer uma ordem com fundamentos metafísicos; a função da religião é dar uma vida boa e garantir direitos individuais tão louvados pelo Ocidente.

Percebe-se tal pensamento materialista e destruidor de qualquer base Tradicional em qualquer artigo neocon sobre o assunto, como por exemplo:

http://www.americanthinker.com/2008/02/does_shariah_really_promote_hu.html

Embora as críticas ao Islam sejam superficiais e idiotas, a leitura do texto levanta um ponto importante, que merece mais atenção que as patuscadas de um autor limitado intelectualmente: o que nos chama a atenção é a monstruosa pretensão de julgar uma Tradição religiosa segundo fundamentos meramente humanos e, para desespero de qualquer neocon, revolucionários. Pois não foi a revolução iluminista que estabeleceu a primazia da “razão” contra os fundamentos os religiosos? Não foram os revolucionários secularistas que advogaram o completo abandono da concepção jusnaturalista em nome de uma direção rumo à vontade do populacho? Dinesh D’Souza, em seu folheto incensado como grande obra “What’s so great About America?” derrama elogios às liberdades individuais da América, e que, segundo o parvo americano, existem graças às raízes cristãs da América.

Mas de qual Cristianismo Dinesh trata? Do catolicismo, que ele diz professar? Ou do calvinismo, que instaurou durante sua era em Genebra um dos regimes que mais atacaram as liberdades individuais? Não, meus caros, Dinesh falava em nome de uma antiga religião: a adoração ao bezerro de ouro.

A adoração ao bezerro de ouro é o culto a Kaly, à destruição dos fundamentos tradicionais do homem. Ao utilizar o Cristianismo para defender seu ósculo ao bezerro, Dinesh cria uma nova religião, uma religião que não tem mais papas, Escrituras ou Tradição para guiar seus caminhos, mas sim os valores criados por… revolucionários!

Vejamos o que diz a Igreja Católica sobre as liberdades tão caras a neocons:


Monstruosidade da liberdade de imprensa

11. Devemos tratar também neste lugar da liberdade de imprensa, nunca condenada suficientemente, se por ela se entende o direito de trazer-se à baila toda espécie de escritos, liberdade que é por muitos desejada e promovida. Horroriza-Nos, Veneráveis Irmãos, o considerar que doutrinas monstruosas, digo melhor, que um sem-número de erros nos assediam, disseminando-se por todas as partes, em inumeráveis livros, folhetos e artigos que, se insignificantes pela sua extensão, não o são certamente pela malícia que encerram, e de todos eles provém a maldição que com profundo pesar vemos espalhar-se por toda a terra. Há, entretanto, oh que dor! quem leve a ousadia a tal requinte, a ponto de afirmar intrepidamente que essa aluvião de erros que se está espalhando por toda parte é compensada por um ou outro livro que, entre tantos erros, se publica para defender a causa da religião. É por toda forma ilícito e condenado por todo direito fazer um mal certo e maior, com pleno conhecimento, só porque há esperança de um pequeno bem que daí resulte. Porventura dirá alguém que se podem e devem espalhar livremente venenos ativos, vendê-los publicamente e dá-los a tomar, porque pode acontecer que, quem os use, não seja arrebatado pela morte?

12. Foi sempre inteiramente distinta a disciplina da Igreja em perseguir a publicação de livros maus, desde o tempo dos Apóstolos, dos quais sabemos terem queimado publicamente muitos deles. Basta ler as leis que a respeito deu o V. Concílio de Latrão e a constituição que ao depois foi dada a público por Leão X, de feliz recordação, para que o que foi inventado para o progresso da fé e a propagação das belas artes não sirva de entrave e obstáculo aos Fiéis em Cristo (Act. Concílio Lateran. V, ses. 10; e Constituição Alexand. VI ‘Inter multiplices’).O mesmo procuraram os Padres de Trento que, para trazer remédio a tanto mal, publicaram um salubérrimo decreto para compor um índice de todos aqueles livros que, por sua má doutrina, deviam ser proibidos (Conc. Trid. sess. 18 e 25). Há que se lutar valentemente, disse Nosso predecessor Clemente XIII, de piedosa memória; há que se lutar com todas as nossas forças, segundo o exige a gravidade do assunto, para exterminar a mortífera praga de tais livros, pois o erro sempre procurará onde se fomentar, enquanto não perecerem no fogo esses instrumentos de maldade (Encíclica ‘Christianae’, 25 nov. 1776, sobre livros proibidos). Da constante solicitude que esta Sé Apostólica sempre revelou em condenar os livros suspeitos e daninhos, arrancando-os às suas mãos, deduzam, portanto, quão falsa, temerária e injuriosa à Santa Sé e fecunda em males gravíssimos para o povo cristão é aquela doutrina que, não contente com rechaçar tal censura de livros como demasiado grave e onerosa, chega até ao cúmulo de afirmar que se opõe aos princípios da reta justiça e que não está na alçada da Igreja decretá-la.

Males da separação da Igreja e do Estado

16. Mais grato não é também à religião e ao principado civil o que se pode esperar do desejo dos que procuram separar a Igreja e o Estado, e romper a mútua concórdia do sacerdócio e do império. Sabe-se, com efeito, que os amadores da falsa liberdade temeram ante a concórdia, que sempre produziu resultados magníficos, nas coisas sagradas e civis.

Liberdade do mal que certas associações apregoam

17. A muitas outras coisas de não pouca importância, que Nos trazem preocupado e enchem de dor, devem-se acrescer certas associações ou assembléias, as quais, confederando-se com sectários de qualquer religião, simulando sentimentos de piedade e afeto para com a religião, mas na verdade possuídas inteiramente do desejo de novidades e de promover sedições em toda parte, pregam liberdades de tal jaez, suscitam perturbações nas coisas sagradas e civis, desprezando qualquer autoridade, por mais santa que seja. – “Mirari Vos” Papa Gregório XVI – MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=documentos&subsecao=enciclicas&artigo=mirarivos〈=bra
Online, 25/04/2008 às 14:10h

O culto ao bezerro de ouro não suporta tais cousas. O bezerro de ouro deseja a liberdade. A liberdade para perder almas, para impedir o surgimento do novo homem, de uma nova sociedade, pois nada é mais interessante a esse culto que a continuação desse estado de coisas. O bezerro de ouro é guardado pelos kuravas, que desejam a continuação da impiedade e o impedimento da chegada do novo reino.

Como, diante disso, manter uma atitude “conservadora” e “contra-revolucionária”? Seria um absurdo diabólico lutar contra esse bezerro de ouro? Se sim, podemos colocar no saco da mentalidade revolucionária os pandavas, que na batalha de Kurushetra buscaram a destruição do poder estabelecido.

Vejam que os elementos da tal “mentalidade revolucionária” estava presente na elevada batalha de Arjuna contra os seus, e o principal: a idéia de que a guerra não é apenas material, é interior, a destruição do inimigo faz parte do próprio dharma do guerreiro, a luta contra os samskaras, a natureza demoníaca que impede a liberação do homem.

Nos dia de hoje, vemos alinhados no campo da escuridão, como kauravas modernos, todas as doutrinas meramente políticas, sejam elas de índole conservadora ou revolucionária, mas que no fim visam apenas a pobreza do espírito, a supremacia da razão sobre esse despertar, essa liberação.

De outro lado, vemos alinhados os pandavas, homens que lutam pela verdadeira libertação e pela verdadeira volta ao estado original, buscam a criação desse novo homem transcendente e liberto de toda ilusão, de todos anseios transitórios e terrenos, conforme profetiza Alexander Dugin:

“The materialistic, atheistic, antisacral, technocratic, atlantist variant of the End is turned into a different epilogue — the final Victory of the sacred Avatar, the coming of the Terrible Destiny, giving those who chose voluntary poverty a reign of spiritual abundance, and to those who preferred wealth founded on assassination of Spirit, eternal damnation and torments in hell.”

Estamos em outra batalha de Kurushetra. Kurushetra significa “campo de ação”. Nos resta agora decidir em qual lado combateremos.